Sabe aquele tipo de show em que qualquer pretensão vai embora e o único objetivo é se jogar na diversão? Foi exatamente isso que os Viagra Boys entregaram no Lollapalooza Brasil: uma performance caótica, suada e absolutamente catártica.
A banda sueca sustenta uma energia permanentemente ébria — não no sentido de desleixo, mas de uma entrega descompromissada que funciona quase como um antídoto contra qualquer rigidez do público. Mesmo sob o calor inclemente, aquilo fazia todo sentido. Sebastian Murphy e companhia não tentam parecer maiores do que são; pelo contrário, transformam a própria despretensão em força. Já na abertura com “Man Made of Meat”, do álbum mais recente, isso fica evidente: é bagunçado, direto e extremamente eficaz.
O repertório foi praticamente um sprint pelos quatro discos da banda — uma escolha que sacrifica respiros mais elaborados, mas ganha em urgência. Ao vivo, essa mistura de fases funciona melhor do que nos álbuns: o tal “punk-ébrio-diversão” pode até soar como caricatura no papel, mas no palco se transforma em uma identidade coesa, ainda que irregular.
Momentos específicos ajudam a quebrar a previsibilidade. “Punk Rock Loser” trouxe um peso mais arrastado e um vocal mais rasgado, quase como um lembrete de que existe tensão sob a superfície festiva. Já “Ain’t No Thief” funcionou como gatilho imediato: pulsante, dançante, impossível de ignorar — até quem resistia acabou cedendo.
Mas é nas versões ao vivo que o Viagra Boys realmente se impõe. “Uno II” e “Pyramid of Health” soam mais cruas, mais expostas, como se finalmente revelassem o que escondem em estúdio. Os instrumentos ganham corpo, a sujeira aparece — e a experiência cresce.
Do outro lado, o caos controlado: “Troglodyte” abriu a maior roda até então no festival, engatando com “Sports” e “The Bog Body” em um bloco que beirou o colapso coletivo. Ainda assim, nada atingiu o nível quase apocalíptico de “Research Chemicals” — quando, a pedido de Murphy, o lado esquerdo do palco virou território de pogo desenfreado.
Sob um sol impiedoso, Hillborg — com uma toalha na cabeça — mantinha riffs quase robóticos, enquanto o festival começava a se transformar em uma espécie de rave infernal a céu aberto.
No fim, sobra uma sensação curiosa: não foi um show perfeito — longe disso. Em alguns momentos, a fórmula ameaça se repetir e a espontaneidade parece ensaiada demais. Mas talvez esse seja justamente o ponto. O Viagra Boys não quer perfeição; quer excesso, sujeira e gente se mexendo sem pensar muito.
E nisso, acertam em cheio. Público e banda saem satisfeitos — cada um à sua maneira, cada um na sua própria bagunça. E, no meio disso tudo, muita música boa também.
