​A Catarse em 3.000 Pessoas: Interpol e Viagra Boys na festa pré-Lolla em São Paulo.

Foto: Bernardo Dinnuci

Ver bandas como Interpol ou Viagra Boys em um local para 3.000 pessoas é uma experiência inesquecível, que deixa marcas e a vontade de repetir, mesmo sabendo que não acontecerá novamente da mesma maneira ou com a mesma efervescência. As duas  bandas estão em São Paulo para participar do festival Lollapalooza 2026 na Sexta-feira 20 de março no Autódromo de Interlagos. 

​Rock para multidões derramado em locais pequenos fica eternamente na memória, com imagens inesquecíveis de um momento tão inacreditável e curioso que quase parece nunca ter acontecido. O que parece uma dupla incongruente  agrada de sobremaneira a multidão que esgotou com antecedência todos os ingressos da Audio no coração da Barra Funda .


​Interpol

O clima de clube gótico ganha vida às 22:00. O começo do setlist, com "All the Rage Back Home", "No I in Threesome" e "C'mere", foi bem diferente dos shows de 2024, quando tocaram na íntegra os dois primeiros álbuns da banda de Paul Banks.

Com a bateria tribal e potente do baterista substituto Urian Hackney, a música "Rest My Chemistry" vira um conjuro sob luzes estroboscópicas, bola de espelhos e camadas infinitas de sombras hipnóticas, liderados pela voz inconfundível de Banks e pela guitarra de Daniel KesslerDo álbum Turn on the Bright Lights, eles tocam "PDA", "Obstacle 1" e "NYC".

​Mudamos para a luz vermelha. Gritos da plateia, o baterista marcando o compasso e o baixo no talo, que ao vivo soa como cavalos sapateando em um estábulo. E nós estamos no andar de baixo, nas catacumbas, dançando dentro de cavernas com sorrisos no rosto. O Drácula existe e nos levou para o seu amor infinito dentro de um caixão.

Foto: Bernardo Dinnuci



​Esse "dum dum dum" do baixo arrastado, que o The Cure e New Order  trouxeram para as pistas de dança, é revisitado e estilizado para continuar vigente 24 anos após o surgimento do Interpol. O carrossel de emoções continua, em uma montanha-russa de ritmos goth, post-punk e new wave soturnos e poéticos que levam a um hipnotismo constante.

Fechar a noite com "Slow Hands" é pedir para nunca ser esquecido. São 23 : 37  O Interpol deixa o palco e a plateia que resistiu o medo de perder o metrô sai com as roupas pretas encharcadas e a alma roubada e lavada .

Esta é a sétima visita do Interpol a São Paulo e o nono show na capital do entretenimento brasileiro. A apresentação no Lollapalooza Brasil 2026 será a décima.

​Viagra Boys

Talvez o Viagra Boys nunca mais consiga reunir 3 mil pessoas para vibrar em uma boate estilo "catacumba", com teto baixo, como a casa de shows da Barra Funda (um excelente lugar para ver noites históricas). O fã é quem mais ganha nessas festas pré-Lollapalooza. Na imensidão do palco do festival, muitas vezes se perde o encanto e a conexão direta com a plateia devido à longa distância.

Às 20h29, as luzes se apagam e os suecos são ovacionados. ​Local certo, no momento certo. ​A plateia sabe o que veio ouvir. Começa "Man Made of Meat" e os coros, praticamente futebolísticos, são ensurdecedores. Uma pessoa está fantasiada de cenoura e se diverte ao ser arremessado pela multidão. 

Todos já estamos encharcados de suor quando começam as rodas e somos metralhados com "Slow Learner", "Waterboy" e "Punk Rock Loser".

Mesmo após anos na estrada, era notável a alegria da banda. Imediatamente após três canções, o vocalista Sebastian Murphy reverenciou o Brasil, dizendo que aquilo ia muito além do que eles esperavam: "Finalmente viemos ao Brasil!" — uma brincadeira com o famoso slogan "Come to Brazil", que os fãs brasileiros multiplicam e invadem nas postagens de Instagram.

​Quando chega o momento de "Pyramid of Health", realmente conseguimos entender o som do Viagra Boys. Existe uma clara divisão — ou, na verdade, uma codependência. De um lado, o trio formado por Linus Hillborg (guitarra), Henrik Höckert (baixo) e Tor Sjödén (bateria) poderia muito bem ser o Bauhaus ou alguma banda post-punk soturna dos anos 80. 

Mas, na frente, o tatuado vocalista sem camisa e os dois músicos de apoio nas laterais, de short e camiseta — Elias Jungqvist (teclados) e Oscar Carls (saxofone e percussão) —, fazem a parte performática. Eles são a metade mais "veraneio", um clube do inferno, filhotes diretos de Devo ou Big Audio Dynamite. E os seis fazem tudo funcionar de uma maneira coesa e empolgante.

​Com essas músicas dançantes e sincopadas, o Viagra Boys faz um desfile de tópicos agressivos e críticas sociais: contra a sociedade hipócrita, as redes sociais como única fonte de informação ou vida, e o antifascismo, tendo até um momento pró-Palestina (posicionamento que também já vimos em shows do Mogwai, Napalm Death e The Exploited).

​Em meio a isso, o vocalista elogia o pão de queijo, tenta improvisar um sambista cantando bossa nova, faz seu stage diving se jogando por cima da plateia e não para com as dancinhas. A festa é selvagem. Os seguranças não esperavam um show de hardcore punk com surfistas de cabeças (crowd surfing). ​O show vira uma massa de corpos que vibram e pulsam sem parar.

​Na reta final, durante "Sports", o vocalista faz flexões no palco. O deboche é completo. O clima vira uma deliciosa pancadaria amistosa, com o tecladista surgindo, flutuando por cima da multidão. 

Com os olhos eufóricos de todos os membros, o Viagra Boys  sabe que conquistou seu público e fez um show debut  inesquecível que será comentado durante décadas até virar uma lenda urbana.  

Tomara que cresçam e se multipliquem E essa lenda urbana vire realidade  corriqueira e constante.  

Loquillo Panamá

Nômade agregador de ritmos musicais e fanático por shows. Está sempre correndo atrás de novidades para multiplicar e informar os amantes de boa música.

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