Red Star não pede espaço — constrói o próprio palco

Jeferson Bem - Foto: Agrotóxico / Divulgação

A história da Red Star não começa como um plano grandioso. Começa como urgência.

Em 1997, o músico e produtor Jeferson Bem, baixista do Agrotóxico, decidiu lançar o primeiro disco da banda e, sem pretensão, criou um selo para viabilizar não só aquele trabalho, mas também o de outros grupos que não tinham espaço para gravar.

Quase três décadas depois, o que era um selo se transformou em um dos núcleos mais ativos da música independente no Brasil.

A Red Star nasce para ser um selo voltado pra cena punk brasileira… e por acidente acabou indo muito além disso.

Esse “acidente” levou a conexões internacionais, lançamentos de bandas como D.O.A. e Rasta Knast, e até trabalhos com New Model Army — ampliando o alcance sem abandonar a essência: comunidade acima de mercado.

Do selo ao complexo

Smack ao vivo na Red Star: Tadeus Dias, Sandra Coutinho, Thomas Pappon e Edgard Scandurra - Foto: Ricardo A. Flávio / Rock On Board

O crescimento não seguiu um plano rígido — foi orgânico, quase inevitável.

O estúdio surgiu “por acidente”, mas rapidamente virou o centro de uma ideia maior: oferecer às bandas independentes tudo aquilo que sempre faltou — estrutura, qualidade e autonomia.

Hoje, a Red Star funciona como um ecossistema completo:


• Red Star Recordings: mais de 100 lançamentos entre vinil, CD e digital;

• Red Star Studios: estúdios de ensaio e gravação em São Paulo, incluindo a histórica sala de Moema (ex-Mr. Som);

• Red Star Produções: responsável por eventos como o Pünk na Pasköa e Punktoberfest;

• Red Star Electrified: fabricação artesanal de amplificadores valvulados

• Bomber Pub: ponto de encontro e extensão natural da cena.


Tudo operando praticamente sem pausa.

A gente abre de domingo a domingo, das nove da manhã até uma da manhã.

Mais do que estrutura, existe uma filosofia clara:

Fazer com que todo mundo se sinta parte de uma comunidade.

Bomber Pub - Korzus, Baranga, Jeferson Bem - Foto: Arquivo Pessoal

Cena viva, forte — e fragmentada

Para Jeferson Bem, a música independente nunca foi tão potente — mesmo com divisões.

A cena está extremamente mais forte, embora mais fragmentada.

Ele aponta a perda de força das grandes gravadoras e o crescimento de espaços independentes como motores dessa mudança. Ainda assim, reconhece o peso do capital nos grandes festivais, que muitas vezes ocupam o espaço que poderia ser da cena underground.

Mas a resistência segue — e se diversifica.

A resistência política se espalhou por vários estilos… do punk ao hip-hop, ao funk.

E, talvez mais importante, existe renovação:

Tem uma molecada chegando… e isso é muito importante.

Pierre (Cólera), Ariel (Invasores de Cérebros) e Jeferson Bem - Foto: Arquivo Pessoal

Entre o palco e a engrenagem

Conciliar tudo isso com a vida de músico não é simples — é total.

Eu trabalho 15, 16 horas por dia… mas com prazer.

Mesmo assim, o impacto de tocar no Flicts e no Agrotóxico não diminuiu — pelo contrário.

O peso dessas bandas pra mim é maior e crescente.

Com o Agrotóxico ativo e expandindo fronteiras — incluindo turnês pelo Brasil e Europa — fica claro que a conexão com a cena segue viva e em movimento.

E escolher entre ser músico ou produtor?

Nunca passou pela minha cabeça.

Jeferson Bem - Foto: Flicts / Divulgação

O palco como experiência

Nos shows da Red Star, existe um objetivo claro:

Esse é o melhor palco pra você ver a banda que mais gosta.

A proximidade com o público, a qualidade sonora e o ambiente criam algo além do show — uma experiência de pertencimento.

E isso se reflete no comportamento:

A gente não tem treta… todo mundo colabora.

Violeta de Outono ao vivo na Red Star: Ângelo Pastorello, Cláudio Souza e Fábio Golfetti - Foto: Ricardo A. Flávio / Rock On Board

Red Star Sessions: o registro definitivo

O próximo passo já está em andamento — e tem cara de legado.

O Red Star Sessions vai registrar ao vivo algumas das bandas mais importantes da cena em uma série de 10 LPs.

O primeiro já está em pré-venda: Devotos.

Na sequência, nomes como:

• Cólera (em álbum duplo)
• Garotos Podres
• Inocentes
• Agrotóxico

Além de surpresas como Torture Squad e Raíces de América.

Tudo em vinil 180g, com identidade visual única — pensado como coleção.

Val (Cólera) e os equipamentos Red Star Electrified - Foto: Arquivo Pessoal

Legado sem dependência

Ao ser questionado sobre o impacto da ausência da Red Star, a resposta foge do ego:

A cena é absolutamente independente de qualquer ator.

Para ele, o importante não é a permanência de uma estrutura — mas a continuidade da cultura.

A música boa, a ideia boa, vem do underground.

Enquanto isso, a história segue

Entre novos lançamentos, shows e projetos em expansão, a Red Star continua fazendo o que sempre fez: criar possibilidades.

Sem pedir espaço. Construindo o próprio.

Red Star Electrified - Foto: Divulgação


Ricardo Cachorrão

Ricardo “Cachorrão” é o velho chato gente boa que não pede licença pra gostar de música. Viciado em rock and roll, formou opinião longe de rádio, longe de MTV e perto demais de pilhas de discos e revistas. Tem alergia a banda cover, respeito profundo por discos obscuros do Frank Zappa e ainda sai sorrindo de um show do Iron Maiden — mas é no calor, no barulho e no caos dos buracos punk da periferia que se sente vivo de verdade. Já escreveu para Rock Brigade, Kiss FM, Portal Rock Press e a Revista Eletrônica do Conservatório Souza Lima. Está no Rock On Board desde o começo — e não pretende sair tão cedo.

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