35 anos de “Nevermind”, o disco que catapultou o Nirvana, carimbou o grunge e mudou o rock


Em 24 de setembro de 1991, o Nirvana colocou nas lojas um disco que ninguém imaginava que teria força suficiente para mudar não apenas a história do rock, mas também a relação de uma geração com seus ídolos. Ao contrário do que muitos contam por aí, Nevermind não inventou o grunge. Não foi o primeiro grande disco produzido pela cena de Seattle e tampouco o Nirvana era a banda mais estabelecida daquele movimento quando chegou às lojas. Mas o que aconteceu depois daquele 24 de setembro é difícil de dimensionar.

O álbum transformou o Nirvana em um fenômeno mundial, colocou Seattle no centro da cultura pop, fez do grunge uma referência estética e comportamental e transformou Kurt Cobain em um dos maiores símbolos de uma geração.

Mas é sempre importante lembrar que muito antes de “Smells Like Teen Spirit” dominar a MTV, havia uma cena acontecendo no Noroeste dos Estados Unidos. Soundgarden, Mudhoney, Alice in Chains, Pearl Jam, Screaming Trees, Mother Love Bone e diversas outras bandas já construíam algo realmente poderoso. O próprio Nirvana havia lançado Bleach, em 1989.


O Alice in Chains inclusive, já havia lançado Facelift em 1990, que acabou sendo o primeiro álbum daquele movimento a vender mais de 1 milhão de cópias. E para a surpresa de muita gente, Ten, a obra-prima do Pearl Jam, já estava nas lojas um mês antes. 

Mas o fato é que Nevermind colocou uma lupa sobre aquela cena. E, de repente, tudo aquilo que acontecia naquela região ganhou uma dimensão mundial. Após o sucesso estrondoso de Nevermind, aqueles garotos roqueiros que ocupavam os becos de Seattle começariam a ditar os rumos no mundo pop.


O rock antes de “Nevermind”

No final dos anos oitenta, o rock ainda carregava boa parte da estética grandiosa do hard rock setentista. Bandas com visual cheio de glamour e atitude espetaculosa ainda apareciam vendendo milhões de discos e carregando multidões para grandes arenas. O público enxergava em seus ídolos figuras quase inalcançáveis. Era uma lógica que vinha de décadas anteriores, personificada em lendas como Freddie Mercury e Robert Plant nos anos setenta e replicada em novos modelos desse universo, como Axl Rose e Bon Jovi na década seguinte. 

Ídolos do rock com roupas de couro, paetês, coturnos caros e cabelos montados eram vendidos nas capas de revistas teens e em pôsteres pendurados em lojas de discos em quantidade viral. Tudo isso ruiu, quando “Smells Like Teen Spirit” e toda aquela galera do "grunge" começaram a ocupar a programação da MTV em rotação pesada.

Camisas xadrez, jeans, camisetas, cabelos compridos ou desgrenhados, roupas usadas e uma aparência deliberadamente distante do glamour passaram a fazer parte do imaginário juvenil. O curioso é que aquilo que nasceu como uma aparência cotidiana e, em muitos casos, econômica, acabou sendo absorvido pela indústria da moda e criou diversos subprodutos nos anos posteriores.


Um rockstar que não queria se olhar no espelho

É curioso lembrar, que de todas as principais bandas do grunge, o Nirvana era de longe a mais despretensiosa e com a formação mais enxuta. Kurt Cobain, Krist Novoselic e Dave Grohl eram apenas três caras humildes, que sonhavam em conseguir vender no máximo 250 mil cópias de Nevermind. No entanto, sucessos como “Come As You Are”, “Lithium” e “In Bloom” fizeram o disco atravessar a fronteira do rock alternativo e bater mais de 35 milhões de cópias no mundo inteiro.


Quatro meses depois de lançado, o álbum ainda derrubaria Dangerous, de Michael Jackson, e ocuparia o primeiro lugar da Billboard 200. O Nirvana definitivamente havia deixado de ser uma banda alternativa - e Kurt Cobain havia se tornado um rockstar.


A posição ocupada por Kurt Cobain era uma das grandes contradições dessa história. Para quem possa ainda não saber, Cobain era profundamente influenciado por artistas e bandas que estavam muito longe do modelo tradicional de superstar. Ele amava gente como Buzz Osborne, dos Melvins, Black Francis, do Pixies, e se espelhava na cultura independente. Era isso que fazia parte de seu universo musical.

Com todo esse sucesso, Cobain passou a carregar uma expectativa que não parecia compatível com a pessoa que era ou com a maneira como enxergava sua própria música. A fama, a pressão, os problemas pessoais, os conflitos familiares e sua relação problemática com as drogas fizeram parte de uma história que terminou tragicamente em 1994. 

É realmente importante não transformar a trajetória de um dos maiores nomes do rock em mito ou romantizar a tragédia. Mas também é impossível contar a história de Nevermind sem reconhecer a contradição: o homem que se tornou símbolo de uma geração parecia cada vez menos confortável com o tamanho do próprio símbolo. E então aquele sujeito que queria fazer música fora do sistema virou exatamente aquilo que o sistema transforma em produto: um ídolo. Para Cobain, era estranho saber que jovens do mundo inteiro passaram a querer parecer com ele, e isso o incomodou até o fim de sua curta existência.

'Nevermind' ajudou a criar outro rockstar

Dave Grohl entra em cena. O baterista que havia construído sua carreira na cena hardcore de Washington, especialmente com o Scream, entrou no Nirvana em 1990, substituindo Chad Channing. Foi a formação com Grohl que gravou NevermindGrohl trouxe potência e precisão à música de Cobain e Novoselic. E, embora o sucesso posterior do baterista com o Foo Fighters seja outra história, sua participação em Nevermind faz parte fundamental da explosão do Nirvana.

O impacto de 'Nevermind'

Existe ainda uma característica curiosa na história do Nirvana. Ao contrário de muitas bandas gigantes do rock, sua discografia de estúdio é relativamente pequena. E ainda assim o impacto provocado pelo grupo é gigantesco. Mas, para muitos que viveram aquela época, essa transformação só aconteceu porque Nevermind chegou no momento exato em que um portal se abriu.

O disco encontrou uma indústria preparada para procurar uma novidade, uma MTV que ainda tinha enorme influência sobre o comportamento juvenil e uma geração que parecia cansada do excesso da década anterior.


Trinta e cinco anos depois, Nevermind continua sendo muito mais do que um disco importante do rock. É um documento de uma mudança cultural. De uma mudança de percepção sobre os modelos do rock. Mudou inclusive a estética de uma geração e o alvo dos caçadores de cifras.

Nevermind não inventou o grunge. Não inventou a cena de Seattle. Não inventou a atitude punk. Mas, em 24 de setembro de 1991, esse álbum fez algo que precisa ser feito de tempos em tempos com urgência: rejuvenesceu o rock.

Bruno Eduardo

Jornalista e repórter fotográfico, é editor do site Rock On Board, repórter colaborador no site Midiorama e apresentador do programa "ARNews" e "O Papo é Pop" nas rádios Oceânica FM (105.9) e Planet Rock. Também foi Editor-chefe do Portal Rock Press e colunista do blog "Discoteca", da editora Abril. Desde 2005 participa das coberturas de grandes festivais como Rock in Rio, Lollapalooza Brasil, Claro Q é Rock, Monsters Of Rock, Summer Break Festival, Tim Festival, Knotfest, Summer Breeze, Mita Festival entre outros. Na lista de entrevistados, nomes como Black Sabbath, Aerosmith, Queen, Faith No More, The Offspring, Linkin Park, Steve Vai, Legião Urbana e Titãs.

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