Sepultura e a celebração de um legado de 42 anos de história

Foto: Ricardo A. Flávio

O dia amanheceu lindo em São Paulo! A temperatura chegou aos 30°C, mas, de repente, o céu fechou no meio da tarde e a chuva caiu sem dó. Para completar, o trânsito caótico transformou a travessia da cidade em uma verdadeira batalha. Acabei perdendo os três shows de abertura: Sacred Reich, Krisiun e Metal Allegiance. Mas cheguei a tempo de testemunhar aquilo que realmente me levou até lá: THE LAST CONCERT OF SEPULTURA… DO BRASIL!

Sábado, 7 de novembro de 2026. No Suhai Music Hall, encontro um público visivelmente emocionado. Não era apenas a expectativa de assistir a mais um show do Sepultura. Todos sabiam que estavam prestes a testemunhar o encerramento de uma história construída ao longo de 42 anos.

Passava um pouco das 21h quando o roteiro daquele show de despedida que acompanhei em 2024, no Espaço Unimed, começou a se repetir. Apagam-se as luzes e o sistema de som da casa manda “War Pigs”, aquele clássico manjado e essencial do Black Sabbath, seguido por “Polícia”, dos Titãs. Como daquela vez, o público se empolga e canta tudo!

Agora é para valer! A banda sobe ao palco e “Arise” chega para deixar o jogo ganho logo na abertura. Clássico absoluto e parte fundamental do legado da maior banda do metal brasileiro em todos os tempos.

Foto: Ricardo A. Flávio

Show abrindo com “Arise” é jogo ganho!

Noite de festa também é quando o artista aproveita para resgatar sons esquecidos do repertório. E a banda toca “Altered State”, faixa do álbum “Arise” (1991), uma canção que não era executada ao vivo pelo Sepultura desde 2013. Um presente para quem acompanha a trajetória do grupo.

Mantendo o clima lá no alto, vem “Desperate Cry”, seguida de uma novidade: “All Souls Rising”, faixa que faz parte do recém-lançado EP “The Cloud of Unknowing”, trabalho que tem como grande particularidade ser o primeiro registro de estúdio com o baterista Greyson Nekrutman.

O show segue com “Kairos” e, antes de “Means to an End”, faixa do sensacional álbum “Quadra”, o vocalista Derrick Green resolve conversar com a plateia. Agradece a presença de todos e fala sobre o quanto aquela noite é especial para a banda.

Foto: Ricardo A. Flávio

Em retribuição, o público grita a plenos pulmões: “DERRICK! DERRICK! DERRICK!”

É visível a emoção do vocalista, que desde sua entrada no Sepultura precisou conviver com as inevitáveis comparações com o antigo cantor. Derrick reage dizendo: “Vocês nunca me viram chorar!”. Andreas Kisser aproveita a deixa e provoca: “Ahhhh… vai chorar, sim!”.

Momento emocionante, daqueles que ajudam a entender a dimensão da relação construída entre a banda e seu público.

Na sequência, Andreas Kisser toma a frente e anuncia os primeiros convidados da noite. Antes, conta uma história curiosa. Diz que estava na plateia de um show do Metal Allegiance, na Flórida, quando assistiu à apresentação da banda Chained Saint, que ele chamou carinhosamente de “Sepultura mirim”. Sabendo que Andreas estava por ali, os garotos resolveram tocar “Propaganda”, faixa do clássico “Chaos A.D.”, e impressionaram o guitarrista brasileiro.

Agora era a vez de Ethan Kahn e Sean Sterling subirem ao palco para executar a mesma música ao lado do Sepultura. Que honra!

Outro convidado é Allan Wallace, guitarrista da banda mineira Eminence, que participa de “Dusted”, faixa de “Roots”.

Foto: Ricardo A. Flávio

Visivelmente emocionado, Andreas Kisser relembra 1997, quando a banda procurava um novo vocalista e vivia um dos momentos mais conturbados de sua história. Foi naquele período que nasceu seu filho, Yohan Kisser, agora convidado a subir ao palco para tocar “Convicted in Life”, faixa do álbum “Dante XXI”. Um encontro de gerações e uma passagem particularmente pessoal na trajetória do guitarrista.

A noite é de pura emoção, no palco e na plateia. A sequência traz “Attitude”, de “Roots”, “We’ve Lost You”, de “A-Lex”, faixa que a banda não executava desde 2015, e a nova “The Place”.

Antes desta última, Andreas faz questão de pedir aplausos para Greyson Nekrutman. Relembra como foi a entrada do baterista no Sepultura, em uma situação de urgência, com pouco tempo para aprender um repertório gigantesco e assumir a responsabilidade de substituir Nicko McBrain? Não, Nicko é do Iron Maiden! A missão era ocupar a vaga deixada por Eloy Casagrande, que havia seguido outro caminho profissional.

Foto: Ricardo A. Flávio

Brincadeiras à parte, Greyson encarou o desafio e, dois anos depois, conquistou seu espaço. Andreas comenta que o baterista está quase virando brasileiro e destaca a energia renovada que trouxe ao grupo. Tanto que a banda acabou lançando um novo EP, algo que sequer estava nos planos iniciais da turnê de despedida.

É significativo: mesmo com o encerramento anunciado, o Sepultura ainda encontrou disposição para criar e produzir música nova.

Andreas gosta de conversar e, em outro momento, explica a importância do violão em sua formação musical, lembra grandes compositores brasileiros e chama ao palco Max Kolesne, baterista do Krisiun. Juntos, executam “Itsári”, faixa de “Roots” que a banda não tocava desde 1998.

Ainda com Kolesne no palco, reforçados por inúmeros fãs e integrantes da equipe, chega a vez de “Kaiowas”, outro clássico de “Chaos A.D.”. Um daqueles momentos lindos de celebração coletiva, com o palco e a plateia unidos pela música.

Foto: Ricardo A. Flávio

Aliás, em diferentes momentos da apresentação, o público também encontra espaço para manifestações políticas, entoando a plenos pulmões o já conhecido “Hey Bolsonaro, vai tomar no cu!”. A contestação também faz parte da identidade de boa parte daquela plateia.

“Dead Embryonic Cells” tem o efeito avassalador de sempre. Na sequência, com o convidado Amílcar Christófaro, do Torture Squad, assumindo a bateria, executam “Beneath the Remains”, uma homenagem especial a um dos discos fundamentais da história do Sepultura.

Em seguida, a banda toca “Breed Apart” e Andreas permanece sozinho no palco para um solo de guitarra alucinante. Em determinado momento, pendura o instrumento diante de uma enorme tela instalada no palco e realiza uma pintura ao vivo, extraindo sons da guitarra de maneira empolgante. Um espetáculo à parte!

Andreas convida João Gordo ao palco e juntos tocam “Reza”, faixa presente em “Against”. Ainda com Gordo, agora acompanhado pelo guitarrista Jão, dos Ratos de Porão, executam duas músicas da lendária banda paulistana: “Crucificados Pelo Sistema” e “Beber Até Morrer”.

A plateia vai à loucura e finaliza a participação com o grito “RATOS! RATOS! RATOS!”, reforçado pelo próprio Andreas Kisser ao microfone.

Ricardo A. Flávio

Chega então a vez de Jairo Guedz ser chamado ao palco. Andreas relembra detalhes da formação do Sepultura e destaca a importância do guitarrista, um dos fundadores da banda. Juntos, revisitam três momentos importantes da discografia: “Biotech Is Godzilla”, “Slave New World” e “Troops of Doom”.

Com “Territory” e “Refuse/Resist”, a banda encerra o set principal. Até aqui, já são 29 canções!

Após uma rápida saída do palco, Greyson Nekrutman retorna sozinho para um monumental número de bateria. Emendada no solo, chega “Ratamahatta”.

É também nos pequenos detalhes que a despedida se revela. Andreas Kisser veste uma camiseta com a inscrição “THAT’S ALL FOLKS!”, a famosa frase que encerra os desenhos da Looney Tunes. Algo como “É só isso, pessoal!”. Uma escolha bem-humorada, mas bastante significativa para aquela ocasião. Até a camiseta parecia anunciar o encerramento de uma história.

Foto: Ricardo A. Flávio

Andreas assume novamente o microfone e faz um emocionante discurso de agradecimento. Fala sobre as bandas de abertura, relembra os músicos que passaram pelo Sepultura e não deixa de mencionar nomes fundamentais dessa trajetória, incluindo os irmãos Max e Iggor Cavalera e o baterista Eloy Casagrande, que deixou a banda justamente quando ela se preparava para iniciar a turnê de despedida e posteriormente assumiu as baquetas do Slipknot.

Um reconhecimento a todos que, de alguma maneira, ajudaram a construir essa história.

E chega a hora da última música.

Não poderia ser outra. “Roots Bloody Roots” é a escolhida para entrar definitivamente na história como a última canção executada ao vivo pelo Sepultura no Brasil.

Assim se encerra uma vitoriosa carreira de 42 anos, deixando um legado imensurável e, sem dúvidas, a trajetória da maior banda brasileira de metal de todos os tempos.

Acompanhei o Sepultura ao vivo durante muitos anos, desde a época de “Beneath the Remains”, ainda com Max Cavalera nos vocais. Vi diferentes formações, acompanhei mudanças, transformações e momentos importantes dessa história. Também estive presente em um dos primeiros shows da turnê de despedida, em 2024, quando ainda havia toda uma estrada pela frente.

Foto: Ricardo A. Flávio

Agora, dois anos depois, testemunho o capítulo final.

O Sepultura não precisa de uma despedida para provar sua importância. Sua música já conquistou um lugar definitivo na história do rock mundial. Mas foi bonito acompanhar essa última celebração, com convidados, amigos, familiares, fãs emocionados e uma banda que, até o último acorde, demonstrou orgulho de sua trajetória.

Que venham os novos projetos e que todos sejam felizes.

THAT’S ALL FOLKS!

Assim acabou o Sepultura, do Brasil.

Ricardo Cachorrão

Ricardo “Cachorrão” é o velho chato gente boa que não pede licença pra gostar de música. Viciado em rock and roll, formou opinião longe de rádio, longe de MTV e perto demais de pilhas de discos e revistas. Tem alergia a banda cover, respeito profundo por discos obscuros do Frank Zappa e ainda sai sorrindo de um show do Iron Maiden — mas é no calor, no barulho e no caos dos buracos punk da periferia que se sente vivo de verdade. Já escreveu para Rock Brigade, Kiss FM, Portal Rock Press e a Revista Eletrônica do Conservatório Souza Lima. Está no Rock On Board desde o começo — e não pretende sair tão cedo.

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