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| Foto: Eli K. Hayasaka - Rock On Board |
Existe
uma linha evolutiva muito clara quando colocamos “Holoceno”, “Lampião Rei” e
agora “Celestial” lado a lado.
São
três momentos importantes da trajetória do Papangu.
Cada álbum tem suas próprias características, mas, juntos, parecem formar um
arco natural de amadurecimento artístico.
“Holoceno”
já apresentava uma banda disposta a romper fronteiras. “Lampião Rei” ampliou
essas possibilidades e colocou o Papangu em outro patamar. Agora, “Celestial”
parece mostrar uma banda que já não precisa procurar uma identidade: ela
encontrou.
E
o mais interessante é que essa identidade não nasce da negação das referências.
Pelo contrário.
Rock
progressivo, jazz, peso, psicodelia, música brasileira, experimentalismo… tudo
isso aparece por aqui. Mas o resultado não soa como uma simples colagem de
influências. Soa como Papangu.
A
capa também merece destaque.
Ela
continua fascinante, praticamente uma pintura apocalíptica. A paisagem
avermelhada pode remeter tanto ao sertão quanto a uma superfície
extraterrestre, enquanto cadáveres espalhados pelo primeiro plano, pequenas
figuras humanas diante da imensidão e um ser quase fantasmagórico observando
tudo criam uma atmosfera de estranhamento.
O
céu parece se abrir para um sol ou uma estrela estilizada, reforçando o
conceito de “Celestial”. É uma capa que não explica o disco, mas provoca no
olhar a mesma sensação que a música provoca nos ouvidos.
A arte é de Juliana Lapa e, assim como a música,
parece feita para ser descoberta aos poucos.
A
faixa abre o álbum com um Hammond
tipicamente progressivo, mas quando entra a bateria frenética, a música muda
completamente. O vocal acelerado deixa a faixa com uma cara agressiva, enquanto
um violão delicado aparece entre a batida insana da bateria e a viagem dos
teclados. São 3:03 intensos para abrir o álbum.
“Colosso” vem na sequência, e aquela
pegada jazz gostosa cai como uma luva depois da força da abertura. A mudança de
clima funciona muito bem e mostra que o Papangu não pretende ficar preso a uma
única sonoridade (resenha do single aqui).
“Taxidermia” aparece em seguida. Talvez
seja o meu single preferido entre os
lançados anteriormente e, dentro do álbum, ganha ainda mais força por estar
inserida nesse percurso (resenha do single aqui).
“Bode Expiatório” é uma banda de rock
progressivo do jeito que eu mais gosto: como numa jam session, dando vazão à
criatividade de cada um. Uma peça instrumental de execução primorosa, em que os
músicos parecem ter liberdade para deixar a própria composição apontar o
caminho.
E
vem “Celeste” no embalo, outra velha
conhecida (resenha do single aqui).
Chegamos
em “Fechamento de Corpo”, a mais
longa faixa do álbum, com 7:13. Até mais da metade, o trabalho vem baseado nas
teclas e na voz delicada. Passando dos quatro minutos, o ritmo fica tenso,
baixo e bateria ganham destaque, as teclas ficam “nervosas” e a voz que chega é
gutural.
Chegando
aos minutos finais, é hora dos solos de guitarra surgirem: insanos, muito bem
feitos. A música cresce até o fim abrupto.
“Calado (de olho)” vem na sequência, a
segunda mais longa, apenas um segundo menor que a anterior (resenha do single aqui).
“Iamanakaru” aparece depois como uma
verdadeira salada musical. Vocais sobrepostos, teclados ora de fundo, ora em
destaque, guitarra distorcida e um clima que, em alguns momentos, me remete ao Gentle Giant.
A
faixa alterna calmaria e urgência e parece mudar de pele o tempo inteiro.
Chega
“Afirmação”, com início percussivo e
um lindo teclado entrando em sequência.
É
uma música que me fez voltar muitos anos no tempo e me levou até os primórdios
do rock progressivo tupiniquim, de coisas como 14 Bis ou O Terço.
Mas
quando os vocais entram, perto dos dois minutos de música, sentimos o puro suco
do Papangu.
É
justamente aí que a banda demonstra ter DNA próprio. As referências estão todas
ali, mas não existe a sensação de estar diante de uma banda simplesmente
reproduzindo aquilo que ouviu.
O
Papangu absorve, transforma e devolve tudo com personalidade.
E
o álbum finaliza com “Outro”, a menor
faixa da empreitada, com apenas 1:42. Uma pequena peça instrumental, correta,
que encerra a viagem.
E
talvez “viagem” seja mesmo uma das melhores palavras para definir “Celestial”.
O
terceiro capítulo dessa trajetória não representa uma ruptura com “Holoceno” ou
“Lampião Rei”. É justamente o contrário: parece levar adiante tudo aquilo que a
banda vinha construindo, acrescentando novas possibilidades sem abandonar o que
já havia conquistado.
“Holoceno”,
“Lampião Rei” e “Celestial” podem ser ouvidos como três momentos de uma mesma
evolução. O Papangu foi ampliando suas possibilidades, experimentando novas
formas e, ao mesmo tempo, encontrando cada vez mais a própria voz.
E
talvez esse seja o grande triunfo de “Celestial”.
A
banda não precisa escolher entre o progressivo e o peso, entre o jazz e a
música brasileira, entre a delicadeza e a agressividade. Passeia por tudo isso
com uma liberdade que só é possível quando uma identidade já está
suficientemente consolidada.
O
Papangu transcende suas referências e encontra seu próprio universo.
E,
dentro dele, entrega um dos melhores álbuns do ano.
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Papangu



