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| Foto: Divulgação |
A
Papangu não parece interessada em
seguir caminhos seguros. E talvez seja justamente isso que transforme o grupo
paraibano numa das bandas mais fascinantes — e imprevisíveis — do rock
brasileiro contemporâneo.
“Taxidermia”, terceiro single de “Celestial”,
novo álbum da banda, aprofunda ainda mais essa sensação de mergulho num
universo próprio, onde rock progressivo, metal extremo, psicodelia e elementos
da cultura afro-brasileira coexistem de forma orgânica, inquietante e
absolutamente pessoal.
Ouça AQUI.
Descrita
pela própria banda como uma composição episódica baseada em bateria envolvente,
piano e órgão Hammond, a faixa mistura candomblé afro-brasileiro com heavy
metal, incorporando a complexidade melódica do prog setentista, a agressividade
do thrash metal e até os floreios sinfônicos do black metal norueguês dos anos
90.
No
papel, poderia soar excessivo.
Na
prática, funciona de maneira hipnótica.
“Taxidermia”
parece menos uma música convencional e mais um ritual. Uma procissão pagã
atravessando um pesadelo expressionista. A faixa alterna transe, violência e
contemplação sem jamais perder unidade, conduzida por uma bateria quase tribal,
guitarras cortantes e teclados que criam uma atmosfera litúrgica e sufocante.
A
arte do single amplia ainda mais essa sensação de desconforto. Rostos humanos
emergem de uma massa orgânica avermelhada, como corpos presos entre carne, lama
e fogo. Há algo profundamente perturbador ali, mas também magnético — uma
imagem que conversa perfeitamente com a sonoridade da banda.
Outro
aspecto que chama atenção em Celestial é a recusa consciente da Papangu em
seguir a lógica pasteurizada da produção digital moderna. O álbum foi gravado
analogicamente em fita RTM 911 no Big Snuff Studio, em Berlim, entre setembro
de 2025, sob comando de Richard Behrens. Depois, também foi mixado em fita e
masterizado no lendário Emil Berliner Studios.
E
isso aparece no resultado final.
Tudo
soa humano, vivo, pulsante e perigosamente imprevisível.
A
conexão com Berlim, aliás, não acontece por acaso. O baixista Marco Mayer vive
na cidade há alguns anos, o que ajuda a explicar como a relação da banda com a
cena europeia parece natural, longe daquela tentativa artificial de
“internacionalização” que tantas vezes esvazia a identidade de artistas
brasileiros.
Pelo
contrário: quanto mais a Papangu amplia horizontes, mais brasileira parece
soar.
O
candomblé, os ritmos hipnóticos, a dramaticidade quase tropical e a liberdade
criativa continuam presentes o tempo inteiro, mesmo em meio a referências que
vão do prog europeu ao black metal escandinavo.
Com
lançamento marcado para 7 de agosto, Celestial chegará acompanhado de uma breve
turnê europeia iniciada no mesmo dia em Lisboa, passando depois por Bristol,
Nantes e Paris — um movimento que deixa claro que a banda já ultrapassou
qualquer limitação regional há bastante tempo.
A
essa altura, fica difícil tratar a Papangu apenas como “promessa”.
O
grupo parece cada vez mais próximo de ocupar um espaço raro: o de banda
brasileira verdadeiramente singular dentro do cenário experimental mundial.
E
“Taxidermia” talvez seja justamente isso: o som de uma banda entrando
definitivamente em outra dimensão.
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Papangu


