Papangu anuncia Celestial, lança “Calado (de Olho)” e se prepara para o Lollapalooza Brasil 2026

Foto: Divulgação

Meses atrás, tive a chance de acompanhar de perto um momento decisivo na trajetória da Papangu: o show em São Paulo que antecedeu a primeira turnê europeia da banda. Naquela noite, ficou claro que não se tratava apenas de mais um nome promissor da cena — havia ali uma força criativa difícil de enquadrar, pronta para atravessar fronteiras.

De lá pra cá, o mundo começou a prestar atenção. E agora, o grupo paraibano dá um novo passo com o anúncio de "Celestial", seu terceiro álbum de estúdio, previsto para 7 de agosto, além do lançamento do single “Calado (de Olho)”, que já funciona como uma porta de entrada ambiciosa para esse novo capítulo.

Com pouco mais de sete minutos, “Calado (de Olho)” se apresenta como uma verdadeira suíte contemporânea. A faixa transita entre o metal de vanguarda, momentos de balada agridoce e passagens de prog rock, tudo atravessado por elementos que expandem ainda mais o alcance da banda — há ecos de MPB, forró e um jazz-rock intenso que surge como ruptura e catarse.

Capa do Single - Arte: Juliana Lapa

Mas o que realmente impressiona é a maneira como a Papangu organiza essa multiplicidade. Nada soa gratuito. Cada mudança de clima, cada virada estrutural, cada camada instrumental parece cumprir um papel dentro de uma narrativa maior. É música em movimento constante, recusando qualquer zona de conforto.

Se o single já aponta para ambição, "Celestial" amplia essa proposta. Concebido como um álbum dividido em dez partes, o trabalho mergulha em uma construção multifacetada que entrelaça prog rock alternativo, black metal, zeuhl, ciranda e forró em uma tapeçaria sonora que transita entre o terreno e o transcendental. Temas como superstição, dúvida e autoafirmação surgem como eixos centrais dessa jornada.

Mais do que um novo passo, "Celestial" se apresenta como a sequência natural — e ao mesmo tempo expansiva — de "Lampião Rei", o sublime trabalho anterior da banda. Há aqui uma sensação clara de continuidade estética, mas também de aprofundamento, como se a Papangu estivesse refinando sua própria linguagem enquanto amplia seus horizontes.

Capa do Álbum

Outro aspecto que reforça a identidade do disco é a escolha estética: em um posicionamento claro contra o uso de inteligência artificial na criação artística, a banda optou por um processo totalmente analógico. "Celestial" foi gravado e mixado em fita magnética, praticamente ao vivo em estúdio, ao longo de nove dias em Berlim, sob produção de Richard Behrens. O resultado é um som que carrega textura, densidade e uma fisicalidade cada vez mais rara em tempos digitais.

Esse olhar para o passado técnico, no entanto, não significa nostalgia. Pelo contrário: ao mesmo tempo em que evoca ecos de nomes como Lô Borges, Alceu Valença e Hermeto Pascoal, a Papangu projeta sua música para frente, dialogando também com referências mais pesadas e experimentais como Blind Guardian, Gentle Giant e King Crimson.

Para quem quiser mergulhar nessa primeira amostra de Celestial, o single já está disponível para audição no Bandcamp da banda: clique aqui.

E para quem estiver em São Paulo, a próxima oportunidade de ver essa experiência ao vivo já tem data marcada: a Papangu se apresenta no dia 22 de março, às 12h45, no Palco Flying Fish, dentro do Lollapalooza Brasil 2026 — com cobertura do Rock On Board direto do evento.

“Calado (de Olho)” deixa claro: não há concessões no caminho escolhido. E, se o single serve como indicativo do que vem por aí, "Celestial" tem tudo para consolidar a Papangu não apenas como um dos nomes mais criativos do rock brasileiro contemporâneo, mas como uma força relevante no cenário experimental global.

Ricardo Cachorrão

Ricardo "Cachorrão", é o velho chato gente boa! Viciado em rock and roll em quase todas as vertentes, não gosta de rádio, nunca assistiu MTV, mas coleciona discos e revistas de rock desde criança. Tem horror a bandas cover, se emociona com aquele disco obscuro do Frank Zappa, se diverte num show do Iron Maiden, mas sente-se bem mesmo num buraco punk da periferia. Já escreveu para Rock Brigade, Kiss FM, Portal Rock Press, Revista Eletrônica do Conservatório Souza Lima e é parte do staff ROCKONBOARD desde o nascimento.

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