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| Foto: Divulgação |
Meses
atrás, tive a chance de acompanhar de perto um momento decisivo na trajetória
da Papangu: o show em São Paulo que antecedeu a primeira turnê europeia da
banda. Naquela noite, ficou claro que não se tratava apenas de mais um nome
promissor da cena — havia ali uma força criativa difícil de enquadrar, pronta
para atravessar fronteiras.
De
lá pra cá, o mundo começou a prestar atenção. E agora, o grupo paraibano dá um
novo passo com o anúncio de "Celestial", seu terceiro álbum de estúdio, previsto
para 7 de agosto, além do lançamento do single “Calado (de Olho)”, que já
funciona como uma porta de entrada ambiciosa para esse novo capítulo.
Com
pouco mais de sete minutos, “Calado (de Olho)” se apresenta como uma verdadeira
suíte contemporânea. A faixa transita entre o metal de vanguarda, momentos de
balada agridoce e passagens de prog rock, tudo atravessado por elementos que
expandem ainda mais o alcance da banda — há ecos de MPB, forró e um jazz-rock
intenso que surge como ruptura e catarse.
Mas
o que realmente impressiona é a maneira como a Papangu organiza essa
multiplicidade. Nada soa gratuito. Cada mudança de clima, cada virada
estrutural, cada camada instrumental parece cumprir um papel dentro de uma
narrativa maior. É música em movimento constante, recusando qualquer zona de
conforto.
Se
o single já aponta para ambição, "Celestial" amplia essa proposta. Concebido como
um álbum dividido em dez partes, o trabalho mergulha em uma construção
multifacetada que entrelaça prog rock alternativo, black metal, zeuhl, ciranda
e forró em uma tapeçaria sonora que transita entre o terreno e o
transcendental. Temas como superstição, dúvida e autoafirmação surgem como
eixos centrais dessa jornada.
Mais
do que um novo passo, "Celestial" se apresenta como a sequência natural — e ao
mesmo tempo expansiva — de "Lampião Rei", o sublime trabalho anterior da banda.
Há aqui uma sensação clara de continuidade estética, mas também de
aprofundamento, como se a Papangu estivesse refinando sua própria linguagem
enquanto amplia seus horizontes.
Outro
aspecto que reforça a identidade do disco é a escolha estética: em um
posicionamento claro contra o uso de inteligência artificial na criação
artística, a banda optou por um processo totalmente analógico. "Celestial" foi
gravado e mixado em fita magnética, praticamente ao vivo em estúdio, ao longo
de nove dias em Berlim, sob produção de Richard Behrens. O resultado é um som
que carrega textura, densidade e uma fisicalidade cada vez mais rara em tempos
digitais.
Esse
olhar para o passado técnico, no entanto, não significa nostalgia. Pelo
contrário: ao mesmo tempo em que evoca ecos de nomes como Lô Borges, Alceu
Valença e Hermeto Pascoal, a Papangu projeta sua música para frente, dialogando
também com referências mais pesadas e experimentais como Blind Guardian, Gentle
Giant e King Crimson.
Para
quem quiser mergulhar nessa primeira amostra de Celestial, o single já está
disponível para audição no Bandcamp da banda: clique aqui.
E
para quem estiver em São Paulo, a próxima oportunidade de ver essa experiência
ao vivo já tem data marcada: a Papangu se apresenta no dia 22 de março, às
12h45, no Palco Flying Fish, dentro do Lollapalooza Brasil 2026 — com cobertura
do Rock On Board direto do evento.
“Calado
(de Olho)” deixa claro: não há concessões no caminho escolhido. E, se o single
serve como indicativo do que vem por aí, "Celestial" tem tudo para consolidar a
Papangu não apenas como um dos nomes mais criativos do rock brasileiro
contemporâneo, mas como uma força relevante no cenário experimental global.
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Papangu

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