Winger abre o jogo sobre o fim da banda e sua última vez no Brasil no Banger Open Air


Após décadas sendo referência de técnica e musicalidade no Hard Rock, o Winger se prepara para baixar as cortinas. Para uma banda que sempre carregou o rótulo de "músicos para músicos", a despedida não é um sinal de esgotamento criativo, mas sim uma escolha consciente de honrar o legado no momento certo. Em entrevista ao Rock On Board, o líder e vocalista Kip Winger detalha que o fim desta jornada é motivado por uma mistura de honestidade física e uma necessidade urgente de novos horizontes artísticos.

A Decisão: Entre a Performance e o Desgaste

O encerramento das atividades ocorre em um momento em que a banda ainda entrega alta energia, como visto no elogiado álbum Seven (2023). No entanto, Kip é transparente sobre os desafios de manter o padrão que o público espera. Nos últimos quatro anos, ele passou a enfrentar dificuldades vocais que exigem um esforço hercúleo antes de cada show.

"Leva três horas para colocar minha voz em funcionamento. Eu simplesmente não quero ser aquele cara que não consegue mais cantar no palco. Eu ainda consigo, então quero terminar no ponto alto".

Além da voz, o cansaço acumulado com a logística das turnês pesou na decisão. Para ele, os 90 minutos no palco são a recompensa, mas o preço pago em aeroportos e deslocamentos tornou-se insustentável frente ao desejo de criar novas obras antes de encerrar sua trajetória de vida.

A Mente por Trás da Obra: O "Cérebro Clássico"

A identidade musical do Winger sempre foi moldada pelo "cérebro clássico" de seu fundador. Ex-dançarino de balé e compositor indicado ao Grammy, Kip cresceu em um ambiente de sofisticação musical, ouvindo desde o progressivo complexo de Jethro Tull, Yes e Genesis até o rock direto de Kiss e Aerosmith. Para ele, a transição entre esses dois mundos é invisível.

Ao olhar para trás, Kip identifica momentos-chave onde a banda desafiou as expectativas. Ele tem um carinho especial por Pull (1993), que considera o início de uma sonoridade mais densa e autêntica. Mas foi com o IV (2006) que ele sentiu que a banda realmente expandiu seus limites técnicos. Kip descreve o quarto álbum como um disco conceitual e "pesado" no sentido intelectual, servindo como um laboratório para as orquestrações que ele viria a escrever anos depois.

Já o álbum Seven (2023) chega como o ponto final perfeito. Kip enxerga este último trabalho como o ápice de sua habilidade em equilibrar a técnica complexa com a acessibilidade do rock. Ele cita a faixa "It All Comes Back Around" como o exemplo definitivo dessa maestria: uma música que soa como um rock acessível, mas que esconde uma estrutura de composição extremamente sofisticada por trás. Para ele, o Winger não poderia entregar nada superior ao que foi feito em Seven, o que reforça a decisão de parar agora.


Desprendimento e a "Força do Universo"

Apesar do sucesso mundial, Kip mantém um desprendimento raro na indústria. Ele afirma que nunca se interessou pelo papel de "entertainer" ou pelas armadilhas materiais da fama, como carros de luxo ou mansões.

"Eu nunca me envolvi com o sucesso em termos de precisar de uma casa grande, um Rolls Royce ou qualquer uma das armadilhas materiais que acompanham o grande sucesso. Fui treinado para acreditar que tudo poderia sumir a qualquer segundo, então nunca me permiti 'ser dono' do fato de ser uma pessoa conhecida".

Sua motivação sempre foi a música em seu estado mais puro, alimentada por uma inspiração que ele descreve como espiritual. "Eu não sei de onde vem... acredito na força do universo. Se você estiver aberto para essa energia fluindo através de você, ela vem", explica. Para Kip, a música não é apenas ouvida, mas vista em formas e sensações.


Parcerias, Produção e Aprendizados

A trajetória do Winger também é marcada por colaborações fundamentais. Kip descreve sua passagem pela banda de Alice Cooper como uma "master class" que o preparou para ser um frontman e entender a indústria. Já sua relação com o guitarrista Reb Beach é descrita como um quebra-cabeça perfeito: "Os atributos do Reb são as minhas deficiências, e os meus atributos são as deficiências dele".

Como produtor dos próprios álbuns, ele defende que o artista deve dominar suas ferramentas como um pintor domina seus pincéis. "Se você tem 30 pincéis com todos os gradientes de cor e sabe usá-los, estará muito melhor", afirma, justificando seu mergulho profundo na teoria musical para ampliar sua paleta criativa.

O Futuro Além do Rock

O fim do Winger não é um adeus à música, mas uma transição de foco. Kip pretende se dedicar integralmente à sua carreira orquestral, embora ainda vislumbre um último disco solo com canções já quase finalizadas, na linha de seus trabalhos mais introspectivos.

O Adeus em Solo Brasileiro

O Brasil ocupa um lugar especial neste encerramento de ciclo. Escalados para o festival Bangers Open Air, em São Paulo, o Winger encontrará uma plateia que Kip considera a mais entusiasta do mundo.

"Os fãs do Brasil são os maiores fãs de rock do mundo... Eles vivem a música de uma forma que você não encontrará em nenhum outro lugar... É algo espetacular".

Ao deixar este capítulo para trás, o legado que ele espera transmitir às novas gerações é tão direto quanto sua música: "Sempre seja a sua versão mais autêntica". É com essa verdade que o Winger se despede, reafirmando que a música, quando feita com integridade, é eterna.

Carol Goldenberg

Advogada, jornalista musical e guitarrista, mas acima de tudo, amante da música desde sempre. Roadie, guitar tech e exploradora de shows e festivais pelo mundo, vivendo cada acorde como se fosse único e cada plateia como um novo universo.

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