Plebe Rude: O Concreto Já Rachou — e Continua Atualíssimo

Foto: Ricardo A. Flávio / Rock On Board

O Sesc Belenzinho novamente nos abriu as portas para uma cobertura ao vivo, desta vez com a velha — e sempre necessária — Plebe Rude, comemorando os 40 anos do clássico, permanente e infelizmente atualíssimo álbum “O Concreto Já Rachou”.

A casa apresentava lotação esgotada numa típica noite caótica de sexta-feira paulistana: chuva, frio, congestionamento e muitos plebeus chegando para a celebração.

A banda sobe ao palco com a introdução orquestrada de “Sua História”, emendando na sequência “Anos de Luta”, ambas do álbum “Nação Daltônica”, de 2015.

Sem tempo para respirar, a Plebe dispara “Luzes”, clássico da também brasiliense Escola de Escândalos.

A primeira observação pertinente da noite era a ausência do baixista André X, substituído por Fred Ribeiro, que sempre dá conta do recado quando convocado.

Mais adiante, Philippe Seabra explicaria ao público que André estava em Berlim, prestigiando o casamento da filha. Motivo mais do que justo.

Logo após o encerramento do primeiro bloco, Philippe faz o velho cumprimento já conhecido da plateia:

Nós somos a Plebe Rude!

E completa:

E esta é a censura!

A banda então dispara “Censura”, presente no segundo álbum, “Nunca Fomos Tão Brasileiros”.

Foto: Ricardo A. Flávio / Rock On Board

Colada vem “A Serra”, do terceiro trabalho da banda, “Plebe Rude”, lançado em 1988 — um disco complicado para o grupo, gravado em meio às diferenças cada vez mais evidentes entre seus integrantes. Ainda assim, a música permanece assustadoramente atual.

“Este Ano”, de “R ao Contrário”, primeiro álbum com Clemente Nascimento na formação, surge forte, preparando terreno para “A Ida”, entoada em uníssono pela plateia.

“A Mesma Mensagem”, presente no conceitual “Evolução Vol. 1”, chama atenção por outro motivo. O álbum foi lançado exatamente no início da pandemia de covid-19, praticamente sem divulgação ou possibilidade de turnê. Ainda assim, grande parte dos plebeus presentes conhecia a letra de cabo a rabo.

Iniciando um novo bloco, Philippe Seabra cita três fãs da banda — Elisabete, Bruna e Fabi — que, segundo ele, acabaram se tornando amigas da Plebe Rude ao longo dos anos.

Philippe comenta ainda que as três atuaram quase como “consultoras” durante a escrita de sua autobiografia, O Cara da Plebe, lançada no ano passado pela Editora Belas Letras.

Em seguida, a banda atende aos constantes pedidos das três e manda “Mais Tempo que Dinheiro”, faixa do álbum “Mais Raiva do que Medo”, lançado em 1993.

Um dos grandes momentos da noite viria logo em seguida. A banda executa um medley simplesmente sensacional entre Revoluções por Minuto e The Dead Heart.

O encontro improvável entre a tensão urbana brasileira do RPM e a crítica política visceral do Midnight Oil funcionou de maneira impressionante, arrancando forte reação da plateia.

O show continua em alta voltagem com a sequência formada por “Pressão Social”, composição de André X presente em “Mais Raiva do que Medo” — e que no disco contou com participação de Renato Russo nos vocais —, “Códigos”, do álbum “Nunca Fomos Tão Brasileiros”, e um matador cover de “(White Man) in Hammersmith Palais”, do The Clash.

Apesar de terem sido lançadas apenas no segundo e no quarto discos da Plebe Rude, “Pressão Social” e “Códigos” remetem diretamente aos primórdios da banda, já fazendo parte do repertório ainda nos primeiros anos do grupo.

Dentro desse contexto, o clássico do Clash surge como uma escolha absolutamente natural, reforçando a essência punk que sempre definiu a Plebe.

Foto: Ricardo A. Flávio / Rock On Board

E então chegamos ao motivo central da celebração: os 40 anos de “O Concreto Já Rachou”.

“Johnny”, “Seu Jogo”, “Minha Renda”, “Sexo & Karatê” e “Proteção” formam uma sequência simplesmente avassaladora.

Nem há muito o que explicar aqui. É a Plebe Rude entregando tudo no palco e o público devolvendo na mesma intensidade.

Durante “Proteção”, Philippe Seabra desce do palco e canta cercado pelos plebeus, transformando o Sesc Belenzinho em um grande coro coletivo. Enquanto isso, no palco, Clemente ainda encaixa trechos de “Pátria Amada”, dos Inocentes, como música incidental.

A banda deixa o palco brevemente, retornando para o bis com “Bravo Mundo Novo”, do álbum “Nunca Fomos Tão Brasileiros” — música que também reapareceria anos depois em “Evolução Vol. 2”.

E, para encerrar a celebração, não havia outro caminho possível: “Brasília” e “Até Quando Esperar”, dois dos maiores clássicos da história da banda, colocam ponto final em uma noite intensa, política, nostálgica na medida certa e absurdamente atual.

E foi assim…

Depois do show ainda conseguimos bater um papo com toda a banda. A ideia era esticar a noite em um pub comunista ali pela Mooca, mas Clemente precisava viajar cedo para compromissos em Salvador, enquanto o restante da Plebe Rude havia confirmado, de última hora, uma apresentação em Ribeirão Preto.

Sendo assim, restou a despedida.

Até a próxima.

A Plebe continua rude.

E necessária.

Foto: Ricardo A. Flávio / Rock On Board


Ricardo Cachorrão

Ricardo “Cachorrão” é o velho chato gente boa que não pede licença pra gostar de música. Viciado em rock and roll, formou opinião longe de rádio, longe de MTV e perto demais de pilhas de discos e revistas. Tem alergia a banda cover, respeito profundo por discos obscuros do Frank Zappa e ainda sai sorrindo de um show do Iron Maiden — mas é no calor, no barulho e no caos dos buracos punk da periferia que se sente vivo de verdade. Já escreveu para Rock Brigade, Kiss FM, Portal Rock Press e a Revista Eletrônica do Conservatório Souza Lima. Está no Rock On Board desde o começo — e não pretende sair tão cedo.

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