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| Foto: Thayane Oliveira Souza @thayosouza |
João
Gordo & Asteroides Trio acabam de ser confirmados como uma das atrações do
Rock in Rio 2026. O show acontece no dia 06 de setembro, no Palco Supernova,
celebrando os 50 anos do primeiro disco dos Ramones.
Mas
antes disso, mergulhei em “Hallucinogenun Infernale”, novo álbum da parceria
entre João Gordo e Asteroides Trio.
E
o disco é exatamente aquilo que promete: sujeira, degradação humana, sarcasmo,
humor grotesco e punkabilly suburbano tocado sem qualquer preocupação em soar
elegante.
Segundo
o próprio Gordo definiu, o trabalho fala sobre “o fundo do poço da degradação
humana”.
A
abertura já deixa isso claro. “Introductio Purificatio”, vinheta de 21
segundos, traz João Gordo recitando uma espécie de oração profana sobre viver
num mundo “manchado, sujo, imundo e podre”, encerrando com a palavra
“purificação” desacelerando como uma fita demoníaca derretendo.
Colada nela vem “Pêgo”,
punkão nervoso conduzido pelo baixão acústico enlouquecido, guitarra berrando e
a bateria pesada e acelerada de Leandro Franco. Ali já fica evidente o que move
o disco: urgência punk com espírito rockabilly de sarjeta.
“Ressaca
Infernal” aprofunda a degradação alcoólica. Gordo canta que cansou da cocaína e
talvez prefira uma cirrose, enquanto descreve uma verdadeira “farmácia” etílica
de boteco — tequila, cachaça, conhaque, underberg e qualquer coisa capaz de
destruir um fígado em tempo recorde.
“Três
Vidrinhos de Bentil” resgata um velho costume do underground punk dos anos 80:
o uso indiscriminado de medicamentos misturados com álcool para produzir
alucinações. Mais do que simples provocação, a música acaba funcionando quase
como retrato histórico suburbano de uma geração que buscava escapismo químico
da forma mais perigosa possível.
“Maldição Maldita”
escancara o lado humorístico do projeto. A faixa tira sarro descaradamente do
universo black metal, suas bandas satânicas, corpse paints e teatralidade
obscura. O clipe, com a banda inteira caracterizada em visual black metal,
transforma tudo numa grande chanchada infernal.
“Fuck
Off and Die” entra como um interlúdio de surf music punk acelerada, com Gordo
repetindo o título da música em diferentes entonações durante um minuto e
quarenta e cinco segundos de caos debochado.
Já
“Despertei para o Mundão” talvez seja o coração político do álbum. Em cima de
referências demoníacas, chazinho com Satanás, cigarro com o chifrudo e encontro com o
cramunhão, João Gordo constrói uma crítica direta ao “evangelistão” brasileiro,
ao bolsonarismo e à mistura entre religião neopentecostal e política
autoritária. Tudo isso embalado por humor vulgar, ofensivo e extremamente
brasileiro.
“Infernal Infecção”,
lançada anteriormente como single, mostra bem a identidade visual e sonora do
projeto. Originalmente pensada dentro da ideia “Deadbilly Blasfêmico”, ela
sintetiza perfeitamente essa mistura de horror punk, sarcasmo religioso,
punkabilly e estética de quadrinho underground.
No
meio do caos surge ainda uma divertida versão de “Oh mama, voglio l’uovo alla
coque”, obscuridade lançada em 1961 pelo cantor egípcio radicado na Itália Clem
Sacco, reforçando o espírito exploitation e nonsense do álbum.
“Espuminha
Horrenda” mantém a linha grotesca e cartunesca, novamente acompanhada de clipe
animado criado por Franco, que claramente se tornou peça fundamental da
identidade visual do projeto.
Mas
talvez a faixa mais folclórica do disco seja “Bar do Lote”. A música fala de um
lendário boteco da Vila Piauí — bairro de origem dos Ratos de Porão — onde,
segundo contam, frequentadores injetavam medicamentos para produzir
alucinações. O refrão “Festa no Bar do Lote é diversão! / Festa no Bar do Lote
só dá função!” tem cara de hino de balcão punk paulistano.
Encerrando
o trabalho, “Viciadão” e “Muito Loco Chaparral” devolvem o ouvinte ao centro
temático do disco: vício, excesso, degradação e autodestruição.
O
mais interessante é perceber como essa parceria, nascida durante a pandemia —
período em que vários artistas começaram a gravar colaborativamente cada um em
sua casa — sobreviveu ao isolamento e criou identidade própria.
João
Gordo encontrou no Asteroides Trio o veículo perfeito para explorar humor macabro,
crítica religiosa, decadência urbana e sarcasmo político sem as amarras do
hardcore tradicional dos Ratos de Porão. Já o Asteroides Trio encontrou no
Gordo o intérprete ideal para transformar seu punkabilly sujo e suburbano numa
espécie de desenho animado infernal brasileiro.
“Hallucinogenun
Infernale” não quer soar moderno, elegante ou tecnicamente impecável.
Quer
soar sujo.
E consegue.
Ouça
o disco: SPOTIFY.


