Public Image Ltd. em São Paulo: entre a expectativa punk e a realidade pós-punk

Foto: Eli K. Hayasaka / Rock On Board

Havia uma expectativa clara no ar. Para muitos, aquela era a chance de ver de perto o “vocalista do Sex Pistols”. Camisetas, atitude e energia deixavam evidente: parte do público ainda estava ancorada no passado.

Mas o que subiu ao palco do Cine Joia foi o Public Image Ltd — e isso faz toda a diferença.

Foto: Eli K. Hayasaka / Rock On Board

Não era sobre o passado

Logo de início, ficou claro que não haveria concessões fáceis. A abertura com Home, Know Now e Corporate afastou qualquer tentativa de transformar o show em uma celebração nostálgica.

O PiL é outra coisa. Sempre foi.

Com uma sonoridade construída sobre teclados, sintetizadores e texturas densas, a banda se afasta do punk direto e abraça um terreno mais experimental, por vezes desconfortável. E isso, inevitavelmente, causou estranhamento em parte da plateia.

Foto: Eli K. Hayasaka / Rock On Board

O choque — e a adaptação

Muitos punks estavam ali esperando outra coisa. E receberam outra coisa.

Mas, à medida que o show avançava, a resistência foi dando lugar à curiosidade — e, em alguns momentos, à entrega. Clássicos como This Is Not a Love Song, Poptones e Death Disco funcionaram como pontos de conexão, pontes entre expectativa e realidade.

Ainda assim, o Public Image Ltd nunca facilitou. Faixas mais densas e experimentais mantiveram o clima instável, lembrando constantemente que aquela não era uma banda preocupada em agradar.

Foto: Eli K. Hayasaka / Rock On Board

John Lydon: presença intacta

À frente de tudo, John Lydon segue sendo um personagem impossível de ignorar.

Provocador, carismático e imprevisível, ele conduz o show com segurança, transitando entre ironia, intensidade e momentos quase teatrais. Sua presença sustenta a apresentação mesmo nos trechos mais desafiadores.

Foto: Eli K. Hayasaka / Rock On Board

A música acima do ruído

Em tempos em que posicionamentos pessoais frequentemente contaminam a percepção artística, chama atenção o fato de que o apoio declarado de John Lydon a Donald Trump simplesmente não entrou em campo.

Não houve interferência. Não houve reação significativa. O show seguiu seu curso.

No fim das contas, a música falou mais alto.

Foto: Eli K. Hayasaka / Rock On Board

Um encontro possível

Se no início havia desencontro, ao final havia entendimento.

Com Open Up e Rise fechando a noite, banda e público encontraram um ponto em comum. Não exatamente onde muitos esperavam — mas talvez exatamente onde o Public Image Ltd sempre quis estar.

Longe do passado.
Fiel à própria identidade.
E ainda provocando.

Foto: Eli K. Hayasaka / Rock On Board

Conclusão

Assistir ao PiL em 2026 é aceitar um acordo: deixar para trás o que você acha que sabe e encarar o que está diante de você.

Nem todos estavam preparados para isso.

Mas quem estava — saiu recompensado.

Foto: Eli K. Hayasaka / Rock On Board


Ricardo Cachorrão

Ricardo “Cachorrão” é o velho chato gente boa que não pede licença pra gostar de música. Viciado em rock and roll, formou opinião longe de rádio, longe de MTV e perto demais de pilhas de discos e revistas. Tem alergia a banda cover, respeito profundo por discos obscuros do Frank Zappa e ainda sai sorrindo de um show do Iron Maiden — mas é no calor, no barulho e no caos dos buracos punk da periferia que se sente vivo de verdade. Já escreveu para Rock Brigade, Kiss FM, Portal Rock Press e a Revista Eletrônica do Conservatório Souza Lima. Está no Rock On Board desde o começo — e não pretende sair tão cedo.

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