Já está disponível no Globoplay “Andar na Pedra – A História do Raimundos”, um documentário que não apenas revisita — mas escancara — a trajetória de uma das bandas mais importantes do rock nacional.
Essa é a primeira vez, que uma produção consegue reunir os quatro integrantes originais dos Raimundos em um mesmo espaço narrativo para revisitar uma história feita de sucesso avassalador, rupturas traumáticas e feridas que nunca cicatrizaram completamente.
Além de toda a trajetória épica de uma banda de sucesso, a série (dividida em cinco capítulos) revela bastidores incômodos, confronta memórias e coloca frente a frente diferentes versões de um passado que ainda reverbera.
Mais do que revisitar a história da banda, “Andar na Pedra” transforma o legado dos Raimundos em um campo de tensão — onde verdade, ressentimento e reconciliação coexistem sem garantias de equilíbrio.
Os Raimundos em sua versão mais nua e crua
Com roteiro e direção de Daniel Ferro, o documentário organiza os acontecimentos em ordem cronológica com habilidade, explorando desde a origem underground da banda em Brasília até o impacto massivo que conquistaram no cenário nacional. E, mais importante: não evita os momentos mais delicados.
Conflitos internos, brigas entre integrantes, relações tensas com gravadoras e mágoas acumuladas ao longo dos anos são tratados de forma direta, sem cair em uma narrativa unilateral ou chapa-branca. O resultado é um retrato honesto e denso de uma banda que sempre viveu no limite.
A produção se destaca também pela riqueza de material de arquivo — vídeos raros, imagens históricas — e por depoimentos de nomes importantes da cena, como o jornalista Ricardo Alexandre e o músico Gabriel Thomaz, além de familiares, empresários e profissionais da indústria.
Do underground aos gigantes da TV
Um dos grandes méritos de “Andar na Pedra” é dimensionar também, de forma justa, o tamanho que os Raimundos atingiram nos anos 90 — especialmente a partir de Lavô Tá Novo (1995), quando a banda decidiu tomar partido de sua própria carreira, tornando-se gigante e conhecendo o melhor e o pior da fama. De tietagens ensandecidas nos quatro cantos do país e presença em todos os maiores festivais de rock, os Raimundos também viviam uma espécie de guerra interna por conta de ciúmes, ganância, vaidade e imaturidade.
A verdade, é que poucas bandas de rock no Brasil alcançaram uma popularidade tão ampla na metade da década noventista. O grupo que saiu das garagens de Brasília para dominar programas de auditório como Domingo Legal, Xuxa Park e Domingão do Faustão, conseguiu o fenomenal feito de em poucos meses, enfileirar um conjunto de hits que perduram até os dias de hoje. Afinal, em 1995 / 1996, nada tocava tantos nas rádios quanto "Eu Quero é Ver O Oco", "Tora Tora", "O Pão da Minha Prima", e "I Saw You Saying (That You Say That You Saw)" - essa em parceria com Gabriel Thomaz, dos Autoramas, que participa ativamente do documentário.
Bastidores sem filtro
Além de reconstruir com riqueza a trajetória artística do grupo — passando pela concepção dos álbuns e pelo surgimento de seus maiores sucessos — o documentário mergulha em bastidores densos e, por vezes, desconfortáveis.
Entre os momentos mais reveladores, estão declarações de Rodolfo Abrantes sobre a venda de seus direitos autorais ligados à banda, além das tensões envolvendo Digão, Canisso e Fred Castro. Inclusive, um dos momentos mais marcantes do seriado é justamente quando todos os integrantes apresentam suas versões atualizadas sobre a reunião que levou à saída de Rodolfo da banda — um episódio-chave revisitado sob novas perspectivas, carregado de tensão, memória e ressentimentos ainda latentes.
A narrativa aborda ainda a relação de Rodolfo Abrantes com o vício em maconha, crises familiares e o processo que culminou em sua conversão ao universo gospel, tratado aqui com mais profundidade e contexto.
O documentário também evidencia que Canisso faleceu em um período de relação conturbada dentro da banda, marcada por divergências — inclusive políticas — que deixaram marcas profundas.
Um retrato necessário
Mais do que celebrar a história dos Raimundos, “Andar na Pedra” funciona como um documento essencial sobre os bastidores do rock brasileiro. E também de uma época que não existe mais - nem no rock independente, nem no rock mainstream.
Estamos falando de um tempo, onde as gravadoras mandavam no negócio. Onde produtores poderiam salvar ou afundar uma banda. Onde a rádio e a TV ainda obtinham o domínio quase que totalitário do showbusiness. Os Raimundos foram imensos nessa era dominante do rock pesado nos 90's - e sucumbiram.
E o mais legal desse “Andar na Pedra – A História do Raimundos”, é que ele não tenta suavizar a realidade — pelo contrário, expõe suas contradições, conflitos e conquistas com a mesma intensidade que sempre marcou a banda. Totalmente necessário.

