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Um roqueiro antenado: Frejat fala sobre novo álbum, reflete sobre a cena atual e diz não querer soar retrô

Frejat está lançando "Ao Redor do Precipício" [Foto: Leo Aversa]

Por  Bruno Eduardo 

"Acho que um álbum tem essa função de mostrar onde você está", afirma Roberto Frejat, que acaba de lançar Ao Redor do Precipício, seu quarto álbum solo e primeiro em doze anos. Mas o que convenceria um artista consagrado a querer retornar ao período que ele mesmo chama de "se internar num asilo de louco por dois meses"? 

A resposta para essa pergunta é evidenciada na entrevista concedida para falar sobre este novo trabalho. A empolgação de roqueiro ao contar os detalhes de todo o processo que envolveu a criação do álbum é notória. Frejat pode nem se dar conta, mas a relação com a música é algo que ainda causa brilho em seus olhos e transborda pela boca. Todas as coisas que talvez pudessem soar como algo protocolar para um artista com quarenta anos de estrada, continuam seduzindo Roberto Frejat. 

No bate papo, ele fala com animação do prazer que teve em reunir uma turma de novos músicos, de buscar novas sonoridade e até mesmo de como é difícil para ele se acostumar com uma época onde lançar um CD não causa mais interesse comercial: "Onde você vai comprar o meu disco se não tem mais lojas de discos?", questiona. Mas garante não ser do time dos saudosistas:

"Eu só tenho saudade do vinil por uma coisa: por causa das capas. Da fita k7 eu não tenho saudade nenhuma. Pode esquecer!" 

Para entender melhor as direções musicais escolhidas em Ao Redor do Precipício, a dica pode ser ouvir uma das mais modernosas do disco, que se chama "Planetas Distantes". De acordo com Frejat, essa foi a canção que o incentivou a dedicar seu tempo para gravar um álbum inteiro. "No início a gente tava indo para algo meio T-Rex, mas eu não estava gostando do resultado, pois tava ficando muito rock retrô. E não era isso que eu queria para mim nesse momento. Não posso soar rock retrô pois eu sou o próprio rock and roll! Seria patético!" (risos). 

O toque de contemporaneidade em "Planetas Distantes" foi uma influência direta do tecladista Humberto Barros, que trouxe um conjunto de sintetizadores e a opção pela batida eletrônica. "Ele é muito fã de Depeche Mode!", diz Frejat, que faz questão de valorizar também a participação de Kassin para o acerto final da música. "Achei que ainda faltava alguma coisa e o Kassin por ter muito conhecimento nessa área, conseguiu trazer o que estávamos precisando para ela".

O fato de ser um compositor muito ativo foi fundamental em Ao Redor do Precipício, tanto que Frejat conseguiu gravar várias parcerias que estavam guardadas em seu arquivo. Com grande destaque para Leoni, que aparece com quatro canções no disco. "Meu parceiro mais frequente nesse álbum", pontua. Frejat conta que ele e Leoni se juntaram no passado para compor a trilha sonora de Intimidade Entre Estranhos. Mas que acabaram não sendo utilizadas pelo diretor José Alvarenga Junior. 

"O Leoni já havia me perguntado se ele poderia gravar 'Amar um pouco mais' e eu disse que não haveria problema, mesmo porquê eu iria gravar todas as músicas, inclusive a que ele estaria gravando". Ele ainda reforça que não vê problemas de ter suas composições em parceria gravadas de forma solo pelo co-autor. 

"Nós que somos parceiros e somos intérpretes, temos a possibilidade de termos duas leituras de uma mesma canção"

Frejat no Rock in Rio em 2017 [Foto: Adriana Vieira]

Um das coisas que salta aos ouvidos neste novo trabalho é a participação de Alice Caymmi, que interpreta uma dominatrix em "A sua dor é Minha", um blues profundo e cheio de sentimento. Ao ser questionado sobre o porquê de não ter cantado essa canção, Frejat explicou: "Eu achei que soaria estranho eu interpretar esse papel, de uma dominatrix, numa época que falamos tanto de empoderamento feminino. Seria uma apropriação indébita". E revelou ainda que a escolha por Alice se deu pelo fato de querer um nome novo na praça, e que ela foi a primeira cantora em quem ele pensou.

Bastante antenado ao que vem acontecendo, Frejat demonstra preocupação com a realidade vivida por essa nova cena de bandas e artistas nacionais. Para ele, esses novos nomes encontram um cenário muito mais duro que na sua época, principalmente pela dificuldade de se firmar e sobreviver financeiramente: "Eu acho que hoje a gente tem uma dificuldade muito grande para um nome novo se impor dentro do mercado. Eu fico muito preocupado com essa geração que está fazendo música hoje porque os meios de remuneração ficaram muito mais difíceis".

E quais seriam os nomes preferidos de Frejat na cena atual: "Eu adoro The Baggios. Eu gosto muito do O Terno. Eu acho O Terno muito bom! Gosto do Boogarins... Tem aqueles meninos do Facção Caipira. Ah, e eu adoro a Letrux. Eu vi uma apresentação maravilhosa dela num Lollapalooza. Eu gosta da Iza também. Acho ela muito boa!".

Frejat é um cara que gosta de falar sobre música, sobre cena, sobre seu trabalho. O papo que seria de apenas meia hora, ultrapassa o dobro do tempo previsto, e discorre sobre as novas plataformas e o valor das "lives", que tornaram-se um tendência nesses tempos de isolamento social. 

"Acho que as lives serviram para dar uma equilibrada no mercado. Muitos artistas estão dependendo dessas lives patrocinadas para conseguir pagar suas contas. Mas nada substitui um show ao vivo. Além da troca de energia, o artista é alimentado pela plateia. Por melhor que seja o seu show na frente de uma tela de computador, sabendo que tem milhões de pessoas te assistindo, não é a mesma coisa que você estar ali na frente daquelas mesmas pessoas", finalizou.

Ao Redor do Precipício, o novo álbum de Frejat, já disponível em todas as plataformas.

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