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Com retorno triunfal, Ira! lança um dos melhores álbuns de rock da carreira

Ira! está de volta com álbum nostálgico e atual

Ira!
Ira
⭐⭐⭐ 5/5
Por  Ricardo Alfredo Flavio 

A história, todo mundo que cresceu nos 80, e acompanhou o boom do rock nacional, conhece. Para o pessoal mais jovem, que não é da época do vinil, e se delicia conhecendo música através do streaming, um rápido resumo de quem é o grupo IRA!, talvez, a mais paulista das bandas do rock nacional:

Formado em 1981, pela dupla Edgard Scandurra (guitarra) e Nasi (vocal), o IRA (ainda sem a exclamação) lançou seu registro de estreia em 84, o compacto contendo os clássicos “Pobre Paulista” e “Gritos na Multidão”. Em 85 vem o primeiro álbum, “Mudança de Comportamento”, já com a formação clássica e mais duradoura, que contava também com Ricardo Gaspa (baixo) e Andre Jung (bateria – ex-Titãs), que trazia, dentre outras, “Núcleo Base”, canção presente até hoje nos shows da banda. Em 86, o grande sucesso até então, o disco Vivendo e Não Aprendendo, que tem inúmeros hits, como “Envelheço na Cidade”, “Dias de Luta”, “Vitrine Viva” e “Flores em Você”, faixa que foi tema de abertura da novela “O Outro”, da Rede Globo. Sucesso em todo o país e com carta branca da gravadora, vem já em 88, o álbum Psicoacústica, na minha opinião, um dos melhores discos já gravados no rock nacional, mas, que diante do experimentalismo e inserção de várias influências, não foi bem recebido pelo público e por boa parte da crítica – esta acabou aceitando a genialidade do disco muitos anos depois.

Em 90, sai Clandestino e em 91, chega ao mercado “Meninos da Rua Paulo”, dois bons discos, com excelentes canções, mas, que não chegaram a atingir o sucesso da época do segundo trabalho. Em 93, sai Música Calma Para Pessoas Nervosas, que apesar de ter faixas que tocaram bastante em rádio, como “Arrastão! (ladrão que rouba ladrão)” e “Perigo” (com letra de Arnaldo Antunes), é um disco irregular, que evidenciava uma banda em crise. 7, disco lançado em 96, pareceu melhor que o anterior, teve shows animadíssimos, mas, continuou deixando a banda bem distante de bandas que surgiram na época e que estavam no topo da audiência, como Raimundos, Planet Hemp, O Rappa, Charlie Brown Jr. ou Chico Science & Nação Zumbi. Vale lembrar que esta neste álbum uma canção que no futuro se tornou uma das mais pedidas do repertório do IRA!, que é “O Girassol”, destaque mais adiante no disco acústico.

Em 98, sai o estranho disco Você não Sabe quem eu Sou, um disco cheio de toques eletrônicos, e sem nenhum sucesso. Para se ter ideia, os destaques foram duas versões, “Miss Lexotan 6mg – Garota”, cover do Júpiter Maçã e “Eu não Sei”, uma versão para “I Can’t Explain”, do The Who, feita por Roger, do Ultraje a Rigor. Dispensável. Em 1999, a primeira grande virada da banda, que lança o disco de covers Isso é Amor, com versões acima da média para canções de inúmeros artistas, como Legião Urbana, Lobão, Gang 90, Roberto Carlos, Wander Wildner, Lô Borges, Ritchie, Ronnie Von e outros. Em 2000, experimentam o sabor do fenômeno MTV, com o disco MTV Ao Vivo, sucesso estrondoso, como tudo o que era lançado através da emissora musical. Em 2001, veio o bom disco Entre Seus Rins, mas que teve recepção morna, de crítica e público.

Em 2004, a galinha dos ovos de ouro, “Acústico MTV”, aquele disco que todo mundo que gravou virou sucesso instantâneo e tirou muita gente da lama, como o Capital Inicial e tantos outros (o próprio IRA! não cabe nessa estatística, pois já tinha feito um recente “MTV Ao Vivo”). Nesse disco tiveram a oportunidade de repaginar boas velhas canções, como a já citada “O Girassol”, como trazer a tona faixas esquecidas como “Tarde Vazia” ou “Boneca de Cera”, ambas do disco “Clandestino” e, ainda, lançar ótimas canções inéditas como “Por Amor”, de Zé Rodrix, “Flerte Fatal” e “Poço de Sensibilidade”. Agenda lotada, shows por todo o país, sucesso absoluto no rádio e TV e, com nível de stress na estratosfera, em 2007 lançam Invisível DJ, um disco que não tem nada a acrescentar, e que evidencia uma banda em frangalhos. Aí que a banda briga, trocam acusações, Nasi vai para um lado, Edgard, Gaspa e Jung finalizam a agenda como um trio e a banda acaba, de maneira deprimente.

O tempo passa, cada um vai para um canto, Edgard se mete em vários projetos musicais, Nasi lança discos solo, uma biografia e, após 7 anos sem se olhar e se falar, se reconciliam e voltam para a estrada, com nova formação. Em 2017, 10 anos após o último disco e após uma turnê de retorno de sucesso, Nasi e Edgard partem para um projeto intimista, e sai o trabalho “Ira! Folk”, gravado ao vivo em Curitiba, lançado apenas em streaming e DVD, apenas com voz, violão e baixo, recordando boas canções do vasto repertório da banda.

Estamos agora em 2020, ano de pandemia, coronavírus, covid-19, isolamento social, quarentena, governo fascista, violência escancarada contra minorias, racismo em alta, censura, desrespeito à imprensa e flerte com a ditadura, estamos reaprendendo a viver, tentando nos proteger de tanta coisa errada e nos reinventando e o IRA!, que conta hoje com Nasi, Edgard Scandurra, Johnny Boy, no baixo e Evaristo Pádua, na bateria, nos brinda com IRA, primeiro álbum de inéditas em 13 anos, sem o clima de auto-destruição de“Invisível DJ”, e com canções realmente boas!

Claro que aparecerão as velhas viúvas reclamando que “Nasi não tem a mesma voz de antes”, mas, e daí? Primeiro que comparar a voz de um maduro senhor de 58 anos, que passou por todos os excessos possíveis de uma vida rock and roll levada ao extremo, prestes a completar 40 anos de banda, é injusto. Segundo que, Nasi aprendeu a usar a voz que ganhou com o peso dos anos e os excessos já citados. E outra coisa, Edgard Scandurra, é Edgard Scandurra! Um dos mais talentosos guitarristas e compositores brasileiros.

IRA, o disco, representa o sentimento atual da banda e de pessoas conscientes, quanto à situação em que vivemos no país, é raiva pura, é um grito de rebeldia, e não se trata de pensar em esquerda ou direita, a luta é mais profunda que isso, é existência, sobrevivência. São 10 faixas bem construídas, com instrumental caprichado, Nasi cantando realmente, bem dentro de suas limitações, bons backing vocals, uma cozinha coesa e firme com Johnny Boy e Evaristo, tudo se encaixando como uma luva.

O disco começa com a ótima faixa “O Amor Também Faz Errar”, que, de cara nos remete ao The Who, numa introdução de guitarra tipicamente mod, num rock firme, com potencial de hit. “A Nossa Amizade”, que vem na sequencia é uma gostosa e bonita balada. “Respostas” traz a banda de novo a um rock firme e urgente, numa batida quase marcial, e com um riff bacanazzo na abertura, que se mistura com solos viajantes quando entra a segunda voz, de Edgard. Que música boa, amigos, que vai crescendo em solos, riffs e a batida incessante de Evaristo Pádua! E o Nasi, cantando muito aqui!

Chega a calmaria, numa canção que o IRA! sempre trouxe em sua carreira, com Scandurra fazendo a voz principal, lembrando quando Pete Townsend fica a frente do The Who ou Keith Richards tem seus momentos nos Rolling Stones. “Mulheres a Frente da Tropa” é uma canção belíssima! Uma balada bem feita, com letra forte, politizada. Chega emocionar. “Você me Toca”, começa com um Scandurra possuído, cheio dos solos caprichados, numa canção extremamente funkeada, que nos remete aos tempos de “Vitrine Viva”, com Nasi correto no balanço e um refrão pegajoso, do tipo que cabe bem nas FM’s.

O álbum continua com “Efeito Dominó”, faixa de quase 8 minutos, parceria de Edgard Scandurra com Virginie Boutaud, vocalista da banda Metrô, que divide vocais com Nasi e Edgard, mas, cantando em francês, outra balada linda. “Chuto Pedras e Assobio”, parece continuação da anterior, mantém o interesse e te faz assobiar junto.

“Eu Desconfio de Mim”, me levou de volta aos 80, mais precisamente ao som instrumental do Smack, uma das inúmeras bandas onde Scandurra tocou, mas, com um vocal mais animadinho. “O Homem Cordial Morreu”, volta ao mesmo clima de “Respostas”, a terceira faixa do álbum, é um rockão mais urgente. O disco chega ao final com “A Torre”, bom jeito de terminar um ótimo disco, backings femininos, baixo nervoso de Johnny Boy, bateria firme de Evaristo, Edgard e Nasi caprichando na parte que os compete.

2020, o ano em que o IRA! se superou e gravou um disco como há muito não fazia. 10 canções muito boas, 10 canções dignas do IRA! Num ano complicado, com pandemia e reinvenção, o IRA! fez um dos melhores discos de sua longa carreira, e, que será dos melhores desse ano.

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