segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Sobre festivais de rock e a hipocrisia das redes sociais

Os grandes festivais de rock sempre causam polêmica nas redes sociais
Por Bruno Eduardo

É sempre a mesma coisa. Basta um grande festival anunciar suas atrações, que as redes sociais bombam de gente reclamando das supostas escolhas. Que o ser humano adora ter o que reclamar - principalmente o brasileiro - não é novidade para ninguém (quem nunca?). Aliás, refraseando Eddie Vedder, questionar é um dos grandes prazeres da humanidade desde que nos tornamos os primeiros mamíferos a usar calças. O problema - como sempre - são as justificativas. Para os detratores, o Rock in Rio não inova; o Lollapalooza não tem ninguém "grande" que justifique; e o Monsters Of Rock só tinha dinossauros. Todos, argumentos plausíveis, mas feridos por uma incoerência afiada - sangrando sobre uma grossa falcatrua de que existe no Brasil muitas pessoas interessadas em descobrir e incentivar "o novo". Não há. 

Aqui, em solo amado, o público de rock é e sempre foi muito conservador. Todo mundo sabe disso. O Medina sabe, a Rede Globo sabe, e até o ex-presidente Lula sabia (sic). Você acha que as únicas rádios de rock do país só tocam chavões das décadas passadas por coincidência? Já foi época que patrocinadores acreditavam em números e estimativas flutuantes. Hoje, o que vale é onde a marca vai estar - não importando a quantidade de promissórias na maleta. Muito glamour e pouca substância - essa sim, é a nova realidade.


Seria ótimo ver gente consumindo discos novos, indo em shows de bandas que não tocam para multidões e pautando artistas anônimos. Seria lindo ver o rock se renovando em mais um novo movimento juvenil - ou já esquecemos que todas as grandes transformações e revoluções no gênero contaram com o sopro da juventude? Repito: Seria lindo! 


Porém, sabemos que não é bem isso que acontece. Os mesmos colegas que reclamam dos medalhões são os que desprezam as bandas mais novas - utilizando-se, sem qualquer constrangimento, daquela velha e nefasta justificativa: "as da minha época faziam muito melhor" - que ironia, não? Ou pior: dizem que não temos material de qualidade; que não temos cena; que o rock está falido; e desprestigiam a escalação de bandas independentes em grandes festivais - "Lollapalooza? Só Duran Duran interessa", diriam os mesmos. 


Mas e aí, sabe quem paga a conta da festa? Os medalhões, claro! 


Em uma época de economia nebulosa, não há festival no mundo que sobreviva sem grandes headliners. No Brasil então, o cinto aperta até a boca do estômago, visto que o mercado de shows está superfaturado. Com exceção do Rock in Rio (que acontece de dois em dois anos), nenhuma outra marca consegue se bancar por tanto tempo no país. O Lolla vem resistindo há seis anos. O Monsters Of Rock, SWU e o Planeta Terra já sucumbiram. Mas afinal, quantas milhares de pessoas gostariam de ver uma banda como o Swans de headliner do Rock in Rio? Ou o Royal Blood fechando um palco do Lolla? Ou quem sabe, esgotariam a carga de ingressos em uma casa como o Citibank Hall para assistir a sensação do rock americano, Cloud Nothings? Quem se arrisca? Ninguém. Todo mundo quer ver Iron Maiden, Metallica, Guns N'Roses, Foo Fighters, AC/DC e Pearl Jam pela enésima vez.


Sim, embora seja uma afirmação que venha a desferir fundo no coração dos apaixonados pelo gênero, o rock é um produto como qualquer enlatado que você encontra no supermercado. E no Brasil, o consumidor de rock além de pesar pela meia-idade, prefere as marcas mais famosas. Os jovens, que deveriam ser os mais interessados em experimentar o novo, por sua vez não possuem caráter consumista - foram educados ao modelo self service da internet, onde tudo é descartável, e por isso, quase tudo é inflexível.   


Para se ter uma ideia de como a coisa tá indo, até mesmo os festivais regionais como Abril Pro Rock, Porão do Rock e Goiania Noise estão cada vez mais apostando em nomes repetidos - ou gringos - para encabeçar seus casts. Isso sem falar, que ainda há alguns outros que se sustentam há uma década no do it yourself, sem qualquer ajuda de custo dos governos locais - como o Arariboia Rock (RJ) e o Udirock (MG), que sequer possuem condições de pagar cachês para artistas de médio porte (alô prefeituras!).


O rock não é de graça minha gente. Paga quem quer - e quem pode. Então antes de reclamar, façam as contas. Talvez elas não estejam batendo. Exatamente porque quem deveria realmente financiar o show, está em casa, no facebook ou no youtube, ou talvez na fila de compra para mais um show do Metallica no Brasil. It´s Business!

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