Na noite de ontem, o Espaço Unimed foi palco do encerramento oficial da turnê comemorativa que reuniu a formação original do Barão Vermelho, em uma apresentação que transcendeu o formato tradicional de espetáculo para se consolidar como um documento vivo sobre a história do rock brasileiro. Roberto Frejat, Dé Palmeira, Maurício Barros e Guto Goffi subiram juntos ao palco visivelmente tocados pela dimensão daquela despedida coletiva, traduzida por Goffi como uma verdadeira avalanche de emoções.
A condução da noite coube principalmente a Frejat, que transformou o setlist em uma narrativa detalhada e sincera, compartilhando bastidores de momentos cruciais da banda.
Entre as memórias, ele relembrou com nostalgia a pureza e a ingenuidade do início da carreira ao introduzir "Down em Mim", faixa escolhida para estrear nas emissoras de rádio mesmo sendo um blues cru e improvável para a época. Em outro relato franco, expôs a mágoa que afastou "Eu Queria Ter Uma Bomba" dos palcos por quase 15 anos: em julho de 1985, minutos antes de tocarem no que seria o último show com Cazuza, o grupo assistiu pela televisão no camarim ao Fantástico anunciar o clipe da música como a estreia solo de Cazuza, ignorando que todos os integrantes do Barão executavam o áudio e o vídeo. Mas destacou o carinho que possuem pela canção.
A figura de Cazuza permaneceu viva durante todo o evento, homenageada diretamente pela banda e lembrada espontaneamente pelo público em coros frequentes que ecoavam pelo recinto. A carga emocional atingiu um de seus ápices no dueto audiovisual entre Frejat e a imagem de Cazuza no telão durante "Todo Amor Que Houver Nessa Vida", bem como na projeção de seu retrato em destaque logo após a execução de "O Poeta Está Vivo", além da comoção generalizada que tomou conta do público na clássica "Codinome Beija-Flor".
Em outro momento de sensibilidade ímpar, os quatro fundadores se reuniram para executar uma versão acústica e intimista de "Bilhetinho Azul", evidenciando a cumplicidade musical construída em quatro décadas.
Essa sintonia se contrapôs à energia catártica que tomou conta da casa quando os grandes sucessos foram disparados. A euforia coletiva atingiu níveis máximos em hinos como "Bete Balanço", "Por Você" e "Puro Êxtase", faixas em que a conexão entre plateia e músicos se mostrou imediata, com milhares de vozes cobrindo a pista e pulando em uníssono.
A cumplicidade mútua ficou ainda mais evidente diante de adversidades técnicas: por duas vezes o sistema de caixas de som principais parou de funcionar, mas a multidão não desanimou em nenhum segundo e continuou cantando as letras a plenos pulmões, sustentando as músicas até o som retornar.
No palco, a apresentação dos membros coube primeiro a Guto Goffi, o único membro que permaneceu ininterruptamente em atividade ao longo de toda a história do grupo. Goffi destacou a amizade de longa data que mantém com Dé e Maurício desde a adolescência e, ao chamar o nome de Frejat, desencadeou uma das maiores ovações da noite, momento em que o cantor pontuou que o aspecto mais precioso de toda essa jornada era a permanência da amizade entre eles.
Mais adiante, Maurício Barros assumiu o microfone para saudar os músicos que completam o grupo. Merecem menção honrosa o guitarrista Fernando Magalhães, presente na formação desde 1985, e ao guitarrista Rafael Frejat, filho de Roberto, que simboliza a perpetuação do repertório entre diferentes gerações.
Foto: Carol Goldenberg
Maurício também protagonizou um manifesto político direto ao lembrar que "o barão é vermelho", gesto respaldado pelos músicos ao fazerem a letra L com as mãos, o que foi bem recebido por grande parte do público ali presente.
Diante de uma plateia formada por admiradores da primeira fase do grupo e novos fãs que nunca haviam assistido aos fundadores reunidos, Frejat agradeceu a presença maciça de todas as faixas etárias, coroando uma noite que celebrou o peso artístico, as feridas cicatrizadas e o impacto indelével do Barão Vermelho na música nacional.



