Após 7 anos, Pitty retorna com rock dançante e muitas questões para tratar


Pitty
⚡Pitty⚡
⭐⭐⭐⭐✰ 4/5
Por  Lucas Scaliza 


Quando começou a dar pistas do sucessor de Matriz (2019), Pitty resumiu o disco em quatro adjetivos: pesado, dançante, sexy e raivoso. Era uma promessa e tanto para quem estava há sete anos sem lançar inéditas. O intervalo não foi de silêncio — teve PittyNando, o disco de releituras e a turnê comemorativa dos 20 anos de Admirável Chip Novo —, mas desembocou numa pausa anunciada no fim de 2024 com a promessa de "mudanças profundas, estruturais". Semanas depois, veio o fim do casamento com Daniel Weksler. A cantora disse que precisava se reencontrar, e o reencontro ganhou nome e sobrenome: ⚡PITTY⚡ é o primeiro álbum em que ela assina, além de letras, melodias e riffs, a direção geral e a coprodução, ao lado do parceiro de toda a carreira, Rafael Ramos.

Rock que dança

O disco abre com "Sobremesa", e é bom ouvir as guitarras voltarem para a frente com tanta convicção. Rafael Ramos disse que a faixa parece "Pitty lá no começo, mandando todas aquelas verdades" — e é difícil não ligar esse retorno ao peso à temporada recente revisitando Admirável Chip Novo no palco. "Sobremesa" funciona mais como declaração de princípios, estabelecendo o que esperar do álbum como um todo: rock poderoso (sem precisar virar heavy metal), com assunto sério tratado com charme irônico.

Mantendo essa tônica, o disco sabe ser mais acessível. "Armadura", "Pileque de Poeta", "Amiga", "Sobriedade Seletiva" e "Madame" têm ritmos muito bem resolvidos e levam a textura do rock para um clima francamente dançante. Aqui o "dançante" da promessa se cumpre sem que o "pesado" seja abandonado. São, talvez, as faixas que melhor conversam com quem não chegou a Pitty pela porta do rock.


A primeira surpresa de verdade é "Desobediente". Escala oriental, produção eletrônica, uma guitarra industrial e versos em rap. Está tudo na mesma faixa, mas sendo entregue em fases, mantendo o ouvinte sendo surpreendido a cada virada. É o momento em que fica claro que a artista que sempre foi além do rock — a do Agridoce, a do diálogo com a Bahia em
Matriz — não ficou na gaveta durante a pausa. Pitty fez aqui um musicão que merece, desde já, estar entre as obras mais significativas da carreira dela.

Se "Desobediente" aponta para a frente, "Álbum de Casamento" olha para a raiz. É um blues de 12 compassos, a forma mais elementar da linhagem do rock, e Pitty a ocupa com a naturalidade de quem conhece a casa. O título torna inevitável a leitura biográfica, depois de tudo o que aconteceu desde 2025. A canção se sustenta por si e é forte candidata a entrar no rol das clássicas da cantora, mas é inevitável ouvir e pensar nas fofocas sobre o fim de seu casamento.

Como cantora, Pitty passa a maior parte do disco em regiões confortáveis para a voz e mostra muita habilidade para interpretar as melodias do álbum que estão entre as mais sofisticadas que já compôs. Quem ama firulas vocais pode se sentir órfão, mas a trajetória dela sempre foi mais focada na constância de uma execução coerente do que apoiada em malabarismo vocais. No entanto, não tem como os gracejos de "Prazer, Universo" passarem em branco. E aqui digo "gracejos" na melhor acepção da palavra.


Escuro como a capa

Privilégios, sexualidade, relações amorosas, relações de amizade, questões etárias, falsidades: é uma miríade de temas tratados nas 13 faixas que garantem conteúdo de sobra ao disco. Não que antes não houvesse conteúdo "sério" sendo tratado nas músicas de Pitty, mas é que dessa vez tudo parece bastante pessoal. Não é à toa que o trabalho leva seu próprio nome.

Embora seja um rock dançante, ⚡PITTY⚡ é um disco escuro como sua capa. Fica quase palpável o árduo processo de achar um caminho até esses temas ganharem forma escrita e sonora. O resultado final é fácil de ouvir, mas guarda uma densidade que não se entrega na primeira audição. Tem algo de "Aproveite-me e decifre-me" que só torna tudo mais interessante.

Os quatro adjetivos com que Pitty apresentou o disco foram precisos. Rock, dançante, raivoso e sexy - sim, tem tudo isso mesmo no trabalho. Só que mais do que isso, ⚡PITTY⚡ é uma volta poderosa. Ela tem o que dizer e tem mais de 20 anos de uma estética construída com o rock, mas não só com ele, e equilibra bem esse acervo de referências. Há peso muito bem timbrado para quem queria a roqueira de volta; tem four on the floor para quem quer dançar; e tem novidade para quem espera da artista algo além. É, ao mesmo tempo, um convite para curtir enquanto encara verdades duras. Para um disco que leva o próprio nome, pode ser um retrato bastante fiel desse momento.

Lucas Scaliza

Jornalista, músico sem banda e estrategista de marca. Não abre mão de acompanhar os sons do agora. Joga tarô e já foi host de podcast.

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