Foto: Adriana Vieira / Rock On Board
O Rio de Janeiro recebeu a estreia da turnê Barão – O Encontro, que reúne a formação original do Barão Vermelho — sem Cazuza — em uma produção grandiosa, com palco imponente, uma extensa parede de telões de alta definição e participações especiais. Diante do histórico da banda como uma das mais poderosas ao vivo do rock nacional, especialmente na era liderada por Frejat, quando dominou arenas nos anos 90, a expectativa era clara: um espetáculo à altura de sua própria história.
E eles definitivamente entregaram tudo.
O início até deu a impressão de casa vazia, com o público demorando a ocupar a pista da Farmasi Arena. Mas bastaram os primeiros acordes para que tudo mudasse — e a arena logo se transformasse em um coro massivo.
A abertura com “Maior Abandonado” já deixou claro que a grandiosidade não é apenas estética. O som — alto, limpo e encorpado — impressiona. Guitarra, baixo, bateria e teclados soam com precisão e peso, numa qualidade sonora rara, mesmo em shows de grandes produções. Na sequência, “Pedra, Flor e Espinho” do ótimo Supermercados da Vida, evidencia a estética musical que cravou a banda nos píncaros do mainstream dos velhos tempos - fundamentado pelas rádios FM e pela chegada da MTV Brasil.
O retorno de Frejat e seu amor ao rock
Vamos falar português claro. Para a grande maioria do povão, "O Encontro" é a oportunidade de ver Frejat tocando mais uma vez com o Barão Vermelho. E não é por menos. Ele é um dos mais carismáticos e icônicos nomes do rock nacional.
No entanto, esse retorno de Frejat é sentido, sobretudo, na guitarra. É lá que tudo realmente se justifica. Em “Pense e Dance”, do disco Carnaval, surge um riff pesado, com pegada crua, quase agressiva — revelando um lado muitas vezes ofuscado pela imagem de crooner. E os solos de guitarra do cara? Um espetáculo à parte. Em “O Tempo Não Para”, a guitarra literalmente “fala”, alternando emoção e intensidade em um dos momentos mais marcantes da noite.
Frejat ama tocar rock com o Barão Vermelho. E isso fica evidente em cada uma das vezes que ele anuncia: “vamos tocar uma sequência rock and roll agora”. É nesse território que a essência de Roberto Frejat pulsa mais forte. Mesmo que ele embale o público nas baladas e promova coros gerais em superhits radiofônicos como “Por Você”, são nos riffs de guitarra que seus olhos brilham, sua expressão muda, sua origem renasce. É no rock que Frejat visita sua juventude. Por falar nisso, seu filho, Rafael Frejat, também está no palco com sua guitarra vermelha, no adicional sonoro da ótima apresentação.
Uma banda de virtuosos discretos
Uma outra coisa que esse showzaço ratifica, e passa batido por muita gente, é que o Barão sempre foi - e segue sendo - uma banda de virtuosos discretos. Enquanto Frejat procura oportunidades para fritar sua guitarra, Maurício Barros é uma dádiva para qualquer amante de boa música. A habilidade do tecladista transborda durante a apresentação e pode ser notada principalmente no órgão setentista de “Bete Balanço”, com ecos de Jon Lord, e nos sintetizadores de texturas modernas em “Puro Êxtase”.
Na retaguarda, Guto Goffi sustenta tudo com precisão e swing. Único integrante presente em todas as fases, ele é o motor rítmico que permite ao Barão Vermelho transitar entre o rock direto e arranjos mais elaborados, quase de big band, com percussão, backing vocal e músicos de apoio. Aliás, o melhor Barão, musicalmente falando, está nesse formato grandioso, já com o excelente Fernando Magalhães, que também toca com a banda nessa turnê. Aliás, é importante registrar: poucas bandas conseguiram fazer rock para rádios com sofisticação musical sem perder sua identidade como o Barão fez nos anos 90. Basta ouvir o subestimadíssimo Carne Crua, de 1994, para entender o que estamos falando.
Outro integrante original que retorna para esses shows é Dé Palmeira, que ficou na banda até 1990, saindo no processo de gravação do álbum Na Calada da Noite. Com todas as diferenças e ressalvas com os demais integrantes e as demais formações do grupo, o palco com Dé, Frejat, Goffi e Maurício, faz a engrenagem funcionar com uma fluidez impressionante.
Emoção com Ney Matogrosso
Os momentos emocionais também têm seu espaço. Em “Meus Bons Amigos”, imagens da trajetória da banda tomam conta dos telões enquanto o público canta em uníssono. Já “Codinome Beija-Flor” ganha um coro a capela que inevitavelmente remete à ausência sempre presente de Cazuza.
O espetáculo cresce ainda mais com a participação de Ney Matogrosso. Ovacionado, ele divide — ou melhor, como disse Frejat, “compartilha” — o palco em momentos intensos. Mesmo recorrendo ao apoio visual das letras e com Frejat soprando alguns versos em seu ouvido, Ney Matogrosso provou que segue cantando divinamente bem. Sua performance impressiona em “Ideologia” e atinge um dos pontos mais altos da noite em “Poema” — canção eternizada em sua voz, com letra de Cazuza que permaneceu guardada por 23 anos até ser musicada por Frejat e lançada em 1999, no álbum Olhos de Farol.
Outro momento de destaque veio com “Blues da Piedade”, interpretada com intensidade e sensibilidade, arrancando uma das maiores reações do público.
Homenagens que dialogam com a história da música brasileira
Foto: Adriana Vieira / Rock On Board
Como toda grande celebração histórica, o que não faltam são homenagens. Sejam elas verbalizadas, como Guto Goffi fez ao microfone aos amigos Ezequiel Neves e Cazuza, ou em forma de canções. E isso abriu espaço para releituras que dialogam com a história da música brasileira, como “Amor, Meu Grande Amor” (Angela Ro Ro), “Vem Quente Que Eu Estou Fervendo” (Eduardo Araújo) e “Malandragem Dá um Tempo” (Bezerra da Silva). Houve também homenagens a outros nomes importantes do rock nacional, como Legião Urbana, Rita Lee e Raul Seixas.
Na reta final, “Bilhetinho Azul” reúne os músicos em um palco elevado, preparando o terreno para “O Poeta Está Vivo” e os últimos momentos da noite. Com Ney novamente em cena, “Por Que a Gente É Assim?” e “Pro Dia Nascer Feliz” encerram a apresentação em clima de celebração.
Mais do que um reencontro, o show reafirma o Barão Vermelho como uma das maiores forças do rock nacional ao vivo.
Um dos melhores shows do ano. E daqueles que você não deveria perder por nada.



