Pouca gente foi até o Palco Sunset para assistir a PJ Morton nesta sexta-feira (11), no Rock in Rio. E talvez esse tenha sido o maior contraste de sua apresentação: enquanto a Cidade do Rock estava dominada pelo K-pop, pelos lightsticks, pelas grandes produções visuais e por um público majoritariamente jovem, o músico americano entregou um show construído praticamente na direção oposta — baseado em voz, banda e musicalidade.
Tecladista do Maroon 5, que se apresenta neste sábado (12) como headliner do Palco Mundo, PJ Morton aproveitou o Rock in Rio para mostrar uma outra faceta de sua carreira. No trabalho solo, ele deixa o papel de músico de apoio para assumir o protagonismo como cantor, pianista e compositor, explorando uma sonoridade que passeia pelo soul, R&B e pelo pop sofisticado.
E canta muito bem. Talvez esse seja um dos maiores destaques da apresentação. Com uma boa banda de apoio, Morton mostrou uma voz segura e expressiva, conduzindo músicas como “Mutual”, “My Peace”, “Good Morning”, “Ready” e “Claustrophobic”. O repertório também passou por “Sticking to My Guns”, “Mercy”, “Sell My Soul” e “First Began”, criando uma atmosfera muito mais intimista do que aquela normalmente associada ao Maroon 5.
Foi um show para quem estava interessado em música — não necessariamente em hits, efeitos, lasers ou grandes estímulos visuais. E isso, em um dia de Rock in Rio praticamente tomado pelo universo do K-pop, ganhou um significado ainda maior.
A diferença de proposta ficou evidente também na plateia. Morton teve um dos menores públicos do Palco Sunset desde o início desta edição do festival. A baixa presença não parece estar relacionada à qualidade da apresentação, mas muito mais ao encaixe da escalação. Colocar um artista de soul e R&B, com uma proposta mais sofisticada e contemplativa, em um dia dominado por atrações voltadas a um público muito mais jovem, talvez não tenha sido a combinação mais favorável. Ainda assim, a escolha merece ser elogiada.
Em meio a um dia em que luzes, telões, coreografias e milhares de lightsticks se transformaram em parte fundamental do espetáculo, PJ Morton mostrou que ainda é possível subir a um palco de festival e deixar a música ocupar o primeiro plano.
Até mesmo ao revisitar “How Deep Is Your Love?”, dos Bee Gees, no encerramento, Morton encontrou espaço para imprimir sua personalidade à canção. Foi uma escolha que reforçou a ligação de seu trabalho com uma tradição musical que atravessa gerações.
O show não teve a multidão de outros momentos do Rock in Rio. Não teve o impacto visual de uma grande produção pop. Mas teve algo que, em um festival desse tamanho, não pode - e nem deve - ser subestimado: músicos tocando muito bem, uma ótima voz e canções que se sustentam sem precisar de nenhum outro recurso.
Em um Rock in Rio dominado pelo espetáculo visual e pelas danças core, PJ Morton apostou na música. E ganhou.




