Numa dessas estranhezas - boas - de line-up que o Rock in Rio provoca, coube justamente no dia do K-pop o show mais experimental desta edição do festival. Trata-se do Rio Bronx, projeto formado por três brasileiros e que conta com a presença de Will Calhoun, lendário baterista do Living Colour.
Foi um show essencialmente experimental. A proposta do grupo é unir as raízes cariocas às referências do Bronx, e o resultado é uma verdadeira alquimia sonora, bem avant-garde, repleta de experimentalismo e liberdade. Will Calhoun, além de tocar bateria divinamente bem, ainda se arrisca em alguns versos no canto. Como uma espécie de maestro, também assume outros instrumentos e percussões, enquanto tudo isso é fundido aos sintetizadores de Guilherme Gê.
Um dos momentos mais reconhecíveis da apresentação foi justamente a referência ao mestre James Brown, com “Get Up, I Feel Like Being a Sex Machine”, inserida dentro dessa experiência sonora que mistura funk, soul, hip hop, música brasileira e improvisação.
Outro grande momento aconteceu no encontro entre dois mestres da percussão. De um lado, Marcos Suzano, lendário e icônico percussionista brasileiro. Do outro, Will Calhoun, na bateria. O duelo — ou melhor, o diálogo — entre os dois foi um dos pontos altos de um show que apostou justamente na liberdade e na experimentação.
A banda ainda conta com Marcelinho da Lua, nome importante da cena carioca e responsável por trazer ainda mais esse lado do Rio de Janeiro para a sonoridade do projeto. A verdade, é que o Rio Bronx une no palco, não só referências, mas sim, quatro cientistas musicais de primeiríssima qualidade.
Enquanto a banda tocava, um filmmaker registrava imagens dos integrantes em tempo real. As imagens eram projetadas no telão atrás do palco, criando uma experiência audiovisual repleta de efeitos e referências tanto ao Rio de Janeiro quanto ao Bronx. Música, imagem e tecnologia se misturavam o tempo inteiro.
E havia um detalhe importante: aquele era apenas o primeiro show do Rio Bronx. Depois da apresentação, no camarim, Guilherme Gê falou sobre a importância de estrear justamente no Rock in Rio:
“Esse é o nosso primeiro show e é um privilégio poder mostrar isso num palco como o Rock in Rio.”
Will Calhoun também falou sobre a experiência de tocar com esses músicos. Para ele, estar no Rio Bronx é como entrar em uma verdadeira máquina sonora, na qual pode explorar diferentes referências acumuladas ao longo de sua trajetória musical.
E a diferença entre tocar com o Rio Bronx e com o Living Colour? A resposta de Will foi bastante reveladora. O baterista contou que ama criar e experimentar novas experiências e que, naquele dia, estava simplesmente se divertindo ao lado de amigos e ótimos músicos.
Tudo isso aconteceu para um público bastante reduzido. Afinal, tratava-se do dia dedicado ao K-pop, e a maior parte das pessoas que estava na Cidade do Rock tinha outros shows como prioridade. Mas os poucos que pararam para assistir ao Rio Bronx certamente tiveram a oportunidade de conferir um dos projetos mais interessantes e ousados desta edição do Rock in Rio.
E fica aqui uma dica para a produção do festival: dar uma oportunidade maior ao projeto em uma próxima edição, colocando o Rio Bronx em um palco de maior visibilidade e, principalmente, em um dia mais apropriado para esse tipo de proposta.
Porque monstros da música como Will Calhoun e Marcos Suzano merecem esse tipo de atenção. E, depois de assistir ao primeiro show do Rio Bronx, fica a sensação de que esse projeto ainda tem muito a explorar.

