Stray Kids, lightsticks e famílias: um novo público no Rock in Rio

Foto: Adriana Vieira / Rock On Board

Criança dorme cedo? Bom, não foi exatamente isso que vimos no Rock in Rio nesta sexta-feira (11). O show do Stray Kids terminou por volta das duas horas da manhã, com a Cidade do Rock tomada por crianças, adolescentes, jovens e muitas famílias que enfrentaram a madrugada para acompanhar de perto um dos maiores fenômenos do K-pop.

Era um público diferente daquele que tradicionalmente ocupa as grades do Palco Mundo. Jovens com lightsticks nas mãos, muitos caracterizados, outros usando roupas inspiradas em animes e na cultura asiática, famílias inteiras e crianças de todas as idades transformaram a Cidade do Rock em um ambiente completamente novo para o festival. E isso não aconteceu por acaso.

Foto: Adriana Vieira / Rock On Board

Como Roberta Medina havia dito com exclusividade ao Rock On Board antes do festival, esse seria um dia dedicado às famílias. E foi exatamente o que aconteceu. Gente de diferentes partes do Brasil veio ao Rio de Janeiro para assistir ao Stray Kids. A aposta no K-pop trouxe para o Rock in Rio um público que, em boa parte, talvez ainda não tivesse uma relação tão próxima com o festival.

E, gostando ou não de K-pop, é preciso reconhecer que o Rock in Rio entendeu o movimento. Afinal, o festival nunca foi exclusivamente sobre rock.

Quem acompanha a história do evento sabe disso. Em 1985, já havia espaço para artistas que ultrapassavam as fronteiras dos gêneros mais populares. Em 1991, a contemporaneidade tomou conta da programação com nomes como New Kids on the Block, Information Society, Run-D.M.C., Lisa Stansfield e Debbie Gibson. Em 2001, NSYNC, Sandy & Junior e Britney Spears mostraram novamente que o festival estava disposto a conversar com novas gerações. Ou seja: a abertura para o pop contemporâneo não é uma invenção recente. O Rock in Rio faz isso há décadas.

Foto: Adriana Vieira / Rock On Board

A diferença, desta vez, é que a aposta foi em um fenômeno cultural que vai muito além da música. O K-pop está profundamente ligado ao universo geek, aos animes, às redes sociais, à estética asiática e a uma comunidade de fãs extremamente engajada. É uma cultura que já conquistou o mundo e que agora chegou oficialmente ao palco principal do Rock in Rio. E com tantos festivais e megashows concorrentes, uma das saídas do Rock in Rio é olhar para um público iniciante nessa venda de experiência.

Afinal, não dá para negar, os grandes headliners históricos do festival estão envelhecendo. Muitos dos artistas que ajudaram a construir a identidade do evento já estão com idade avançada e, naturalmente, não estarão disponíveis para sempre. Renovar o público passa, portanto, por encontrar artistas capazes de conversar com gerações que ainda estão descobrindo seus próprios ídolos. Em entrevista a Rolling Stone Brasil, Zé Ricardo, Vice-Presidente Artístico da Rock World falou da necessidade de educar o público de metal com nomes menos tradicionais. Nos dias de rock, vimos gente como Nova Twins, Bring Me The Horizon, Bad Omens e outros expoentes da nova geração, o mesmo acontece no que se diz respeito ao novo pop.

Foto: Adriana Vieira / Rock On Board

O fato, é que nesse dia de K-Pop, a média de idade na Cidade do Rock caiu de maneira perceptível. Crianças e adolescentes ocuparam espaços próximos à grade, enquanto muitos pais acompanhavam seus filhos. Houve jovens passando mal pelo esforço e pela pressão para permanecer perto do palco. A produção chegou a demonstrar preocupação com a segurança desse público mais novo.

Durante o show da Hwasa, pouco antes do Stray Kids, um aviso chegou a pedir que o público desse um passo para trás para aliviar a pressão na grade e diminuir a aglomeração. Era um sinal claro de que o Rock in Rio estava lidando com uma dinâmica diferente daquela que costuma encontrar em seus grandes shows. 

Foto: Adriana Vieira / Rock On Board

Pode haver quem não goste da escolha, quem prefira o Rock in Rio exclusivamente associado ao rock ou quem torça o nariz para o K-pop. Mas isso não muda um fato: o gênero já faz parte da cultura pop mundial e encontrou no festival um público gigantesco. E, depois do que aconteceu na Cidade do Rock, é difícil imaginar que o K-pop tenha sido apenas uma experiência isolada. Se depender da resposta do público, ele pode ter aberto uma nova porta no futuro do Rock in Rio, ou ao menos, uma nova opção de fenômeno popular contemporâneo, já que é disso também que se trata a história desse festival. E parafraseando um artista da primeira edição, de 1985: "Eu vejo o futuro repetir o passado". 

Não adianta reclamar, basta olhar para trás.

Bruno Eduardo

Jornalista e repórter fotográfico, é editor do site Rock On Board, repórter colaborador no site Midiorama e apresentador do programa "ARNews" e "O Papo é Pop" nas rádios Oceânica FM (105.9) e Planet Rock. Também foi Editor-chefe do Portal Rock Press e colunista do blog "Discoteca", da editora Abril. Desde 2005 participa das coberturas de grandes festivais como Rock in Rio, Lollapalooza Brasil, Claro Q é Rock, Monsters Of Rock, Summer Break Festival, Tim Festival, Knotfest, Summer Breeze, Mita Festival entre outros. Na lista de entrevistados, nomes como Black Sabbath, Aerosmith, Queen, Faith No More, The Offspring, Linkin Park, Steve Vai, Legião Urbana e Titãs.

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