Hwasa entrou no palco confiante. Ela queria entregar performance, como ela mesmo admitiu antes de fechar o show. Mas houve um gesto que se repetiu tantas vezes que virou o centro do show. A cantora afastava o microfone da boca para executar um passo, girar, encarar a câmera — e o vocal continuava saindo das caixas exatamente igual. Mesmo volume, mesma dicção, mesmo fôlego. A Cidade do Rock ouvia uma gravação e a artista não se dava nem ao trabalho de fingir.
Hwasa não construiu uma carreira sendo a melhor dançarina da sala. Ahn Hye-jin estreou em 2014 no MAMAMOO, um dos grupos femininos mais respeitados do K-pop justamente por privilegiar vocal, e se destacou por ter um timbre grave, com um lastro de soul que praticamente não existia na indústria coreana até então. Quando partiu para a carreira solo, em 2019, com "Twit", emplacou o primeiro lugar nas paradas e um Gaon. No ano seguinte veio o EP María, batizado com seu nome de batismo, um disco sobre o desgaste de ser vigiada, que virou seu cartão de visitas fora da Ásia.
O resto da notoriedade dela tem menos a ver com música e mais com o que o corpo dela representa numa indústria de padrões rígidos. Hwasa conta que, numa audição, ouviu de um instrutor que cantava muito bem, mas era gorda e feia. Respondeu, anos depois, num palco: se não cabia no padrão daquela geração, seria ela mesma um padrão novo. Em 2023, uma apresentação num festival universitário em Seul foi denunciada à polícia por um grupo de pais sob acusação de indecência. Ela colaborou com a investigação, foi triturada por comentários de ódio, deixou a RBW, assinou com a P Nation — a gravadora de PSY — e respondeu com um single chamado "I Love My Body". É esse conjunto, voz e insubmissão, que faz dela um nome importante do K-pop contemporâneo.
Daí o tamanho do problema. Uma artista cuja biografia inteira é sobre autenticidade subiu ao Palco Mundo e entregou tudo, menos a sua própria voz. A prova veio em "Don't", que ela cantou de fato os versos, mas não o refrão, e a diferença ficou escancarada. A voz real tem arestas, respirações e variação de pressão que a faixa de apoio não tem.
Vale lembrar que, por muito menos, o público do Rock in Rio já crucificou gente. Em 2001, Britney Spears foi acusada de dublar no mesmo palco e carregou o rótulo por duas décadas, mesmo com relatos posteriores atribuindo o episódio a problemas de som.
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Mas Hwasa fez um espetáculo competente na embalagem com todas as coreografias, carões, luzes e muitos bailarinos. Um dos momentos mais orgânicos do show foi a a apresentação da banda, com solo de guitarra e de bateria, seguida de uma seção instrumental para ela dançar.
E se não cantou tanto, pelo menos a artista se comunicou bastante com o público o show inteiro. Falou em coreano e uma tradutora convertia para o português, ao vivo. É o tipo de ideia que outros artistas estrangeiros deveriam copiar. Ela conversou com muita naturalidade e desceu para ficar perto dos fãs. Até beijou a mão de uma menina na grade. Simpática, realmente.
Em "Na", Hwasa disse que a música era especial para o Rio. Pode até ser verdade no plano afetivo, mas não houve nada na execução, no arranjo, nos visuais do telão ou na iluminação que sustentasse isso. Ficou como cortesia de turnê, dessas que se diz em qualquer cidade trocando o nome.
Nada disso significa que o público saiu insatisfeito. O K-pop entrega uma experiência coletiva que independe da origem do som, e negar isso seria desonestidade. Mas festival é o lugar onde a música precisa provar que existe fora do fone de ouvido. Hwasa não mostrou seu potencial vocal (e deve ter seus motivos para isso), mas sustentou a apresentação com papo, pose e presença.

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