A segunda música foi "I Am Not a Woman, I'm a God", mantendo a pegada meio eletrônica e meio roqueira da abertura, e a partir dali ela ditou o ritmo sem devolver o controle em nenhum momento. A performance é enérgica e teatral, feita de movimentos bruscos, duros, coreografados a marteladas. O que impressiona é que nada disso é feito às custas da voz. Dá para ver o esforço físico real que ela faz para cantar daquele jeito e ainda sobra expressão. É tanto uma cantora quanto uma atriz que a Cidade do Rock pôde ver em ação no último dia de Rock In Rio.
É tudo parte de uma grande arquitetura. A turnê The Girl in the Tower divide o show em quatro partes (A Mãe, A Donzela, A Maga e uma seção final de fúria) e cada bloco tem sua própria paleta e sua própria função dramática. Daí a qualidade cinematográfica que salta aos olhos. A cenografia, sua roupa, as manchas de sangue nas botas, os momentos de orquestração e os efeitos que funcionam como trilha sonora de filme, tudo amarrado por um conceito. E o nível de execução faz a gente imaginar quantas horas de ensaio existiram na concepção do espetáculo.
As imagens que ela constrói são estranhas e incríveis. Halsey sobe ao topo da escadaria e acende uma tocha em "Castle", como quem convoca o público para um ritual ou segredo. Canta jogada nos degraus. Entra engatinhando em "Dog Years", de coleira e acorrentada ao próprio palco, presa no alto da escada, e termina a mesma canção rindo e rolando escada abaixo. Faz o nariz sangrar um vermelho vivo em "Lonely is the Muse". É movimento e foco o tempo todo. Quando é que essa mulher respira, quando é que bebe água?
Halsey costurou o repertório inteiro numa estética única, misturando rock e pop com laivos de metal e eletrônica, e não abriu exceção nem para as faixas que nasceram mais leves. "Bad at Love" atravessa a fronteira do pop alternativo para o metal na versão deste show. "Experiment on Me" veio pesada e acelerada, com ela exigindo que a Cidade do Rock abrisse roda de mosh. Até "Colors", que na origem é um indie pop delicado, ganhou um centro de gravidade industrial. E "Closer", seu sucesso mais comercial, aquele que qualquer plateia do mundo reconhece nos primeiros acordes, foi reescrita como pop punk, com direito a solo de guitarra. Halsey sacrificou a roupagem mais conhecida da própria carreira para manter a coerência do projeto The Girl in the Tower, o que é raro ver por aí.
O que impede tudo isso de virar um exercício hermético são os respiros. "You Asked for This", "honey" e "Lie" funcionam como zonas de aterrissagem, faixas mais acessíveis que reorganizam a plateia antes do próximo golpe.
Antes de mandar "Hurricane", Halsey disse que se sentia muito sortuda por estar naquele palco. Isso tem um por quê. O disco de 2024 que originou boa parte desta encenação foi escrito sob uma crise de saúde grave, num período em que ela própria admitiu achar que poderia ser seu último trabalho. Mas ela sobreviveu e está comemorando os 10 anos de Badlands com essa turnê poderosa.
Fica uma impressão engraçada de que o Palco Mundo pareceu pequeno. É o maior palco do festival e este ano está ainda maior com os telões de led gigantes, mas este show foi concebido como obra fechada, com começo, meio e fim, para ser visto inteiro e sem competição. Tanto que já virou filme (o registro da turnê europeia foi lançado no mês passado, em pouco mais de setenta minutos). Mas o aspecto cinematográfico, a entrega visceral da cantora e a potência sonora me fizeram pensar que a experiência foi maior que o palco.
Halsey fez mais do que a maioria faria. Mesmo com uma série de aparatos cênicos, Halsey provou que dá para o artista estar sempre visivelmente, fisicamente, exaustivamente presente. Para mim, um dos pontos mais altos de todo esse Rock In Rio 2026.

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