Em noite de chuva, Lola Young traz vibe boa e se emociona em 1º show no Brasil

 

Foto: Adriana Vieira / Rock On Board


Lola Young entrou para fazer uma Cidade do Rock encharcada sentir uma vibe boa. Mal ela pisou no Palco Mundo e já tinha ficado claro: era ao vivo mesmo. Ao vivaço! A banda, competente do primeiro ao último compasso, não escondia nada, e a voz dela também não. Às vezes abafava, às vezes precisava de um instante para recuperar o fôlego depois de atravessar o palco correndo. Lola pula, canta para a câmera, canta para quem está na chuva. As pequenas imperfeições não estragam nada. São exatamente o que prova que aquela música está sendo feita inteirinha ali, naquele momento, a poucos metros de quem assiste.

O som que ela faz não precisa de muita explicação. É pop alternativo que flerta com hip-hop, R&B e soul sem nenhuma extravagância, numa mistura acessível para qualquer um. Às vezes é só uma vibe boa para ficar ali balançando. Às vezes coloca todo mundo para pular. Não há conceito a decifrar, e talvez seja por isso que funcione tão rápido com quem nunca ouviu mesmo num festival como o Rock In Rio.

Foto: Adriana Vieira / Rock On Board


O que sustenta tudo é a dinâmica, e esse é o mérito real do show. Young explora ao vivo os registros mais graves da própria voz muito mais do que nas gravações ("From Down Here" é o exemplo perfeito disso, mas aconteceu em 80% do show), e a banda acompanha construindo crescendos robustos que elevam a emoção no palco. É um show que respira alto e baixo o tempo inteiro, e num festival, onde a tendência é manter tudo no volume máximo para não perder a plateia, isso é uma escolha corajosa. Novamente, aquelas imperfeições que caem muito bem.


Lola Young tem 25 anos, nasceu e cresceu no sul de Londres, começou a compor aos 11, subia em palcos de noites de microfone aberto aos 14 e se formou na BRIT School, a mesma escola que passou Adele e Amy Winehouse adiante. Trabalhou mais de uma década quase anônima até que, no fim de 2024, "Messy" explodiu no TikTok, ficou quatro semanas em primeiro lugar no Reino Unido, passou de um bilhão de streams e se tornou a canção mais ouvida do ano por um artista britânico em todo o mundo. No começo deste ano, a música lhe deu o Grammy de Melhor Performance Pop Solo.

O outro lado dessa trajetória ela mesma nunca escondeu. Diagnosticada aos 17 anos com transtorno esquizoafetivo e TDAH, Lola Young falou publicamente sobre tratamento para dependência química e sobre as recaídas que atravessaram justamente o período em que a fama chegou. Em setembro do ano passado, uma semana depois de lançar o terceiro disco, ela desmaiou no meio de um set no festival All Things Go, em Nova York. Voltou a se apresentar só em março, num teatro de Londres, prometendo voltar mais forte. Para quem acompanhou aquilo, vê-la atravessar inteiro um set de festival sob chuva, do outro lado do Atlântico, não é detalhe.

Foto: Adriana Vieira / Rock On Board

Ela canta interpretando verso por verso, com um compromisso com a letra que já seria suficiente para justificar a noite. Quando parecia que aquilo era apenas seu modo de operar, chegou "SPIDERS". No meio da música, Lola começou a chorar de verdade, um vislumbre da composição alcançando a própria autora diante de cem mil pessoas. O público percebeu imediatamente e a reação foi enorme, uma massa gritando e apoiando a artista em tempo real, debaixo de chuva e de lágrimas. É o tipo de coisa que não se repete na noite seguinte, em outra cidade, com outro público.

Para exorcizar o que "SPIDERS" tinha aberto, ela emendou "Not Like That Anymore", que é uma confissão sobre as próprias falhas e sobre a vontade de não repetir determinados comportamentos. A sequência parece calculada e provavelmente é, mas depois do que tinha acabado de acontecer no palco, ganhou um significado ainda maior do que já tinha.

Foto: Adriana Vieira / Rock On Board

Antes de fechar com "Messy", a canção que mudou a vida dela, Lola disse que aquele tinha sido o melhor público da sua vida. Ela reparou que mesmo quem não sabia as letras, e havia muita gente ali que não sabia, estava participando, balançando o corpo, sentindo a vibe (e vibe foi o que sobrou dos sons de sua banda).

Em um festival tão grande como esse e ainda mais o Palco Mundo, é comum que telões, pressão sonora e coreografias sejam usados para fortalecer uma apresentação ou esconder alguma falta de substância. Mas o show de Lola Young, em sua primeira vez no Brasil, foi o oposto exato de tudo isso: palco super econômico, apenas seu nome no telão atrás do palco, banda muito competente e sua voz, autêntica do começo ao fim. 

Lucas Scaliza

Jornalista, músico sem banda e estrategista de marca. Não abre mão de acompanhar os sons do agora. Joga tarô e já foi host de podcast.

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