Jamiroquai faz bom show no Palco Sunset, mas sem riscos e sem nunca decolar

Foto: Adriana Vieira / Rock On Board

Jay Kay entrou no Palco Sunset do Rock In Rio de chapéu lilás e jaqueta roxa brilhante, jogou a cintura no compasso da guitarra e a voz saiu exatamente como sai nos discos: macia, leve, deslizando por cima do groove sem nunca forçar. Aos 56 anos, o homem continua se movendo pelo palco como se estivesse numa pista de dança particular. Nos primeiros dois minutos ficou claro que o Jamiroquai de 2026 não tem mais aquela imagem de malucões que já tiveram na juventude, mas ainda mantém os elementos que os torna reconhecíveis.

O último show deles no Brasil aconteceu em São Paulo em 2017. Essa passagem pelo Rio abriu a turnê latino-americana da banda e coincide com os trinta anos de Travelling Without Moving. Havia, portanto, todos os motivos para que a noite significasse alguma coisa.

Foto: Adriana Vieira / Rock On Board

E em vários momentos significou. "Little L" pintou o Sunset inteiro de púrpura, num daqueles casamentos entre luz e canção. "Space Cowboy" ganhou uma introdução climática, com solo de guitarra aberto e Jay Kay em cena usando seus headphones iluminados, e por um instante o show deixou de ser um desfile de hits para virar uma pequena viagem que colocou toda a galera pra dançar.

O melhor, porém, veio do baixo. O baixo sempre foi o instrumento que definiu o som do Jamiroquai, e ao vivo isso fica mais evidente do que já era nas gravações: é ele que dita para onde a música vai, enquanto guitarra, teclado e sopros apenas confirmam. Paul Turner está no posto desde 2005, e a introdução de "Travelling Without Moving" foi o ponto em que a musicalidade tomou o palco de assalto, sem depender de refrão, telão ou coreografia. Quem estava ali para ver músicos tocando teve o que queria.

Foto: Adriana Vieira / Rock On Board

O público, aliás, era de várias idades ao mesmo tempo. Havia gente que comprou o CD em 1996 ao lado de adolescentes que chegaram à banda por algoritmo, e todo mundo reagindo às mesmas partes. É a comprovação prática daquilo que o Rock in Rio repete como slogan: um festival onde pai, filho e neto cabem no mesmo show.

Mas fica uma sensação incômoda. A banda é boa, o som é bom, as músicas são boas, o vocalista passeia pelo palco o tempo inteiro. Não há nada errado. E não há nada de arriscado ou surpreendente também na apresentação ao vivo do Jamiroquai. O show não atravessa um certo limiar de emoção, e em algumas passagens escorrega para uma cara de banda de baile. É competente, dançante, profissional... mas não é marcante.

Foto: Adriana Vieira / Rock On Board

Parte disso é o repertório de rotina. O Jamiroquai chegou ao Rio com um programa fechado, testado, cronometrado e seguro até demais. Trinta e quatro anos de estrada compraram à banda uma precisão admirável ao preço do risco.
O encerramento com "Virtual Insanity" resolveu a questão pelo lado mais fácil e mais eficiente. É a música que todo mundo esperava, todo mundo cantou, e ninguém saiu reclamando. Também é sintomático que o clímax da noite tenha sido garantido por um clássico de trinta anos e não por algo que tivesse acontecido ali, naquele palco, diante daquela gente.

Foto: Adriana Vieira / Rock On Board

Fica a impressão de um show que cumpre tudo o que promete (mas sem prometer quase nada além do óbvio). Para quem nunca tinha visto, vale a nota alta: o Jamiroquai ao vivo confirma que a banda sempre foi melhor do que o rótulo de sucesso noventista sugeria. Para quem esperava a noite em que a máquina ia descarrilar para o lado certo, fica o consolo de que o show em São Paulo, no domingo, tem duas horas em vez de uma e 15. Talvez lá a hipnose tenha tempo de completar o serviço (mas não acho que eles prometam essa hipnose).

Lucas Scaliza

Jornalista, músico sem banda e estrategista de marca. Não abre mão de acompanhar os sons do agora. Joga tarô e já foi host de podcast.

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