40 anos de “Capital Inicial”: um retrato da juventude punk de Brasília

Foto: Adriana Vieira / Rock On Board

Em 1986, o Brasil estava descobrindo que Brasília não era apenas a capital política do país. Havia outra Brasília acontecendo longe dos gabinetes, dos discursos e dos corredores do poder. Uma Brasília de garotos, guitarras, punk rock, jaquetas, festas, brigas, inconformismo e uma vontade quase desesperada de fazer barulho. Essa transpiração roqueira juvenil rendeu um ano áureo para a história da música, tamanha a quantidade de álbuns históricos lançados por uma galera que tinha discos de punk desgastando as agulhas das vitrolas.

Foi nesse cenário que o Capital Inicial lançou o seu álbum de estreia, homônimo, que permanece sendo até hoje a maior representatividade de um espírito despojado e inocente, que só a juventude é capaz de trazer.


Ao ouvir Capital Inicial, hoje, quarenta anos depois, é inevitável não fazer uma viagem de volta a um tempo que não existe mais. O disco explica por que o rock brasileiro dos anos 1980 foi tão importante como válvula de escape e portal de voz para críticas sociais públicas. Além disso, é um registro de uma banda que ainda estava muito próxima de suas origens e, que sonoramente agia muito mais pela intuição e espontaneidade. Era um disco de canções dinâmicas e ao mesmo tempo pessoais, que tinham potencial para funcionar tanto em pequenos bares enfumaçados ou em grandes arenas.

O álbum foi lançado em 1986 pela PolyGram e trazia Dinho Ouro Preto nos vocais, Loro Jones na guitarra, Flávio Lemos no baixo e Fê Lemos na bateria. A produção ficou a cargo de Bozo Barretti, que também tocou teclados no disco e posteriormente se tornaria integrante do Capital.

Antes do Capital, havia o Aborto Elétrico

Para entender aquele disco é preciso voltar alguns anos. O Capital Inicial nasceu em Brasília, em 1982, a partir dos irmãos Fê e Flávio Lemos e do guitarrista Loro Jones. Dinho Ouro Preto assumiria os vocais no ano seguinte. Antes disso, Fê e Flávio haviam participado do Aborto Elétrico ao lado de Renato Russo, uma das bandas fundamentais para a formação da cena punk de Brasília.

O Aborto Elétrico nunca chegou a lançar um álbum oficial de estúdio, mas deixou um repertório que sobreviveria à própria banda. Quando o Capital começou a construir sua identidade, algumas dessas músicas foram incorporadas ao repertório. E três delas acabariam no primeiro álbum: “Música Urbana”, “Veraneio Vascaína” e “Fátima”.


Ou seja: quando o LP chegou às lojas, não era apenas o primeiro disco do Capital Inicial. Era também, de certa maneira, a primeira grande oportunidade de registrar oficialmente uma parte daquela história que havia começado anos antes nos palcos de Brasília.

Outro fator que faz de Capital Inicial um álbum tão representativo, é que ele fotografa uma banda verdadeiramente de palco, que já tinha uma história construída com aquele repertório, finalmente entrando num estúdio para reproduzir aquilo que já estavam craques em fazer. Antes do LP, o grupo já havia excursionado pelo circuito underground brasileiro e, em 1985, lançado seu primeiro registro em vinil, o compacto duplo Descendo o Rio Nilo/Leve Desespero, pela CBS.

Um disco que funciona até hoje

O álbum começa com "Música Urbana", um dos grandes hinos do Capital, e uma herança direta do Aborto Elétrico. Aqui também temos uma definição perfeita da proposta da banda. Havia atitude, mas também havia melodia. A sequência com "No Cinema", "Psicopata", "Tudo Mal" e "Sob Controle" mostrava que havia punk, mas não apenas punk. Era uma sensação de cidade grande, de juventude inquieta e de alguém tentando descobrir o mundo sem ser convidado.


Uma das melhores coisas de Capital Inicial é que não fica evidente aquela preocupação de fazer cada música parecer um single. São apenas garotos querendo ser ouvidos pelo máximo de pessoas. Mesmo assim, o tempo fez justiça ao transformar um punk antigo como ("Veraneio Vascaína") - com crítica direta à violência e à repressão policial - e um clássico despretensioso de Renato Russo ("Fátima") em hits históricos da carreira.

O Capital Inicial estava chegando a uma indústria fonográfica que queria transformar aquela nova geração de roqueiros em fenômeno comercial. Mas algumas das músicas que haviam nascido na Brasília underground continuavam carregando o incômodo de sua origem.

A verdade, é que aquela geração, tinha algo que quebrava alguns paradigmas do que se entedia como punk rock. Era uma tentativa de trazer uma abordagem contestadora mas com gancho melódico para atrair popularidade. 


Podemos dizer também, sem exagero, que Capital Inicial era um disco de quatro caras, mas que algumas participações foram essenciais para que o trabalho tomasse um formato mais funcional para o que a banda pretendia. 

Para quem possa não saber, a formação do Capital no álbum era bem enxuta, com Dinho, Loro, Flávio e Fê. Mas a produção de Bozo Barretti acrescentou outras cores ao trabalho. O produtor tocou teclados e piano e ajudou a ampliar a sonoridade do grupo. Além disso, o disco também contou com alguns elementos que fizeram toda diferença, como por exemplo, os metais de Demétrio Bezerra no sax-alto, Gianni Fabra no sax-tenor e Franco Mourão no trompete.

Esses detalhes ajudaram a lapidar uma banda forjada no punk, e amplificaram seu alcance melódico. Além disso, ajudaram a determinar os próximos passos da banda. Tanto que em 1987, Bozo Barretti entraria oficialmente para o grupo, e o Capital lançaria Independência, seu segundo álbum. O disco teria sucessos como "Independência" e "Prova" e levaria a banda a abrir shows da turnê brasileira de Sting.

O primeiro passo de uma história muito maior

O primeiro álbum não seria o maior sucesso comercial da carreira do Capital Inicial. A história ainda passaria por Independência, Você Não Precisa Entender, Todos os Lados, Eletricidade e por uma série de mudanças que levariam a banda por diferentes fases. Anos depois, a história seria ainda mais movimentada: Dinho deixaria a banda em 1993, Murilo Lima assumiria os vocais, o grupo atravessaria uma fase de incertezas e, em 1998, a formação original voltaria a se reunir. O Capital ainda encontraria uma nova geração no “Acústico MTV”, viveria uma enorme retomada comercial e seguiria por décadas.


O tempo mudou o Capital Inicial. Mudaram os integrantes, os produtores, as gravadoras, os palcos e até o público. A própria banda atravessou períodos em que parecia ter ficado para trás para depois voltar ainda maior.

Mas quando a bateria de Fê Lemos entra em "Música Urbana", quando a guitarra de Loro aparece, quando Flávio segura aquele baixo e Dinho começa a cantar, existe uma espécie de fotografia sonora de 1986. Uma fotografia de um Brasil que estava mudando e de uma Brasília que queria ser ouvida.

Bruno Eduardo

Jornalista e repórter fotográfico, é editor do site Rock On Board, repórter colaborador no site Midiorama e apresentador do programa "ARNews" e "O Papo é Pop" nas rádios Oceânica FM (105.9) e Planet Rock. Também foi Editor-chefe do Portal Rock Press e colunista do blog "Discoteca", da editora Abril. Desde 2005 participa das coberturas de grandes festivais como Rock in Rio, Lollapalooza Brasil, Claro Q é Rock, Monsters Of Rock, Summer Break Festival, Tim Festival, Knotfest, Summer Breeze, Mita Festival entre outros. Na lista de entrevistados, nomes como Black Sabbath, Aerosmith, Queen, Faith No More, The Offspring, Linkin Park, Steve Vai, Legião Urbana e Titãs.

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