"Foreign Tongues": os Rolling Stones não reinventam o rock porque ajudaram a criá-lo


The Rolling Stones
Foreign Tongues
⭐⭐5/5
Por  Ricardo Cachorrão Flávio 

Há três anos, quando "Hackney Diamonds" foi lançado, escrevi que aquele era o melhor álbum dos Rolling Stones em décadas. A impressão que fica agora é que "Foreign Tongues" é a continuação perfeita daquele trabalho. Sem a pretensão de reinventar o rock, os Stones fazem exatamente aquilo que sempre souberam fazer. E convenhamos: quando você ajudou a criar a linguagem, não precisa reinventá-la.

A audição começa por um velho conhecido. Lançada anteriormente como single, “Rough and Twisted” abre o álbum sem cerimônia. É um blues furioso, conduzido por riffs marcantes, daqueles que lembram por que Keith Richards continua sendo um dos grandes arquitetos do rock. À frente de tudo, Mick Jagger impressiona mais uma vez. Mesmo octogenário, sua interpretação continua cheia de energia e personalidade, deixando claro logo nos primeiros minutos que os Rolling Stones ainda têm muito a dizer.


Na sequência vem outra faixa já conhecida. Também lançada previamente como single, “In the Stars” mergulha de cabeça naquilo que os Stones fazem como poucos: um rock direto, sustentado por um riff pesado, coro de apoio e Mick Jagger comandando a canção com a segurança de sempre. Ronnie Wood também encontra espaço para um belo solo. Mas foi o videoclipe que mais chamou atenção em seu lançamento. Utilizando inteligência artificial de forma criativa, a banda brinca com sua própria história ao se apresentar rejuvenescida em diferentes épocas da carreira. Em vez de esconder a passagem do tempo, os Stones a transformam em parte da narrativa.

Jealous Lover” dá sequência ao álbum com os Rolling Stones fazendo aquilo que muitos poderiam chamar de “cover de si mesmos”. E isso está longe de ser um defeito. A canção poderia tranquilamente ter saído de algum disco lançado entre o fim dos anos 1970 e o começo dos anos 1980. Mick Jagger alterna graves e agudos de maneira quase teatral, algo que qualquer fã já ouviu inúmeras vezes. Mas, sinceramente, e daí? Eles podem. Afinal, foram os próprios Rolling Stones que ajudaram a estabelecer essa linguagem. Quando os Stones soam como os Stones, não estão copiando ninguém.

Mr. Charm” mantém o bom nível apresentado até aqui. Musicalmente, a banda segue confortável em seu território, enquanto a letra direciona o olhar para o poder do dinheiro e para a sensação de impunidade de quem acredita que pode tudo. Em determinado momento, há uma referência direta ao “maluco Elon Musk”, usado como símbolo desse tipo de poder e influência. Mesmo após mais de seis décadas de carreira, os Stones continuam olhando para o mundo ao seu redor.

Divine Intervention” apresenta um encontro improvável e muito interessante com Robert Smith, do The Cure. O resultado é um rock direto, sem firulas, no qual cada artista mantém sua identidade. Smith acrescenta personalidade sem descaracterizar os Stones, enquanto Mick Jagger conduz mais uma interpretação segura.

Ringing Hollow” muda novamente o clima do álbum e resgata uma faceta que os Rolling Stones sempre dominaram com enorme naturalidade: a influência da música country. É uma daquelas canções que fluem com leveza, enquanto Mick canta com um certo desdém, quase de sobrancelha arqueada, imprimindo o sarcasmo que sempre foi uma de suas marcas registradas.


Never Wanna Lose You” devolve o álbum ao rock and roll mais dançante e contagiante. É uma música que parece nascer pronta para o palco, com guitarras se entrelaçando, refrão marcante e Mick Jagger cantando muito. Os coros entram na medida certa, enquanto Bruno Mars participa discretamente tocando cowbell, o tradicional sino de vaca que o brasileiro Paulinho da Costa ajudou a popularizar em inúmeras gravações históricas da música pop.

O disco continua com “Hit Me in the Head”, que por um detalhe se transforma em um dos momentos mais importantes do trabalho. Trata-se da última gravação de Charlie Watts, registrada pouco antes de sua morte, em 2021. A faixa ganha um peso emocional inevitável. Charlie jamais precisou de exibicionismo para se tornar um dos bateristas mais respeitados da história do rock. Sua elegância e precisão aparecem mais uma vez, como uma despedida silenciosa.


Na sequência, os Rolling Stones prestam homenagem a Amy Winehouse com uma versão de “You Know I’m No Good”. A escolha faz todo sentido. A canção já possuía fortes raízes no blues e no rhythm and blues, encaixando-se naturalmente no universo da banda. Em vez de reinventá-la, os Stones preferem respeitar sua essência, imprimindo sua identidade sem descaracterizar a composição original.

Some of Us” marca o tradicional “momento Keith Richards” do álbum. Sempre gostei quando o guitarrista assume os vocais, da mesma forma que gosto quando Pete Townshend canta no The Who. São músicos essenciais para a identidade de suas bandas e, além de merecerem esse espaço, oferecem uma pegada diferente. Keith não possui a técnica vocal de Mick Jagger, mas sua voz rouca e cheia de personalidade torna a faixa especial justamente por isso.

Covered You” devolve o álbum a um clima mais tenso. É uma canção nervosa, impulsionada por guitarras afiadas e por uma interpretação incisiva de Jagger. Na letra, o vocalista critica a proliferação de líderes autocráticos pelo mundo, comparando-os a ratos. Também merece destaque seu belo trabalho na harmônica. Não é a primeira vez no disco que ele pega o instrumento, mas nunca é demais lembrar o quanto Mick toca com elegância.


Side Effects” talvez seja a faixa que melhor sintetize a proposta de "Foreign Tongues". Os Rolling Stones não tentam reinventar a roda. Fazem o bom e velho arroz com feijão, executado com a competência de quem ajudou a escrever a cartilha do rock. É exatamente a música que o fã espera encontrar quando coloca um disco da banda para tocar.

Back in Your Life” desacelera o andamento do álbum e revela um lado mais sensível dos Stones. Mick canta carregado de emoção uma bonita canção romântica assinada por Jagger, Richards e Andrew Watt, produtor que, além de comandar o álbum, também participa das composições. Mais uma vez, Watt demonstra compreender perfeitamente a essência da banda.

O encerramento fica por conta de “Beautiful Delilah”, clássico de Chuck Berry. A versão é apenas correta, mas quando se juntam Chuck Berry e Rolling Stones dificilmente o resultado será menos do que muito bom. Mais do que um simples cover, a escolha funciona como uma homenagem a um dos artistas que mais influenciaram a banda desde seus primeiros passos.

Foto: Divulgação

Em linhas gerais, "Foreign Tongues" é a continuação perfeita de "Hackney Diamonds". Os Rolling Stones não inventam nada novo - e talvez essa seja justamente a maior virtude do disco. Afinal, foram eles mesmos que arquitetaram boa parte do que hoje entendemos por rock and roll.

Octogenários, sem pressão, sem necessidade de provar absolutamente nada, eles simplesmente se divertem. Tocam blues, country, rock and roll, prestam homenagens, comentam o mundo atual, dividem os vocais com Keith Richards e ainda encontram espaço para emocionar.

No fim das contas, "Foreign Tongues" soa como uma aula dada por quem estava presente quando as regras foram escritas.

Meninos, é assim que funciona.

Ricardo Cachorrão

Ricardo “Cachorrão” é o velho chato gente boa que não pede licença pra gostar de música. Viciado em rock and roll, formou opinião longe de rádio, longe de MTV e perto demais de pilhas de discos e revistas. Tem alergia a banda cover, respeito profundo por discos obscuros do Frank Zappa e ainda sai sorrindo de um show do Iron Maiden — mas é no calor, no barulho e no caos dos buracos punk da periferia que se sente vivo de verdade. Já escreveu para Rock Brigade, Kiss FM, Portal Rock Press e a Revista Eletrônica do Conservatório Souza Lima. Está no Rock On Board desde o começo — e não pretende sair tão cedo.

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