Goste ou não do Foo Fighters, é difícil negar que a banda de Dave Grohl entrega um dos shows de rock mais poderosos da atualidade. A menos de dois meses de subir ao palco do Rock in Rio como headliner do dia 4 de setembro, o Rock On Board acompanhou o último show da turnê europeia do grupo, neste sábado, no festival NOS Alive, em Lisboa. A conclusão é simples: o público brasileiro pode esperar mais de duas horas e meia de uma banda guiada por uma energia inesgotável.
Muita coisa mudou desde a última vez no Rio
Muita coisa aconteceu desde que o Foo Fighters tocou no Rio de Janeiro pela última vez, no Rock in Rio de 2019. Desde então, a banda perdeu um dos seus membros mais importantes, o baterista Taylor Hawkins, falecido em 2022 devido a uma falha cardiovascular associada ao consumo de drogas. O grupo também lançou dois álbuns bem diferentes um do outro: But Here We Are (2023), muito marcado pelo luto após a perda do baterista original, e Your Favorite Toy, lançado em abril deste ano e que soa como uma forma de exorcizar o luto e também como um recomeço com um som mais sujo e garageiro.
Foi o Foo Fighters pós-But Here We Are e ainda com Josh Freese como baterista que o Brasil viu pela última vez durante o festival The Town, em setembro de 2023. À saída polêmica de Freese se sucedeu a entrada de Ilan Rubin em 2025, baterista que já tocou com bandas como Nine Inch Nails e Paramore e, pelo que se viu no show, tem uma energia e uma química que se encaixou muito bem dentro de uma banda liderada por um exigente ex-baterista do Nirvana.
Repertório de festival exclui o novo disco
Apesar de o setlist não ter nenhuma canção do novo álbum - o que também se repetiu em boa parte dos concertos da turnê europeia que foram realizados em festivais - pode-se dizer que o clima do show é o mesmo do novo álbum. Uma pauleira sonora imparável, suja e visceral que, somada a entrega absoluta de Grohl transforma o show numa catarse coletiva.
Analisando os recentes concertos da banda, nota-se que o Foo Fighters tem trabalhando com dois tipos de set list. Um voltado para festivais tomado de hits e outro quando o grupo faz shows solo e que insere entre duas e três músicas de Your Favorite Toy. A julgar por este padrão, será a primeira versão que o Rio de Janeiro verá em setembro no Rock in Rio.
E não dá para negar que é um set list perfeito e talhado para festivais. Começa logo de cara com três sucessos que Grohl usa para levantar o espírito do público desde o início: “All My Life”, “The Pretender” e “Times Like These”.
Depois de uma baixada no tom (mas nunca na energia) com “Rope” e “Stacked Actors”, a banda emenda mais uma sequência de hits: “My Hero”, “Learn to Fly” e “These Days”.
A esta altura percebe-se já uma diferença importante. Quem costumava criticar o Foo Fighters por estender demais as músicas dificilmente fará a mesma reclamação agora. Não é que Grohl não continue jogando com esta artifício para interagir com o público, mas a banda claramente encontrou um equilíbrio entre soar diferente dos discos e parecer interminável em suas canções. Tanto que o set list tem 23 músicas, sem contar um momento de um medley cheio de covers.
A máquina de hits do Foo Fighters continua com “This is Call”, do primeiro álbum da banda, lançado em 1995. E Grohl faz questão de lembrar que o álbum foi lançado há 31 anos e que eles estão ficando velhos.
Novo baterista ganha destaque
Uma grande curiosidade do show neste momento é ver como a banda está se saindo com seu novo baterista. Rubin assumiu as baquetas há menos de um ano, mas ele ocupa tão bem o seu espaço que parece já ser da casa há algum tempo. Rubin pareceu ter sido uma aposta acertada após o curto período com Freese.
O baterista é menos carismático que Hawkins, mas assume um protagonismo semelhante ao que antigo dono do posto tinha na banda. Ele tem a chance de fazer um solo durante “No Son Of Mine” e após “Monkey Wrench”, faz o backing vocal durante “Wheels” e, tal como Hawkins fazia, troca de lugar com Grohl em um momento do concerto. Isto, aliás, depois de ser apresentado pelo líder da banda como “o melhor baterista do mundo”. Com um elogio desse do chefe, Rubin está mesmo em casa e mostra ter as qualidades para seguir sendo um membro importante como os seus demais colegas de banda.
Nostalgia e lembranças de Hawkins
Se há uma crítica a este show do Foo Fighters em Lisboa, ela está justamente na ausência de músicas do novo álbum. Your Favorite Toy tem músicas que cairiam muito bem e trariam um frescor à apresentação. Entre as canções que vem sendo tocadas nos shows solo da banda há “Caught in the Echo”, “Unconditional” e “Window”.
Diante da ausência de novidades, um dos momentos mais interessantes do show acontece quando Grohl resolve voltar no tempo e na história pessoal de cada um dos integrantes do grupo com um toque de nostalgia. O set list tem preparado um momento em que o Foo Fighters canta um trecho de uma canção de cada uma das bandas em que seus membros fizeram parte antes de se juntarem ao Foo Fighters.
Os menos letrados na história da música vão ao menos reconhecer “One Headlight”, sucesso do The Walflowers, antiga banda do tecladista Rami Jaffee. Os que conhecem sons mais alternativos vão pegar as referências a “Invincible”, do No Use For A Name, tocada pelo guitarrista Chris Shiflett, “Seven”, do Sumy Day Real Estate, tocada pelo baixista Nate Mendel, “Manimal”, tocada por Pat Smear, membro fundador do The Germs, e “Tap Dancing in a Minefield”, do The New Regime, tocada por Rubin no momento do show em que o baterista assume a guitarra e Grohl vai para a bateria.
Este é um momento jukebox bem interessante, divertido e inventivo do show e uma maneira bem legal de apresentar a banda.
Após a brincadeira que incluía ainda imagens no telão das antigas bandas dos membros do Foo Fighters, o grupo emenda com a “old school” “Monkey Wrench”, “Breakout” e a ótima “The Sky is a Neighborhood”, do álbum Concrete and Gold (2017).
A reta final do concerto reserve ainda um momento emocionante. Grohl canta “Aurora” e dedica a canção a Hawkins sob muitos aplausos do público. A música é do álbum There is Nothing Left to Lose (1999), o terceiro da banda e o primeiro gravado por Hawkins após a sua saída como músico da cantora Alanis Morissette.
“Best of You”, “Exhausted” e “Everlong” encerram uma apresentação quase impecável do Foo Fighters.
A banda agora volta para a América do Norte para uma série de shows nos Estados Unidos e Canadá que será apenas interrompida pela única apresentação na América Latina, durante o Rock in Rio. Um show que promete ser imperdível.

