Quando o palco e a plateia falam a mesma língua

Pigs x7 - Foto: Ricardo A. Flávio


A terceira edição do Massari Fest mostrou que o evento definitivamente encontrou seu espaço no calendário da música alternativa brasileira. Idealizado por Fábio Massari, e realizado pela Maraty Concert e Agência Powerline, o festival reuniu no Fabrique Club três bandas bastante distintas entre si, mas que dialogam pela intensidade de suas propostas: Firefriend, Macaco Bong e os ingleses do Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs.

O Firefriend abriu a noite demonstrando enorme competência. O quarteto apresentou um repertório consistente, executado com segurança e muito bom gosto. A resposta da plateia foi imediata. Cada música foi recebida com aplausos calorosos, mostrando que o público comprou a proposta da banda desde o primeiro acorde.

Se houve um ponto que me deixou um pouco distante da apresentação, foi justamente a quase inexistente interação entre banda e público. O Firefriend entrou, tocou seu repertório praticamente sem interrupções e só ao final veio um breve “boa noite”, seguido da apresentação da banda e do convite para conhecer os discos disponíveis na banquinha de merchandising.

Talvez seja influência dos meus mais de quarenta anos frequentando shows punk, onde palco e plateia praticamente se confundem. Gosto dessa troca. Aqui, a música falou muito bem por si só, mas senti falta da conversa.

Firefriend - Foto: Ricardo A. Flávio

Na sequência veio o Macaco Bong, desta vez se apresentando como quarteto. Com a casa mais cheia, a temperatura naturalmente subiu. O show ganhou mais peso, mais impacto e uma energia bastante diferente da apresentada pela banda de abertura.

O grupo demonstrou, mais uma vez, por que construiu uma carreira sólida dentro da música instrumental brasileira. O entrosamento entre os músicos impressiona e o repertório funciona muito bem ao vivo.

Faço apenas uma ressalva absolutamente pessoal: um show inteiramente instrumental acaba me cansando depois de algum tempo. Não é demérito da banda, muito pelo contrário. O Macaco Bong faz exatamente aquilo que se propõe  - e faz muito bem. Apenas exige um tipo de atenção que, para mim, funciona melhor em doses menores.

A receptividade do público, no entanto, foi excelente do início ao fim.

Macaco Bong - Foto: Ricardo A. Flávio

Mas a grande expectativa da noite era a estreia brasileira do Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs.

E ela foi plenamente correspondida.

É impressionante como uma banda pode conquistar uma plateia inteira mesmo diante de pessoas que sequer conhecem seu repertório. Bastam músicas fortes, presença de palco e entrega absoluta.

O Pigs x7 tem tudo isso.

Matthew Baty é um daqueles vocalistas que parecem incapazes de economizar energia. Corre, dança, gesticula, sorri, interage e conduz o espetáculo durante quase uma hora e meia sem deixar a intensidade cair um único instante. Seu carisma é contagiante, assim como a humildade demonstrada ao longo da apresentação.

O momento mais emocionante da noite aconteceu quando Baty interrompeu o show para conversar com o público.

Pigs x7 - Foto: Ricardo A. Flávio

Disse que aquela estava sendo uma noite muito especial. Contou que o Pigs x7 não é uma banda grande, que seus integrantes não ganham muito dinheiro com isso, que possuem poucos discos lançados e que jamais imaginaram encontrar tanta gente do outro lado do mundo esperando por eles. Finalizou dizendo que é justamente por causa daquele público que a banda continua existindo.

A resposta veio imediatamente.

O Fabrique inteiro passou a gritar, em uníssono:

“PIGS! PIGS! PIGS! PIGS! PIGS! PIGS! PIGS!”

Matthew ficou visivelmente sem graça, agradeceu com um sorriso sincero e voltou ao show.

Foi um daqueles momentos impossíveis de ensaiar.

Pigs x7 - Foto: Ricardo A. Flávio

Pouco importava se alguém conhecia todas as músicas ou estava ouvindo a banda pela primeira vez. Havia uma conexão genuína entre palco e plateia.

É justamente isso que faz um grande show.

No fim das contas, a terceira edição do Massari Fest reafirmou sua personalidade. Não é um festival de modismos nem um desfile de atrações óbvias. É um espaço para descobrir bandas, celebrar a música pesada em suas diversas formas e criar encontros improváveis.

Firefriend abriu a noite com elegância, Macaco Bong elevou a intensidade e o Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs fez aquilo que se espera de uma grande atração: transformou um excelente festival em uma noite que ficará na memória de todos os presentes.

Ricardo Cachorrão

Ricardo “Cachorrão” é o velho chato gente boa que não pede licença pra gostar de música. Viciado em rock and roll, formou opinião longe de rádio, longe de MTV e perto demais de pilhas de discos e revistas. Tem alergia a banda cover, respeito profundo por discos obscuros do Frank Zappa e ainda sai sorrindo de um show do Iron Maiden — mas é no calor, no barulho e no caos dos buracos punk da periferia que se sente vivo de verdade. Já escreveu para Rock Brigade, Kiss FM, Portal Rock Press e a Revista Eletrônica do Conservatório Souza Lima. Está no Rock On Board desde o começo — e não pretende sair tão cedo.

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