| Foto: Ricardo A. Flávio / Rock On Board |
Começo
a escrever este texto relembrando minha longa relação de admiração com o NÃO
RELIGIÃO. A primeira vez que os ouvi foi no extinto programa Boca Livre, que ia
ao ar toda segunda-feira, às 19h, na TV Cultura de São Paulo. O programa levava
bandas para tocar ao vivo no palco do Teatro Franco Zampari e era apresentado
por Kid Vinil e Dadá Cyrino. Isso foi em 1987.
Os
jovens Tatola, nos vocais, Kley, na guitarra, Walter, no baixo, e Norberto, na
bateria, apareceram tocando o hoje clássico “A Verdadeira História de um
Brasileiro”, e imediatamente chamaram minha atenção. Era um punk rock com
mensagem contundente e muito bom humor. Os rapazes se apresentavam como
“Não-João Carlos”, “Não-Kley”, “Não-Walter” e “Não-Berto”.
Foi
no mesmo Boca Livre que a banda deu seu primeiro grande salto. Venceu o
Festival Boca Livre de Bandas Novas defendendo a música “Estado de Sítio”. Se
minha memória não falha, lembro do Tatola contando que a letra havia sido
escrita por uma amiga argentina que se correspondia com a banda.
Sim,
amigos. Houve um tempo em que bandas faziam intercâmbio internacional pelo
correio. Europa, Estados Unidos e América Latina trocavam cartas, fitas e
fanzines com inúmeras bandas do nosso underground. Foi assim que vários grupos
brasileiros construíram suas primeiras conexões internacionais, entre eles o
pioneiro Cólera, que, em 1987, realizou mais de cinquenta shows em cinco meses
de turnê europeia, totalmente D.I.Y. (Do It Yourself – Faça Você Mesmo).
| Foto: Ricardo A. Flávio / Rock On Board |
Não demorou muito e o Não Religião lançou seu primeiro trabalho, o LP “A Verdadeira História de um Brasileiro”, pela Estúdio Eldorado. O disco trazia músicas que se tornaram grandes sucessos nas rádios da época, como “Brasil”, “Juventude à Vácuo” e “Coração de Papel”, composição de Sérgio Reis que ganhou uma competente versão punk da banda.
Em
seguida vieram as participações nas coletâneas “Contra Ataque”, ao lado de Olho
Seco, Indecisus, Pupilas Dilatadas, Os Laranjas, Skárnio e Repúblika, e no
disco ao vivo “Independência ou Morte!”, ao lado de Grinders e Lobotomia.
Vale
lembrar que Independência ou Morte! também era o nome do programa de rádio
apresentado por Redson, do Cólera, e Tatola, que usavam os pseudônimos Hard e
Core e levavam semanalmente o punk rock nacional às ondas da 89 FM e,
posteriormente, da Brasil 2000 FM. O show que originou o disco contou ainda com
a participação do Cólera, mas a banda acabou ficando de fora do LP por
divergências entre Redson e Renato Filho, sócios da gravadora Ataque Frontal.
O
Não Religião cresceu, lançou mais dois discos — “Pegaram Jesus pra Cristo” e
“Ninguém Me Escuta” — e chegou a abrir shows de gigantes como New Model Army e
Motörhead. Até que chegou o momento em que seus integrantes cansaram e a banda
encerrou as atividades.
Muitos
anos depois, já em 2012, fiquei exultante ao ver o nome NÃO RELIGIÃO na
programação da Virada Cultural de São Paulo, ao lado de bandas como Olho Seco,
Man or Astro-Man? e Gong. Corri para o palco e descobri que, na verdade, quem
se apresentava era o NEM LIMINHA OUVIU, projeto capitaneado por Tatola dedicado
aos “lados B” do rock nacional.
| Foto: Ricardo A. Flávio / Rock On Board |
O nome era uma divertida brincadeira com Liminha, ex-baixista d’Os Mutantes e um dos maiores produtores da música brasileira. Afinal, eram bandas que “nem o Liminha ouviu”. Naquele show, Kley, Walter e Norberto fizeram uma pequena participação, tocando algumas músicas do Não Religião. Foi pouco, mas suficiente para reacender a esperança.
Alguns
anos mais tarde, assisti a um show dos Inocentes no Centro Cultural São Paulo.
A abertura ficou novamente por conta do Nem Liminha Ouviu. Depois da
apresentação, fui conversar com Tatola, que nessa altura já era um amigo.
Perguntei:
“Poxa,
João Carlos… você tem uma banda autoral tão legal, com letras fortes e músicas
ótimas… e fica aí tocando cover? Por que não volta com o Não Religião?”
Ele
respondeu com um sorriso amarelo:
“Mas
não é simplesmente cover… esses aí, nem o Liminha ouviu! Vamos resgatar essa
galera que é importante.”
E
ficou por isso mesmo.
| Foto: Ricardo A. Flávio / Rock On Board |
Passada mais de uma década, eis que vejo nas redes sociais: Não Religião volta aos ensaios!
Fiquei
exultante.
E
finalmente chegou o dia do primeiro show desse retorno. Não poderia haver lugar
melhor do que o bom e velho Hangar 110, o palco mais punk do Brasil, o nosso
CBGB.
A
noite de 20 de junho de 2026 só não foi perfeita porque, infelizmente, houve um
conflito de agendas. No mesmo horário, os Inocentes gravavam, na Red Star, seu
novo LP ao vivo, que integrará a coleção Red Star Sessions, série de shows
lançados exclusivamente em vinil, em edições limitadas para colecionadores, sem
streaming. Uma pena. O público se dividiu e o Hangar certamente poderia estar
ainda mais cheio.
Para
aquecer a noite, a abertura ficou por conta da Cadillacs Punk Rock, banda
formada em 2004 que faz um som honesto e sincero, procurando fugir da mesmice,
como quando incorpora uma escaleta aos arranjos.
| Foto: Ricardo A. Flávio / Rock On Board |
Na sequência veio a carioca Chicko Noise, que empolgou o público com sua mistura de punk, pop, indie rock e emocore, alternando músicas em português e inglês. Antes de uma delas, Chicko brincou:
“Essa
é antiga… desculpem o inglês, mas naquela época a gente queria ser o
Sepultura.”
A
frase arrancou risos e aplausos.
Depois
foi a vez da Swave, quinteto formado por integrantes de Far From Alaska,
Supercombo, Violet Soda e Sugar Kane, além da vocalista Aline Mendes, que
também desenvolve carreira solo como Alinbloom. O grupo fez um set curto, mas
certeiro, conquistando o público com um rock alternativo explosivo e excelente
presença de palco, especialmente de Aline e da baixista Luísa Phoenix.
O
relógio marcava 22 horas quando Tatola, Kley, Walter e Norberto subiram ao
palco. O Não Religião iniciou seu aguardado retorno com “Locutor da Morte”, do
disco de estreia.
Os
músicos estavam visivelmente felizes. Vieram então “Juventude à Vácuo”, “Estado
de Sítio”, “A Verdadeira História de um Brasileiro”, “Brasil” e tantos outros
clássicos, intercalados por histórias e comentários de Tatola, que fez questão
de agradecer aos amigos presentes — inclusive este que vos escreve — e dividir
com o público curiosidades sobre várias músicas.
Aquela
noite era muito mais do que um show.
Era
uma celebração.
E
toda boa celebração tem convidados especiais.
Miro
de Melo, atual vocalista da 365, subiu ao palco para cantar “Coração de Papel”
ao lado de Tatola. Depois, com a chegada de Ari Baltazar, guitarrista da banda,
veio uma emocionante versão de “São Paulo”.
| Foto: Ricardo A. Flávio / Rock On Board |
O show seguiu em alto nível com “Pixote”, “Igreja Comercial”, “Qualquer Tipo de Religião” e “Jesus Crucificado no Poste da Light”, todas cantadas em coro pelo público.
Ainda
houve espaço para duas músicas inéditas: “Tempo pra Nada”, que já vem recebendo
boa execução nas rádios, e “Fede Mais, Fede Menos”, de letra bastante
inspirada.
Como
sempre aconteceu na trajetória do Não Religião, também não faltaram os covers.
Vieram “A Face de Deus”, dos Inocentes, em uma versão mais pesada, e “The One I
Love”, do R.E.M., cuja escolha Tatola explicou de maneira divertida, lembrando
o inglês macarrônico e o absoluto “embromation” dos primeiros tempos da banda.
A
emoção também deu o tom da noite. Houve uma bonita homenagem ao saudoso Tilson
Alves, produtor do Nem Liminha Ouviu, falecido há alguns anos. Tatola também
pediu apoio ao Bazar do Mingau, que acontecia no próprio Hangar, arrecadando
recursos por meio da venda de discos, roupas e instrumentos musicais do
baixista Rinaldo Mingau, do Ultraje a Rigor, que segue enfrentando uma longa e
difícil recuperação após ter sido baleado em Paraty.
| Foto: Ricardo A. Flávio / Rock On Board |
Ao final, fica a constatação de que o Não Religião continua sendo uma banda contundente e necessária. Seu discurso permanece atual, o dedo continua apontando para a ferida. Não faltaram palavras de ordem contra políticos corruptos, não faltou o grito de “SEM ANISTIA PARA GOLPISTAS”, não faltaram críticas ao mercantilismo religioso.
Há
músicas novas, há público interessado e, principalmente, há uma banda que
voltou porque ainda tem algo a dizer.
Anos
atrás, Tatola me confessou que havia desanimado porque o mundo parecia não
querer mudar.
Talvez
ele tenha razão.
Mas
basta assistir a um show como este para perceber que as músicas do Não Religião
continuam cumprindo exatamente a missão para a qual foram escritas: incomodar,
provocar e fazer pensar.
Talvez
seja justamente por isso que sua volta seja tão esperada.
E
tão necessária.
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