Desde o princípio estava claro que a cinebiografia de Michael Jackson seria chapa branca. O envolvimento da família e do advogado e empresário John Branca, todos listados como produtores do filme, e o protagonismo de Jaafar Jackson, sobrinho do cantor falecido em 2009, significavam que havia muita gente que era próxima do Rei do Pop envolvida no filme e que haveria um claro controle da narrativa, evidenciando que temas delicados possivelmente seriam evitados ou suavizados.
Apesar disso, o filme poderia ainda ser uma excelente peça de entretenimento. Afinal, estamos falando de Michael Jackson. Não faltam momentos icônicos do cantor. E essa é uma das grandes frustrações de “Michael”, que revela-se um filme sem alma, sem personalidade e que foi incapaz de retratar com firmeza e convicção a genialidade e a complexidade do cantor.
Superfície brilhante, profundidade ausente: o recorte seguro que limita “Michael”
Dirigido por Antoine Fuqua, de bons filmes como “Dia de Treinamento” (2001) e “Sete homens e um destino” (2016), “Michael” retrata aproximadamente metade da vida de Michael Jackson. Conta da infância difícil, a formação dos Jackson 5, passa pelos sucessos da carreira solo de Off the Wall (1979) e Thriller (1982) e vai até o início do estouro de Bad. Foi uma fase da carreira e da vida de Michael Jackson de muitos desafios pessoais, mas livre de polêmicas e das acusações de abuso sexual que o cantor teve que enfrentar a partir dos anos 1990.
Com esse recorte temporal, Fuqua tinha tudo para fazer um filme glorioso sobre o Rei do Pop que pudesse se equiparar a algumas das melhores cinebiografias recentes de músicos, mas o diretor nos entrega apenas um trabalho superficial. Um trabalho que emociona nos momentos musicais, mas que revela-se, por vezes, incorreto, outras vezes, injusto, e que foi incapaz de lançar um olhar mais aprofundado sobre o artista, o homem, suas dores e angústias.
Um vilão evidente, um protagonista pouco explorado
Michael tem um vilão óbvio: Joseph Jackson (Colman Domingo), o pai controlador, violento e manipulador da família Jackson. O homem que praticava abuso físico e psicológico com os filhos, em especial o mais jovem e talentoso deles. É mais do que conhecido o histórico de abuso de Joseph e o que se vê na tela é apenas o necessário para criar um antagonismo com a jovem estrela e maior vítima do pai.
A infância de Michael, aqui interpretado com magnetismo por Juliano Valdi, resume-se a números musicais e opressão paterna. Quando Fuqua tenta investigar os problemas psicológicos do artista, mostra sinais muito sutis, como a criança que vê no produtor da Motown uma figura paterna que não tem em casa. Ou os sinais de solidão que Michael leva da infância até a vida adulta, só aplacados por histórias infantis (em especial Peter Pan) e o seu amor por animais exóticos, que considera os seus verdadeiros amigos.
Roteiro sem rumo e sem coragem
O roteiro de John Logan também não ajuda. Frequentemente Michael Jackson e outros personagens aparecem na tela soltando ideias e frases que vão se intercalando em meio a números musicais, mas que não tem uma coesão, uma linha narrativa ou mesmo ideias claras sobre o que o filme gostaria de mostrar. Tudo isso num filme que tem uma montagem bastante linear, o que deveria ser mais fácil para contar uma história.
E talvez seja esse um dos grandes calcanhares de Aquiles de “Michael”. Que história sobre Michael Jackson o filme quer mostrar? O de uma vítima que ganha ares messiânicos? O do artista genial no palco? O do homem que mesmo diante de tantas dificuldades venceu como um dos mais bem sucedidos artistas negros da história? “Michael” falha nisso tudo porque não vai a fundo em suas ideias. Fica apenas na superfície porque tem medo de se arriscar a ir a fundo na investigação da alma do artista.
E assim Fuqua dá apenas alguns insights do que talvez o filme pudesse ter sido. É assim quando retrata a solidão e a ausência do amor paterno. É assim quando em diversos momentos exibe a dificuldade que Michael tem ao ficar entre a devoção e o amor à família e o seu desejo de seguir o seu caminho como um adulto. Michael repete frequentemente que não é mais uma criança, ao mesmo tempo em que se vê preso a um comportamento infantil, comprando brinquedos enquanto seus irmãos estão mais preocupados em praticar esportes e ter encontros com mulheres.
Seu crescimento e amadurecimento como artista, não é acompanhado no mesmo ritmo como indivíduo. Mas ao invés de tentar investigar este tema, o filme, por vezes, prefere mostrar a família olhando para ele como se ele fosse um pobre coitado a cada ideia pouco convencional que exibe. Como se Michael Jackson fosse "esquisito", mas a família gosta dele assim mesmo. É o caso da cena em que o cantor adota um chimpanzé.
Entre a ruptura e o vazio criativo: quando o artista some atrás do mito
Michael se vê preso numa realidade que só encontra o rompimento definitivo no último show dos Jacksons durante a turnê “Victory” (1984). Havia uma riqueza enorme a ser explorada e uma reflexão a se fazer sobre este Michael Jackson que já era um artista gigantesco em carreira solo, mas ainda se via fazendo a vontade do pai em sua turnê ambiciosa. Jaafar Jackson ainda tenta explorar isso com o seu trabalho em cena, mas o roteiro de Logan não consegue dar voz a esse esforço, deixando tudo num tom muito superficial.
Contudo ainda havia o Michael Jackson artista. E esta talvez seja outra das grandes frustrações do filme. “Michael” não apresenta praticamente nada sobre o seu processo criativo. Não mostra como surgiram as ideias das músicas de “Off The Wall” e “Thriller”. O filme é tão pobre na exposição da sua genialidade artística, que quando apresenta uma centelha disso na tela chega a ser emocionante e empolgante.
É assim quando vemos Jaafar, que interpreta o tio com impressionante mimetismo, desenvolvendo a coreografia que seria apresentada no videoclipe de “Beat it”. Ou na gravação do curta metragem de “Thriller”. São dois dos pontos altos do filme e um exercício que o filme poderia repetir mais vezes mostrando, por exemplo, como foi a parceria com Eddie Van Halen para a guitarra de “Beat it”, ou como surgiram ideias para muitos dos seus sucessos. Entretanto, infelizmente “Michael” não parece interessado em mostrar o processo criativo de Michael Jackson. Aprende-se mais sobre isso nas diversas entrevistas que o cantor deu e que estão espalhadas na internet.
Apagamentos e acertos: quando o brilho musical tenta esconder as falhas narrativas
Quando se trata do processo criativo, aliás, o filme expõe uma desonestidade intelectual enorme ao retratar o produtor Quincy Jones (interpretado por Kendrick Sampson) com uma figura sem muita importância. A parceria entre Michael e Jones é uma das mais importantes da história da música. Jones era um midas da indústria. A genialidade de Michael só aflorou ao lado do produtor que, no filme, é retratado apenas como mais um na vida do cantor. Na verdade, o guarda-costas Bill (Keilyn Durrell Jones) e o advogado John Branca (Miles Teller) têm mais importância no filme do que Jones. Não que eles não fossem personagens relevantes na vida do cantor, mas o apagamento do produtor foi dos erros mais graves do filme.
Outro grande estranhamento é a ausência de Janet Jackson. O segundo membro mais famoso da família nunca aparece na tela. Janet não teria permitido ser retratada no filme, evidenciando uma possível desavença dentro da família.
Onde “Michael” é fascinante mesmo é em seus números musicais. A reprodução das apresentações dos Jacksons 5, o famoso show nos 25 anos da gravadora Motown, quando Michael cantou “Billie Jean” e apresentou pela primeira vez o moonwalk, os shows em estádios, Michael cantando “Bad”... São todos momentos arrebatadores. Momentos que não conseguem ser mais arrebatadores do que os reais momentos em que Michael Jackson fez tudo isso, mas que não deixam de ser emocionantes. Isso porque a música de Michael Jackson é fenomenal, implacável e atemporal. Tudo o que “Michael”, o filme, não conseguiu ser.

