Muitos enxergam Michael Jackson apenas através da lente do Pop, mas sua discografia revela uma conexão profunda com o Rock ‘n’ Roll. Michael não usava guitarristas apenas como músicos de apoio; ele os utilizava como ferramentas de ruptura cultural. Em uma época em que as barreiras raciais na música eram rígidas, o Rei do Pop usou distorções e solos épicos para derrubar muros, unindo o groove do R&B à agressividade das arenas de rock.
A Estratégia de "Beat It": Quebrando a Barreira da MTV
Para entender por que Michael Jackson recrutou a elite da guitarra, precisamos olhar para o cenário de 1982. Naquela época, a MTV era criticada por ser uma emissora quase exclusivamente "branca", focada no Rock. Artistas negros raramente tinham espaço na programação principal. Michael e o produtor Quincy Jones sabiam que, para dominar o mundo, precisavam de um "cavalo de Troia" que forçasse a entrada nas rádios de rock e na televisão.
Foi assim que nasceu "Beat It". A música não era apenas uma canção pop com uma guitarra ao fundo; era um hino de Rock feito por um artista negro. Para garantir a autenticidade, eles chamaram dois pilares do gênero: Steve Lukather e Eddie Van Halen.
Steve Lukather e o Alicerce do Toto
Enquanto muitos creditam apenas Eddie Van Halen pela música, o "chão" de "Beat It" foi construído por Steve Lukather. Michael queria um som encorpado, e Lukather entregou exatamente isso.
Ele gravou o riff principal e todas as guitarras rítmicas. Steve usou amplificadores Marshall no talo para garantir que a música tivesse o "peso" necessário para assustar (e conquistar) os roqueiros e conta que, inicialmente, a faixa estava tão pesada que Quincy Jones pediu para ele baixar um pouco o tom, com medo de que a rádio pop não a aceitasse. No fim, o equilíbrio foi perfeito.
Se Lukather fez o alicerce, Eddie Van Halen colocou a coroa. Eddie aceitou o convite de Quincy Jones achando que ninguém saberia de sua participação, já que ele nem cobrou pelo serviço (ganhou apenas algumas cervejas e a gratidão de Michael).
O solo de Eddie em "Beat It" é uma aula de técnica e improviso. Ele reorganizou a estrutura da música para que o solo se encaixasse melhor.
Durante a gravação, a intensidade do sinal enviado pela guitarra de Eddie fez um monitor de estúdio pegar fogo. Além disso, reza a lenda que um técnico bateu na porta do estúdio durante o take — e o som da batida pode ser ouvido na versão final, logo antes do solo começar.
Steve Stevens e o Peso Sombrio de "Dirty Diana"
Para o álbum Bad (1987), Michael queria algo ainda mais sujo e visceral. Ele recrutou Steve Stevens, conhecido pelo seu trabalho icônico com Billy Idol.
Em "Dirty Diana", Stevens trouxe uma sonoridade mais próxima do Hard Rock de arena. A música é construída sobre um crescendo dramático onde a guitarra grita de forma angustiante.
Michael foi extremamente específico com Stevens: ele queria que o solo tivesse "maldade" e uma energia quase teatral. Stevens usou efeitos de sintetizador de guitarra para criar texturas que tornaram a faixa uma das mais pesadas da carreira de Michael. No clipe, a performance de Stevens é fundamental para passar a ideia de um "show de rock" autêntico.
Slash: A Rebeldia do Hard Rock nos Anos 90
Na década seguinte, Michael buscou a figura mais emblemática do rock daquela era: Slash. A parceria começou em Dangerous (1991) e se estendeu por anos.
Slash é frequentemente associado ao hit "Black or White", mas sua contribuição mais visceral está em "Give In To Me". Ali, ele entrega um solo sujo, cheio de bends e melancolia, que transformou a faixa em um Hard Rock autêntico.
Michael amava a imprevisibilidade de Slash. Em várias apresentações ao vivo, Slash prolongava seus solos intencionalmente, e Michael "fingia" tentar pará-lo, criando uma dinâmica de palco que o público de rock adorava.
Nenhum artigo sobre os guitarristas de Michael estaria completo sem mencionar Jennifer Batten. Ela foi a escolha de Michael para levar essa energia para as massas em três turnês mundiais.
Em um mundo dominado por homens, Jennifer se destacou pela técnica absurda de two-handed tapping. Ela tinha o visual perfeito para o palco de Michael e a precisão técnica para reproduzir as notas de Van Halen e Slash todas as noites.
Ela foi selecionada entre mais de cem guitarristas em um teste às cegas. Michael não queria apenas "alguém que tocasse bem", ele queria um som que soasse moderno e futurista.
Carlos Santana e a Elegância de Invincible
Mesmo em seu último álbum de estúdio em vida, Michael não abriu mão da guitarra lendária. Em "Whatever Happens", ele convidou Carlos Santana.
Diferente da agressividade de "Beat It", Santana trouxe sua guitarra melódica e latina, criando um diálogo entre as cordas de nylon e sua inconfundível PRS elétrica.
Michael era tão fã do toque de Santana que pediu especificamente que o guitarrista "rezasse com a guitarra" durante a gravação, buscando uma conexão espiritual na música.
O Legado: A Guitarra como Ponte
A escolha desses nomes não foi por acaso ou apenas por virtuosidade. Michael Jackson usou a guitarra elétrica para provar que a música não tem cor. Ao colocar os heróis da guitarra branca em seus álbuns, ele não apenas entrou na MTV; ele forçou o mundo a aceitar que o "Rei do Pop" também era um mestre em entender a alma do Rock.
Tags
Michael Jackson
