O Super Bowl LX começou com algo raro para o maior espetáculo esportivo do planeta: incômodo. Coube ao Green Day abrir a noite no Levi’s Stadium, em Santa Clara, levando o espírito do pop punk californiano direto ao coração do entretenimento corporativo americano.
Jogando em casa, Billie Joe Armstrong, Mike Dirnt e Tré Cool mostraram que, mesmo após 35 anos de estrada, ainda sabem exatamente onde apertar. O repertório foi curto, mas cirúrgico: um medley de três faixas de American Idiot, álbum que completou 20 anos recentemente e segue soando como um manifesto contra o sistema. Vale lembrar que o disco nasceu sob as cinzas do 11 de setembro e da Guerra do Iraque, mas que a banda traçou um paralelo com as tensões modernas globais.
Sem discursos explícitos entre as músicas, o show foi profundamente político. "Holiday" abriu o set mantendo a letra original — um protesto direto contra guerras e manipulação midiática. "Boulevard of Broken Dreams" trouxe o momento mais emocional da apresentação, conectando a multidão à figura do anti-herói solitário da classe média americana. Já "American Idiot" fechou o medley de forma tensa.
No trecho “subliminal mind-fuck America”, a transmissão da NBC tentou abafar o áudio para censurar o palavrão. Ainda assim, a mensagem passou. Diferente de apresentações recentes, Billie Joe não alterou o verso para referências diretas à política atual — possivelmente por se tratar de TV aberta —, mas o impacto dos versos originais foi suficiente.
Lançado na era Bush, American Idiot voltou a soar atual em 2026, agora sob a sombra de Donald Trump. As críticas à alienação, ao nacionalismo cego e às “mentiras vazias” ecoaram com força em um estádio lotado — e em milhões de salas de estar.
Mesmo com a presença de jogadores veteranos da NFL no palco ao final, o Green Day não suavizou sua mensagem. A banda mostrou que ainda é possível ocupar espaços gigantescos sem abrir mão do discurso.
O Super Bowl deixou de ser apenas uma final esportiva há muito tempo. Em 2025, o evento bateu recorde de audiência, com quase 128 milhões de espectadores, sendo transmitido para mais de 130 países. Nesse contexto, ver uma banda cantar sobre dissidência e alienação em horário nobre é mais do que entretenimento: é um choque cultural necessário.
Talvez alguns esperassem um protesto mais explícito, como os vistos na turnê de 2024–2025. Mas o Green Day prefere outra estratégia. Como um cavalo de Troia, entrega coquetéis molotov embrulhados em melodias pop — e deixa que eles explodam dentro das casas mais conservadoras.
“Eu imploro para sonhar e divergir das mentiras vazias / Este é o amanhecer do resto de nossas vidas.” — "Holiday"
Tags
Green Day

