São Paulo viveu uma daquelas noites que entram direto para a memória afetiva de uma geração. No dia 5 de fevereiro de 2026, o My Chemical Romance finalmente voltou ao Brasil após mais de uma década de espera — e o Allianz Parque, completamente sold out, foi a prova viva de que essa saudade nunca esfriou.
Desde as primeiras horas do dia, o entorno do estádio já denunciava que não seria um show qualquer. Fãs caracterizados, maquiagens carregadas, roupas pretas, delineadores dramáticos e referências claras ao universo da banda tomavam conta do espaço. Era um público majoritariamente formado por fãs das antigas, gente que atravessou os anos 2000 junto com aquelas músicas que marcaram fases inteiras da vida.
A responsabilidade de abrir a noite ficou com os suecos do The Hives — e eles entregaram muito mais do que uma simples abertura. O show foi estrondoso, elétrico e impossível de ignorar. Pelle Almqvist é um showman no sentido mais puro da palavra: correu por todos os cantos do palco, jogou o microfone para o alto, dançou sem parar e, em vários momentos, desceu para cantar cara a cara com o público.
O carisma da banda ficou ainda mais evidente quando Pelle praticamente conduziu o show inteiro em português — com um domínio impressionante da língua — demonstrando uma conexão genuína com a plateia. Até quem não conhecia o The Hives saiu convertido. Não por acaso, mais tarde Gerard Way comentou que conheceu a banda há dois anos e que sentiu estar diante da melhor banda de rock que já tinha visto, o que o deixou ansioso para fazer algo juntos — algo que, finalmente, se concretizou ali.
Se o The Hives foi explosivo, o My Chemical Romance foi monumental
Foto: Carol Goldenberg / Rock On Board
A primeira parte do show foi dedicada integralmente ao álbum The Black Parade. E o que se viu ultrapassou completamente a ideia tradicional de um show de rock. Era teatro, musical e concerto fundidos em uma única experiência. O disco foi apresentado na íntegra, com atores no palco, cenografia elaborada e uma narrativa visual que prendia completamente a atenção. Não havia interação direta com o público, porque o foco era contar uma história — e ela era contada de forma cinematográfica, hipnotizante e precisa. O tempo simplesmente deixou de existir.
O público reagia com choro, gritos e uma emoção coletiva difícil de traduzir em palavras. Um estádio inteiro entregue à catarse, às memórias e à sensação de pertencimento que poucas bandas conseguem provocar.
Após uma breve transição, o clima mudou de forma brusca — e proposital. O teatro se desfez. A cenografia deu lugar a uma estética minimalista, com telões crus, como televisões fora do ar. As fantasias foram abandonadas, substituídas por figurinos pretos. Os personagens desapareceram, abrindo espaço para os músicos como eles realmente são.
Foto: Carol Goldenberg / Rock On Board
A segunda parte do show foi mais íntima e calorosa. O musical virou conversa. A banda passou a interagir com o público, contar histórias e trocar olhares. Gerard Way, visivelmente emocionado, repetiu inúmeros “obrigado”, demonstrando gratidão genuína pelo reencontro. O setlist passeou por diferentes fases da carreira, com momentos apoteóticos em “I’m Not Okay (I Promise)”, a raríssima “Cemetery Drive” — tocada pela primeira vez na turnê — e o encerramento com “Helena”, cantada em coro por um Allianz Parque inteiro.
Foi uma noite intensa, emocional e profundamente marcante. Para quem esperou mais de dez anos por esse reencontro, o My Chemical Romance não apenas voltou ao Brasil — entregou um espetáculo à altura de tudo o que representa para seus fãs. Uma noite histórica. Uma noite que não será esquecida.