quinta-feira, 26 de novembro de 2015

DISCOS: CHEATAHS (MYTHOLOGIES)

Foto: Divulgação

CHEATAHS

Mythologies

Wichita Records; 2015

Por Luciano Cirne





Um dos maiores crimes cometidos pela crítica dita especializada em música aqui em terras brasilis foi ignorar quase que sumariamente o álbum de estreia do Cheatahs. Formado no começo desta década em Londres, a banda multicultural (composta pelo canadense Nathan Hewiit no vocal e guitarra, o inglês James Wignall na guitarra, o americano Dean Reid no baixo e o alemão Marc Raue na batera) conseguiu no seu primeiro CD epônimo nos dar a sensação exata que voltamos a 1991 ao fazer a ponte perfeita entre o rock alternativo americano (com influências nítidas de Dinosaur Jr., Sonic Youth e Nirvana) e a cena shoegaze britânica (My Bloody Valentine, Jesus and Mary Chain e, principalmente, Swervedriver), criando uma parede furiosa de reverberação e efeitos, mas que continha no fundo uma beleza melódica sutil. 

A aceitação foi boa (na Europa, importante frisar, por aqui a coisa ainda está muuuuito devagar para eles) e talvez isso tenha os deixado mais inspirados, pois só em 2015, num curtíssimo espaço de tempo entre eles, lançaram dois EPs (o furioso “Sunne” e o mais experimental “Murasaki”, que tinha algumas faixas inclusive cantadas em japonês) e agora, no final de Outubro, o segundo LP, intitulado “Mythologies”, viu a luz do dia.

Se você só ouviu o primeiro álbum, provavelmente vai levar um susto; porém se você acompanhou os EPs que anteceram “Mythologies” vai constatar que o que houve foi apenas uma evolução natural. Claro, ainda existem momentos acelerados e nervosos, caso das faixas “Freak Waves” e “Murasaki” (a canção título do EP anterior, repetida aqui), mas no geral a impressão que dá é a de que cada vez mais eles querem fincar seus pés no shoegaze. 

Músicas como “Channel View”, “Red Lakes” (que abre os trabalhos de forma nada convencional, terminando estranhamente com um discurso em alemão) e “Reviere Bravo” são fortes e impactantes como se tivessem saído diretamente dos primeiros álbuns do Swervedriver, enquanto “Colorado” e “Su-Pra” são puro noise rock no melhor estilo My Bloody Valentine e Medicine de ser. “Su-Pra” e “Reviere Bravo” inclusive são momentos curiosos a ser destacados, com efeitos eletrônicos tirados de um antigos videogames para o computador Spektrum 48k (alguém aí lembra dele?). Temos efeitos eletrônicos ainda em “Signs to Lorelei”, com seu riff hipnótico que parece tema de algum seriado de ficção dos anos 1960, e “Deli Rome”, cujo início se assemelha a um disco tocando de trás pra frente, porém repleto de distorção mas, ao longo da canção, o caos sonoro vai dando espaço à melodia, terminando de modo suave.

O segundo CD costuma ser uma prova de fogo para a maioria das bandas, pois na hora de consolidar, muitas acabam não resistindo à pressão, mas o Cheatahs mostrou com o seu “Mythologies” que isso não passa de um mito (tentei a todo custo evitar os trocadilhos infames, mas não resisti! Foi mal, leitor!). Nathan e seus comparsas fizeram um álbum mais coeso que o primeiro e também mais instigante, que pode causar estranhamento num primeiro instante, mas que cresce a cada nova audição. Além disso, conseguiram construir uma identidade para a banda, fazendo um som que, se por um lado não tem nada que não tenha sido feito antes, por outro certamente tem algo de distinto. Belíssimo CD e presença garantida na lista dos melhores de 2015.

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