segunda-feira, 14 de setembro de 2015

DISCOS: HOLLYWOOD VAMPIRES (HOLLYWOOD VAMPIRES)

HOLLYWOOD VAMPIRES

Hollywood Vampires

UMG Recordings; 2015

Por Lucas Scaliza



Entre todos os supergrupos que já existiram, alguns tentaram realmente ser uma constelação. É clássico o caso das estrelas de grande brilho que se reuniram para gravar “We Are The World”, uma produção solidária e musical de Quincy Jones. Procure no Google e veja quem estava envolvido nesse projeto (que era para apenas uma música, não um álbum). Este ano tivemos Dave Grohl, Corey Taylor e mais de 20 músicos se reunindo para uma homenagem bem feito ao grunge, punk, rock de garagem e todo tipo de som alternativo americano. A alcunha do grupo: Teenage Time Killers. O álbum batizado sabiamente de Greatest Hits. Uma constelação do rock underground e mainstream de ontem e de hoje.

Agora o Hollywood Vampires vê a luz do dia reunindo um trio interessante: o cantor Alice Cooper, o ator Johnny Depp e o guitarrista do Aerosmith, Joe Perry. E para acompanhá-los, uma constelação do rock: Dennis Dunnaway (baixista do Alice Cooper), Perry Farrell (cantor e guitarra do Jane’s Addiction), Dave Grohl (esse está em todas, não?), Slash (Guns N'Roses, Velvet Revolver), Brian Johnson (vocalista do AC/DC), Tommy Henriksen (guitarrista do Alice), Robby Krieger (guitarra do The Doors), o baterista Abe Laboriel Jr. (Paul McCartney), o próprio Paul McCartney, o baterista Neal Smith (também da primeira formação do Alice Cooper), Glen Sobel (batera que já trabalhou com Alice, Paul Gilbert, Uli Jon Roth, entre vários outros), Zak Starkey (batera que já tocou para o The Who, Oasis, Johnny Marr e Paul Weller), o guitarrista Joe Wash (do Eagles, James Gang e Ringo Starr), o cantor e baixista Kip Winger (Alice Cooper, Winger, Alan Parson e Jordan Rudess) e o baixista Bruce Witkin, que também é produtor de trilhas sonoras.

Este time, com vários respeitáveis nomes e carreiras, não se uniu para reinventar a roda, salvar o rock ou revolucionar a música. Estão nessa justamente para homenagear o rock regravando clássicos de forma bastante suja, distorcida e com a melhor pegada que puderem usar para reinterpretar clássicos. O projeto é interessante e chamou a atenção dos organizadores do Rock In Rio 2015, que confirmaram a banda na escalação do evento este mês sem que o grupo nem mesmo tivesse música para mostrar. Mas tinham esses nomes na folha de pagamento.

O disco é animado, divertido e rápido (a maior faixa tem 5 minutos, e várias outras não chegam aos 3). Começa em grande estilo, com o retumbante vozeirão de Christopher Lee (falecido este ano), que além de grande ator também gravou discos de metal sinfônico. Em “The Last Vampire”, ele narra seu encontro com um misterioso homem e dá a deixa falando das “crianças da noite” e da música que fazem. Na sequência, compreensivelmente, vem uma poderosa “Raise The Dead”, uma das únicas músicas originais deste disco. Depp manda bem na guitarra enquanto Alice Cooper canta com seu jeito característico que mistura teatro de terror e comédia. A faixa não é longa, mas é bem aproveitada e com vários arranjos que resgatam o rock dos anos 70 que tentava se aproveitar de uma imagem ameaçadora, mas que na verdade era só diversão.

Na sequência, as canções são todas covers. Alice no vocal, recebendo alguns vocalistas convidados e Depp nas guitarras, dividindo as seis cordas com vários outros músicos. Algumas dessas regravações chegam a ter até cinco guitarristas, mas a mixagem tratou de não embolá-los. Cada um tem seu próprio espaço para licks, fills, riffs e solos. Tommy Henriksen também esteve muito presente no desenvolvimento do disco, recebendo créditos de guitarrista e backing vocal pela maioria das faixas.

My Generation” é um cover do The Who que mostra a habilidade do baterista Zak Starkey. Em seguida vem uma ótima versão de “Whole Lotta Love”, do Led Zepellin. A princípio, nem parece a música do Led, mas a banda faz a hell of a job quando o seu riff principal surge. Uma versão forte e suja da canção que tem a participação de cinco guitarristas, incluindo a ótima Orianthi, e com direito a Alice Cooper tocando gaita.

I Got a Line on You”, com vocais de Cooper e Perry Farrell, resgata o tom mais divertido e festivo do rock. É um cover da banda Spirit. A faixa seguinte é um misto de “Five to One” e “Break On Through”, ambas do The Doors, com Kieger na guitarra blues e levemente psicodélica. O baterista Abe Laboriel Jr. mostra que tem suingue nesta faixa. Em seguida, mais uma fusão: “One” e “Jump Into The Fire”, ambas do Harry Nilsson. Bob Ezrin toca teclado nesta faixa para criar uma leve ambientação. As guitarras estão muito bem divididas, criando riffs sobre riffs, como camadas. Na bateria, o arroz de festa Dave Grohl.

Come and Get It” recebe o reforço de Sir Paul McCartney. Pudera, a música é dele! Esta canção deveria ter entrado no Abbey Road (1969), mas nunca foi gravada em um LP dos Beatles. A composição foi gravado pelo Badfinger. Mais uma dessas canções que afastam o tom mais sombrio do Hollywood Vampires, mas não se enganem: Johnny Depp e Joe Perry deixam suas guitarras bastante presentes. Em seguida, outra famosa é regravada: “Jeepster”, do T-Rex, com balanço, guitarras country/rock, o baixo de Witkin em primeiro plano e a bateria de Glen Sobel marcando o tempo como manda o rock dançante. “Cold Turkey”, do John Lennon, também marca presença no disco.

O blues rock sujo de “Manic Depression”, do Jimi Hendrix, traz de volta Zak Starkey conduzindo uma bateria nada quadrada, quebrando tudo. Depp e Henriksen dão espaço para Joe Walsh tocar. “Itchycoo Park”, cover do Small Faces, é outra música pop que o Hollywood Vampires trata de carregar de guitarras, baixo bem marcado de Witkin e uma intervenção psicodélica. Uma das mais coloridas do álbum.

Um dos destaques da seleção é a dobradinha “School’s Out”, autocover do próprio Alice Cooper, com “Another Brick In The Wall Pt. 2”, do Pink Floyd. Vocais divididos com Brian Johnson na primeira, resgatando esse clássico e, no caso do Pink Floyd, a música é invadida pela força da primeira, criando um trecho bem agressivo do single de The Wall (1979). Por fim, “My Dead Drunk Friends” fecha Hollywood Vampires. É uma faixa original, um blues rock gótico e de boteco composta por Depp, Cooper, Henriksen, Ezrin e Witkin. Fecha a celebração do rock’n’roll iniciada com “Raise The Dead”.

O que temos aqui é uma banda muito competente que soube escolher o repertório. O ator Johnny Depp mostra que toca guitarra bem, seja para fazer base, riffs, cadências de blues, o que for preciso. Poderiam ter colocado ainda mais canções originais, já que as duas composta para Hollywood Vampires são ótimas e não deixam nada a dever para os covers.

Senti falta de duas participações especiais que teriam tudo a ver com o projeto. Primeiro, o cantor Marilyn Manson. Além de amigo de Depp, ele mora em Los Angeles há bastante tempo, tem um disco chamado Holly Wood (2000) e já participou de vários projetos cinematográficos e televisivos. O último foi como ator na série Sons Of Anarchy. O segundo é o guitarrista dos Stones, Keith Richards. Além de ser a personificação do vampiro roqueiro (por conta de sua idade e das lendas que o cercam), ele foi a inspiração de Depp para o personagem Jack Sparrow. Mais do que isso, Richards fez uma ponta em Piratas do Caribe: No Fim do Mundo.

Se o grupo do álbum é uma constelação, ela ficará maior quando a banda sair em turnê. Além de Cooper, Depp e Joe Perry, o grupo será completado pelo baixista Duff McKagan e o baterista Matt Sorum, ambos ex-Guns’N’Roses. E é esta formação que o Rock In Rio 2015 receberá dia 24 de setembro.

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