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| Foto: Eli K. Hayasaka |
Veteranos da fusão entre
punk, ska, funk e rock pesado entregam uma apresentação de alto nível no
Fabrique Club. Angelo Moore, aos 60 anos, esbanja vitalidade, enquanto a banda
demonstra por que sua história merece ser celebrada
Existem
shows que impressionam pela grandiosidade. Outros, pela nostalgia. E há aqueles
que nos fazem lembrar por que gostamos tanto de música ao vivo. A
apresentação do Fishbone no Fabrique Club, em São Paulo, neste sábado (31),
pertence à última categoria.
A
banda norte-americana, referência histórica na mistura de punk, ska, funk, soul
e rock, entregou uma apresentação marcada pela qualidade individual de seus
integrantes, pelo domínio coletivo e por uma energia que não dá sinais de
esgotamento.
Mas
a noite começou muito antes do Fishbone subir ao palco.
Maga Rude abriu os
trabalhos em grande estilo
A
Maga Rude entrou em cena às 18h e mandou muito bem. A banda paulistana
demonstrou personalidade ao passear por referências bastante distintas,
incluindo uma empolgante versão de “Não Vá Se Perder Por Aí”, dos Mutantes, e
um cover de Cindy Lauper que também funcionou muito bem.
A
participação de Natália e Camila, da Punho
de Mahin, acrescentou outro momento especial. As duas cantaram uma música
da própria Punho de Mahin, uma da Maga Rude e ainda participaram de uma
releitura de Rita Lee.
Ao
final, as meninas convocaram o público para uma foto coletiva. Foi quando a
trompetista começou a tocar “Olê, olê, olá, Lula, Lula”. A resposta veio
imediatamente, com a galera fazendo o L. E
eu, que já vi muito show, virei um velho emotivo. Chorei.
Não
era apenas música. Era a sensação de pertencimento, de resistência e de
esperança compartilhada. Às vezes, é justamente isso que faz uma noite ficar
para sempre na memória.
A
discotecagem de Thiago DJ, da 89 FM, também merece destaque. Fugindo do óbvio,
trouxe sonzeiras como Voodoo Glow Skulls e ajudou a manter o clima de
celebração antes e entre as apresentações.
Uma banda de
músicos extraordinários
O
Fishbone impressiona pela qualidade de cada um de seus integrantes. A
disposição do palco, aliás, foge do habitual. A
bateria de Hassan Hurd não fica ao
fundo, como normalmente acontece. Está posicionada à direita do palco, olhando
da plateia. Ao fundo, à esquerda, temos o guitarrista Tracey “Spacey T” Singleton, enquanto o baixista James Jones ocupa o lado direito.
Na
linha de frente, o trompetista JS
Williams aparece à esquerda. Chris
Dowd, tecladista e trombonista, fica à direita, ao lado da bateria. E
no centro está o incansável Angelo Moore. Vocalista,
saxofonista, theremin e dono de uma presença de palco impressionante, o Dr.
Madd Vibe parece fazer pouco caso da passagem do tempo. Aos 60 anos,
esbanja vitalidade, domínio da situação e uma performance que deixa muita
molecada de 18 anos com inveja.
Durante
o show, encontrei Rodrigo Carneiro,
do Mickey Junkies, e comentei que
sempre digo que ninguém que gosta de música deveria morrer sem assistir a uma
apresentação do Living Colour. “O mesmo
serve para o Fishbone”, completei. Rodrigo
concordou: “Total… olha isso, o cara tira
suingue do theremin! Incrível!”
E
era exatamente isso. Angelo Moore transforma até um instrumento tão peculiar em
extensão de seu balanço e personalidade.
Uma sequência de
grandes momentos
O
repertório percorreu diferentes fases da trajetória da banda, sem deixar a
peteca cair. “Give
It Up” empolgou, enquanto a versão de “Love Rollercoaster”, clássico dos Ohio Players também conhecido pela
gravação do Red Hot Chili Peppers,
colocou todo mundo para dançar.
“Ma
and Pa” talvez tenha sido o ponto alto da noite. Mesmo sendo uma apresentação
bastante linear, no melhor sentido da palavra, o Fishbone mantém a intensidade
do começo ao fim. “Racist
Piece of Shit” é aquele dedo na ferida, socado sem dó. Uma crítica direta ao
racismo que reforça a dimensão política presente na trajetória do grupo.
Em
determinado momento, alguém da plateia entregou um desenho a Angelo Moore. A
ilustração mostrava Donald Trump manipulando Flávio Bolsonaro como uma
marionete. A resposta do palco veio sem rodeios: “FUCK TRUMP!” A
interação espontânea reforçou algo que faz parte da identidade do Fishbone: a
música não está desconectada do mundo que a banda observa e questiona.
“Party
at Ground Zero” fez tudo explodir. O clássico segue funcionando como uma
verdadeira convocação para o caos dançante. No
bis, “Everyday Sunshine” trouxe aquela sensação de celebração coletiva. Um
encerramento que deixou o público com vontade de quero mais.
E,
quando acabou, ficou aquele gosto amargo do “já acabou?”.
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| Foto: Eli K. Hayasaka |
Uma noite que
merecia mais
O
Fishbone agradeceu nas redes sociais pelo convite para tocar no Brasil e
convocou o público a comparecer, para que novas oportunidades de retorno
aconteçam. A
resposta de São Paulo foi bastante significativa.
A
noite também foi marcada por encontros e reencontros com figuras de diferentes
gerações da cena musical independente. Entre os presentes, nomes como Fábio
Massari, Clemente, B. Negão, Juninho (Ratos de Porão), Rodrigo Carneiro (Mickey
Junkies), Tadeu Dias (Bufo Borealis), Ariel, Pirata (Anjo dos Becos), Axl Rude
e Popó, além das meninas da Punho de Mahin.
Uma
demonstração de como o Fishbone atravessa cenas, gerações e diferentes
histórias do underground. O
Fishbone é uma banda que atravessa gerações, conecta cenas e demonstra que a
mistura musical pode ser uma linguagem própria. Punk, ska, funk, soul, metais e
rock pesado convivem sem hierarquia, sem pedir licença e sem perder a
identidade.
A
abertura da Maga Rude, a discotecagem certeira de Thiago DJ, os encontros, a
emoção e a apresentação impecável dos norte-americanos fizeram do sábado uma
experiência completa. Se
depender da resposta de quem esteve no Fabrique Club, o convite para voltar
está feito. Fishbone
merece. E São Paulo também merece mais noites como essa.





