Há shows que impressionam pela grandiosidade. Outros ficam na memória pela importância que assumem em determinado momento da vida. Na noite de 25 de outubro de 2026, o Iron Maiden conseguiu reunir essas duas coisas em São Paulo.
A chuva castigava a cidade desde a noite anterior, mas o público chegava e ocupava gradualmente a arena. A abertura ficou por conta do Alter Bridge, banda que eu já havia assistido anos atrás, durante o festival São Paulo Trip, quando também se apresentaram The Cult e The Who.
A expectativa, naturalmente, era pela chegada da Donzela de Ferro. A turnê Run for Your Lives apresenta um repertório que percorre diferentes momentos da história da banda, com um setlist praticamente fixo, noite após noite. Para quem acompanha o grupo há décadas, a ausência de surpresas não diminui necessariamente o interesse. A questão passa a ser como uma banda desse tamanho consegue transformar canções conhecidas em um espetáculo que continua impressionando.
No meu caso, a história com o Iron Maiden começou muito antes do primeiro encontro ao vivo. Acompanho a banda desde o álbum de estreia, mas só consegui vê-la pessoalmente em 1992, na segunda passagem do grupo pelo Brasil. Em janeiro de 1985, durante o Rock in Rio e a World Slavery Tour, eu tinha apenas 12 anos. Meus pais não permitiram que eu viajasse até o Rio de Janeiro. A oportunidade perdida ficou na memória, mas outras apresentações vieram ao longo das décadas.
Nesse percurso, assisti à banda com dois guitarristas e também com a formação de três guitarristas que se consolidou após o retorno de Adrian Smith. Vi ainda a fase de Blaze Bayley nos vocais. Duas experiências que ficaram faltando foram assistir a Clive Burr e Paul Di’Anno com o próprio Iron Maiden. Paul, entretanto, vi duas vezes em apresentações solo no Brasil, ambas com repertório concentrado nos dois primeiros discos da banda.
É com essa bagagem que chego a mais um capítulo da história da Donzela de Ferro. E há uma novidade desta vez: Simon Dawson na bateria, ocupando o lugar de Nicko McBrain, que deixou as apresentações ao vivo por questões de saúde.
Das
origens à grandiosidade
A
abertura com quatro músicas da fase de Paul Di’Anno foi uma escolha
particularmente interessante. "Murders in the Rue Morgue", "Wrathchild", "Killers" e "Phantom of the Opera" recuperam a energia dos primeiros anos, quando a
identidade do Iron Maiden ainda se formava em torno de uma sonoridade mais
crua, veloz e urgente.
A
sequência também funciona como uma lembrança de que a história da banda não
começou com Bruce Dickinson. Antes da consolidação internacional e da dimensão
épica que marcaria os anos seguintes, houve aqueles primeiros discos,
fundamentais para estabelecer as bases do heavy metal britânico que
conquistaria o mundo.
Depois,
o repertório avança por diferentes capítulos dessa trajetória. "The Number of
the Beast", "Powerslave", "2 Minutes to Midnight", "Rime of the Ancient Mariner" e "Seventh Son of a Seventh Son" demonstram a diversidade de caminhos que o Maiden
percorreu sem abandonar sua identidade.
A
presença de "The Trooper", "Hallowed Be Thy Name" e "Iron Maiden" reforça a força de
um repertório que atravessou gerações. São músicas que dispensam apresentações,
mas que continuam encontrando novas maneiras de mobilizar o público quando
executadas diante de milhares de pessoas.
E
há Bruce Dickinson. Dono de uma presença de palco que dispensa maiores
explicações, o vocalista não se limita a interpretar as canções: conduz o
espetáculo e estabelece uma conexão permanente com a plateia. Em "Fear of the
Dark", regendo o gigantesco coro que acompanhava cada passagem, protagonizou um
dos momentos mais marcantes da noite.
É
uma daquelas cenas em que a dimensão do Iron Maiden se torna evidente. A música
deixa de pertencer exclusivamente ao palco e passa a ser compartilhada por toda
a arena.
O
bis, com "Aces High", "Fear of the Dark" e "Wasted Years", fecha a apresentação com
uma sucessão de clássicos. A escolha de "Always Look on the Bright Side of Life",
do Monty Python, para o áudio de encerramento acrescenta uma dose de humor à
despedida.
Do
primeiro acorde ao último momento, o show foi impecável. Para mim, não houve
espaço para decepção: a seleção do repertório, a execução e a capacidade de
envolver o público fizeram da apresentação uma experiência memorável.
Quando
a música encontrou a política
Mas
aquela noite não se limitou ao que acontecia no palco. São
Paulo vivia um domingo decisivo, marcado pelo segundo turno das eleições
presidenciais. Mesmo em meio à expectativa pelo Iron Maiden, era impossível
ignorar a tensão política que atravessava o país e também se fazia sentir na
arquibancada.
Enquanto
a apuração avançava, Lula passou à frente na contagem dos votos. Parte do
público reagiu com gritos de hostilidade. Um sujeito que estava ao meu lado
resumiu sua reação em uma palavra: “Fodeu”.
A
cena foi reveladora de como a disputa política ultrapassava os limites das
telas e dos locais de votação. A polarização também estava ali, entre pessoas
reunidas para celebrar uma das maiores bandas da história do heavy metal.
Então
aconteceu algo que tornou aquela noite ainda mais particular para mim. Quando
começou "The Number of the Beast", veio a confirmação do resultado: Luiz Inácio
Lula da Silva estava reeleito presidente da República Federativa do Brasil.
A
coincidência entre a música e a notícia não poderia ter sido mais marcante.
Enquanto o Iron Maiden executava um de seus maiores clássicos, eu acompanhava a
confirmação de um resultado eleitoral que aguardava com enorme expectativa.
Não
se trata de atribuir qualquer significado político à escolha daquela música
pela banda. O repertório estava definido, e o espetáculo seguia seu curso. O
significado nasceu do encontro entre o que acontecia no palco e o momento
histórico vivido fora dele.
Para
quem estava ali, acompanhando a apuração em meio à chuva, aos gritos e à
ansiedade, aquela passagem ficará associada para sempre à apresentação.
O
espetáculo continua
Há
mais de três décadas, desde minha primeira experiência ao vivo com o Iron
Maiden, acompanho as transformações de uma banda que atravessou diferentes
formações, mudanças de integrantes e gerações de fãs. Desta vez, a presença de
Simon Dawson acrescentou um elemento novo a essa história pessoal.
A
turnê Run for Your Lives é, acima de tudo, uma celebração do repertório e da
trajetória do Maiden. Com uma seleção que resgata os primeiros anos e avança
por diferentes fases de sua carreira, o espetáculo reafirma a força de canções
que continuam vivas muito depois de seu lançamento.
Mas,
para mim, a noite de 25 de outubro terá também outra lembrança: a de um show
que acompanhei do início ao fim, enquanto o país atravessava um momento
decisivo de sua história política.
Depois
da apresentação, ainda houve tempo para a saideira no Resistência Pub, na
Mooca, sob uma enorme bandeira antifascista. Um encerramento coerente com o
clima daquele domingo e com a importância que a política tem na minha maneira
de enxergar o mundo.
O
Iron Maiden entregou um espetáculo perfeito. A eleição teve seu desfecho. E São
Paulo, apesar da chuva, foi cenário de uma noite que ficará guardada na
memória.
Up
the Irons!