Em disco menos agressivo, QOTSA ainda se mostra uma banda sem igual



Queens Of The Stone Age
Perfecth
⭐⭐⭐⭐✰ 4/5

Por  Lucas Scaliza 

O nono disco do Queens Of The Stone Age troca o perigo pelos detalhes e ainda assim não soa como nenhuma outra banda em 2026.

Confesso, eu tinha medo de Perfecth. Depois de Alive in the Catacombs (o registro acústico que o Queens of the Stone Age gravou e filmou nas catacumbas de Paris, para uma plateia de caveiras), parecia provável que o nono disco da banda saísse sóbrio demais, acústico demais, e mais próximo de uma coleção de lados B do que de um álbum principal. Ainda assim, poderia ser um acréscimo digno à discografia. 

Na primeira audição de Perfercth, porém, ficou claro que não era nada disso: o DNA do QOTSA continua intacto. O que muda é que a banda explora outras formas de fazer canções e de expressar sua identidade.

Não que o subsolo parisiense não tenha deixado marcas. Segundo o baterista Jon Theodore, Josh Homme quase morreu ao fim daquelas filmagens, numa fase em que o vocalista também lidava com um diagnóstico de câncer. As sessões de Perfecth começaram depois da turnê do projeto e passaram por Nova Orleans, Joshua Tree e Los Angeles, com produção do próprio Homme e do baixista Michael Shuman. Até o título carrega essa desconfiança: para Homme, "perfeito" é uma palavra desonesta, porque perfeição não existe. Então ele quebrou a palavra e inventou outra.



Uma banda exploradora

"Insignificant Other", "Where the Goth Girls At?", "Mono" e "Sunday" têm, cada uma, seu próprio charme, e juntas mostram uma banda muito mais exploradora, sem medo de combinar arranjos bonitos e um trabalho cuidadoso de vozes com esquisitices. Várias delas têm também uma boa história. "Insignificant Other", que Homme considera o centro do disco, nasceu como um esboço à meia-noite, no último dia das sessões de In Times New Roman... (2023), e foi registrada no segundo de apenas dois takes (e soa como uma faixa muito mais trabalhada do que isso). "Sunday" foi coescrita com Iggy Pop e saiu originalmente em Post Pop Depression (2016), disco do qual Homme foi peça central; aqui ela ganha a versão do Queens, com um pé no soul do David Bowie dos anos 1970.

"Mono" é a faixa que mais divide a crítica. A Clash a apontou como a melhor do álbum, uma peça para ouvir de fones por causa do trabalho de panorâmica, com um final digno de filme de terror. Já a Louder ouviu ali uma viagem psicodélica que descaminha para o barulho. A divergência diz muito sobre Perfecth: as esquisitices fazem parte do projeto, não são acidentes (e eu sou do time que adorou "Mono", só para ficar registrado).


É preciso dizer com clareza: Perfecth não é um disco potente de rock'n'roll, com distorção sempre presente e alta rotação. Isso ele realmente não é. O senso de perigo que a banda cultivou, sobretudo nos primeiros discos, está bem diluído aqui. O arroubo sonoro do desert rock só volta com força total no último minuto de "Run Away From the Mob", justamente a faixa em que Dave Grohl assume a bateria, em sua única participação no disco.


Mas é aquela coisa: não é porque não é mais do mesmo que não tem valor. Perfecth consegue ser muito equilibrado e divertido, e está recheado de pequenos momentos e detalhes que criam uma experiência capaz de separar o disco — e o QOTSA — de outras bandas e álbuns lançados neste ano. O que essa banda tem de único, para além do peso, está muito bem preservado em seu disco menos pesado.

O lado crooner de Josh Homme, bastante explorado na última turnê, brilha em "Easy Street". A faixa traz a cantora country Nikki Lane — Homme tocou e produziu o disco dela de 2022, Denim & Diamonds — e é o momento mais leve do álbum, com palmas, tom maior, falsete e uma letra cheia de ironia e jogos de palavras. Leve, mas não vazia: é uma canção que diverte na primeira audição e continua rendendo nas seguintes.


Mas pegue "Phantom Limb" como exemplo. A faixa é pop rock de rádio, perfeita para um filme feel good. Até a metade. Quando entra o teclado de Dean Fertita, doce e assombrado ao mesmo tempo, a música ganha uma nova dimensão de textura e sensibilidade, sem precisar se transformar por completo. E aquele primeiro som de trem chegando em "It's Only Love", que abre o disco: é a gravação de um trem real ou um instrumento de sopro? Acho que não quero saber a resposta.

Momentos assim são os mais interessantes de procurar e notar em Perfecth. Não por acaso, várias resenhas internacionais bateram na mesma tecla: é um disco que até fisga logo de cara, mas cresce a cada nova audição.

Para ouvir de perto


Perfecth é um disco perfeito para ser ouvido ao vivo em lugares menores, com a banda mais próxima do público. Diversas músicas vão funcionar bem em palcos de festivais e estádios, ao lado dos clássicos do QOTSA, mas o trabalho, como um todo, evoca uma intimidade maior entre banda e plateia.

O teste brasileiro, porém, vai ser em escala gigante. O Queens of the Stone Age é um dos headliners do Lollapalooza Brasil 2027, edição que celebra os 15 anos do festival no país, e sobe ao palco no sábado, 20 de março, no Autódromo de Interlagos (no mesmo dia do The Killers). É também a volta de uma banda que estava escalada para o The Town 2023 e cancelou a apresentação por recomendação médica. Resta saber quanto de Perfecth vai caber no setlist, e quanto do seu assombro e suas esquisitices vão soar perfeitamente no espaço superaberto de Interlagos.

Lucas Scaliza

Jornalista, músico sem banda e estrategista de marca. Não abre mão de acompanhar os sons do agora. Joga tarô e já foi host de podcast.

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