| Foto: Adriana Vieira / Rock On Board |
A passagem do Sepultura pela Cidade do Rock teve contornos de celebração solene e despedida histórica. Diante de uma recepção fervorosa da plateia, o quarteto subiu ao palco para realizar a sua última apresentação na trajetória do festival, carregando nas costas quatro décadas de serviços prestados ao peso e à música pesada.
O peso cultural daquele momento era incontestável. Construindo uma estrada sólida de 42 anos de história, o grupo mineiro não apenas colocou o Brasil no mapa do metal mundial, como redefiniu parâmetros sonoros extremos que influenciaram gerações inteiras de bandas nos quatro cantos do planeta.
O clima entre os presentes foi inevitavelmente agridoce. Assistir ao adeus definitivo de uma instituição desse calibre no festival em que já protagonizou momentos memoráveis gerou um nó na garganta, balanceado pela euforia pura de ver quatro músicos executando som pesado com precisão cirúrgica.
A devoção da plateia transpareceu de forma constante na comunicação. Praticamente a cada término de música ou pausa para afinação, o coro uníssono gritando "Sepultura" ecoava alto pela estrutura do evento, reforçando a conexão visceral do público nacional com seus maiores ícones do gênero.
| Foto: Adriana Vieira / Rock On Board |
O grande elemento divisor da noite esteve na concepção do repertório. Em vez de recorrer ao caminho confortável dos maiores sucessos de rádio da carreira, a banda optou por montar um show único e exclusivo, desenhado inteiramente como uma grande homenagem a Derrick Green, focado exclusivamente na era capitaneada pelo vocalista.
Essa decisão deixou o frontman visivelmente emocionado e radiante no tablado. Ao ser anunciado pelos companheiros como o grande homenageado daquela noite histórica, Derrick foi prontamente ovacionado pela multidão, recebendo um reconhecimento público pelo trabalho incansável de quase três décadas à frente dos microfones do grupo.
A escolha artística trouxe um frescor impressionante ao setlist. O repertório passeou por fases consistentes e técnicas da discografia recente, contemplando inclusive as quatro faixas na íntegra do último EP da banda (The Cloud of Unknowing 2026), material gravado já com a pegada precisa e veloz de Greyson Nekrutman nas baquetas.
| Foto: Adriana Vieira / Rock On Board |
Houve espaço também para momentos cênicos atípicos e marcantes. Quebrando a dinâmica usual de apresentações de som extremo, Andreas Kisser pintou uma tela ao vivo no meio do palco durante a apresentação, trazendo um respiro plástico e conceitual que surpreendeu os espectadores.
Apesar de a execução ter sido impecável e de ter sido artisticamente fascinante ver a banda arriscar um formato alternativo ao "usual", a sensação final carregou um traço de melancolia. Para muitos que estavam ali vivendo aquela última dança, foi um tanto quanto triste não poder cantar clássicos definitivos que moldaram a infância e a juventude de várias gerações em um show de despedida.
Ainda assim, o Sepultura encerrou sua história no Rock in Rio com a coragem que sempre pautou suas escolhas. Ao recusar o papel de mera atração nostálgica e exaltar o presente em sua última aparição no evento, a banda provou que sua relevância nunca esteve presa ao passado, despedindo-se com altivez, peso e a admiração irrestrita de seus fãs.
