Black Pantera faz história no Rock in Rio com show avassalador e aula de representatividade

Foto: Adriana Vieira / Rock On Board

O Black Pantera provou no Rock in Rio por que se consolidou como uma das maiores forças da música pesada contemporânea. Subindo ao Palco Sunset para a sua terceira passagem na história do festival, o trio mineiro entregou uma performance avassaladora, daquelas que escancaram a maturidade de quem finalmente ocupa os espaços de protagonismo que construiu por direito.

Embora escalados para o Sunset, a grandiosidade e a autoridade demonstradas deixaram a impressão nítida de um espetáculo com porte e ambição dignos de Palco Mundo. É revigorante e necessário ver nomes dessa geração mais recente assumindo posições centrais em eventos dessa magnitude, mostrando que a renovação do rock nacional é sólida, urgente e tem público de sobra.


O show foi um marco incontestável de representatividade no festival. Além do discurso racial e social contundente que sempre pautou a trajetória dos irmãos Charles Gama e Chaene da Gama ao lado de Rodrigo Augusto, a banda ampliou essa voz ao convidar a Nervosa para dividir o palco, celebrando a força e o peso de um grupo composto inteiramente por mulheres.

A resposta da pista foi imediata, mostrando que a banda tinha a plateia na palma da mão do primeiro ao último acorde. Mesmo quando a chuva caiu com intensidade sobre a Cidade do Rock, ninguém arredou o pé; a água serviu apenas como combustível para uma sequência impressionante de mosh pits que se espalharam por quase toda a extensão do gramado.

Foto: Adriana Vieira / Rock On Board

A energia do público ganhou contornos ainda mais catárticos com elementos visuais e rituais coletivos. Além de sinalizadores acesos no meio da fumaça, os fãs organizaram a famosa remada viking, sentando-se em filas para remar no ritmo pesado e cadenciado dos riffs.

O frescor sonoro ditou o tom do repertório. O grupo apostou nas faixas de Continental, álbum lançado há apenas duas semanas, testando a força de suas novas composições ao vivo. Entre os destaques dessa safra esteve "Obsoleto", faixa gravada originalmente em estúdio em parceria com Derrick Green, do Sepultura, que soou gigantesca no palco.

Foto: Adriana Vieira / Rock On Board

A dinâmica com os convidados foi generosa e muito bem orquestrada. Em um primeiro momento, Charles e companhia puxaram um som conjunto com Prika Amaral nos vocais, incendiando a conexão entre as duas bandas e arrancando gritos dos presentes.

Logo em seguida, o Black Pantera deu uma aula de respeito artístico e companheirismo: os integrantes deixaram o palco por completo para que a Nervosa tocasse suas próprias músicas sozinhas. A postura evidenciou que a intenção não era tratar as musicistas como mera participação coadjuvante, mas sim oferecer uma vitrine de igual para igual.

No trecho final, as duas bandas se reuniram novamente para transformar o palco em uma verdadeira celebração coletiva. A sintonia entre os músicos era visível, com ambos os grupos visivelmente à vontade e se sentindo em casa diante de uma massa que pulava sem parar.

Houve tempo também para reverenciar a história da música brasileira. O set abriu espaço para uma homenagem certeira a Rita Lee por meio de uma versão pesada de "Obrigado Não", unindo a rebeldia histórica do rock nacional ao discurso antirracista e antifascista do trio.

A passagem do Black Pantera pelo Rock in Rio selou um dos momentos mais vibrantes e significativos de todo o evento. Com técnica impecável, carisma avassalador e consciência do seu papel cultural, a banda não apenas dominou o Palco Sunset, mas cravou seu nome entre os grandes destaques da edição.

Carol Goldenberg

Advogada, jornalista musical e guitarrista, mas acima de tudo, amante da música desde sempre. Roadie, guitar tech e exploradora de shows e festivais pelo mundo, vivendo cada acorde como se fosse único e cada plateia como um novo universo.

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