Laufey abre um portal musical-temporal e traz a bossa de volta pra casa

Foto: Adriana Vieira / Rock On Board

Houve um momento, mais ou menos na metade do show, em que o Rio inteiro pareceu caber num violão. Laufey já tinha dispensado os dançarinos, já tinha encolhido a banda a um quinteto de jazz e agora estava sozinha no centro do palco para cantar "Perdido de Amor", de Luiz Bonfá, em português. Terminou pedindo aprovação ao público, com a insegurança de quem sabe exatamente onde está pisando. Cantar bossa no Rio de Janeiro é uma prova que ela não precisava prestar, e prestou mesmo assim.

A noite toda parecia construída para desembocar ali. Num festival que se vende há quatro décadas pela quantidade de decibéis, a programação de 7 de setembro foi montada quase inteira sobre o volume menos alto: Vanessa da Mata com Rubel abrindo o Sunset; Luísa Sonza com Roberto Menescal poucas semanas depois de lançar um disco chamado Bossa Sempre Nova; Roupa Nova com Guilherme Arantes no fim da tarde e Gilberto Gil a noite. Quando Laufey entrou, o terreno estava preparado havia sete horas.

Foto: Adriana Vieira / Rock On Board

Islandesa-chinesa de 27 anos, formada em violoncelo clássico, dona de dois Grammys de Melhor Álbum Vocal de Pop Tradicional, Laufey construiu a carreira inteira sobre um vocabulário que nasceu a menos de 30 quilômetros da Cidade do Rock. Repete em entrevistas que cresceu ouvindo bossa porque o pai colocava os discos em casa. Do palco, avisou que era sua primeira vez no Rio, a cidade que eternizou o estilo pelo qual ela é conhecida.

No primeiro ato do show, Laufey apareceu de vestido longo vermelho, cenário e corpo de baile. Ela abriu com "Lover Girl", "Silver Lining" e "Falling Behind" num registro que estava mais para musical da Broadway do que para clube de jazz. Não demorou muito para ela descer do palco e cantar junto à grade — uma diva acessível? — e voltou embrulhada numa bandeira do Brasil com o próprio rosto estampado.

Foto: Adriana Vieira / Rock On Board

No segundo ato, o balé sumiu, o cenário recuou e sobrou um quinteto no centro do palco — voz, baixo acústico, violão, piano e bateria. "Fragile", "Valentine" e "Dreamer" nessa formação são o coração do show. É também onde fica claro que Laufey não está fazendo pastiche: a levada, o espaço entre as frases, o canto quase falado sem vibrato de exibição, tudo vem de uma escuta estudada de João Gilberto, não de uma playlist de "jazz para relaxar". Foi logo depois disso que ela pegou o violão e tocou Bonfá sozinha.

"Madwoman", "Promise", "From the Start" — a música que a plateia sabia inteira — e "Goddess" como encerramento. Foram três atos e 14 canções, contra os 5 atos e 25 faixas do show completo da turnê. No entanto, o público saiu satisfeito. Cantaram todas as faixas, conheciam cada momento do show, entendiam muito bem a artista no palco. Não faltou conversa da cantora com as pessoas e coros de "Laufey, eu te amo".

Foto: Adriana Vieira / Rock On Board

Fica a impressão mais intrigante do show. Os timbres, o modo de cantar, as melodias, as harmonias: tudo em Laufey soa como coisa de outra época. E no entanto é uma artista compondo agora, para um público muito jovem, que chega cedo para pegar lugar na grade e sabe as letras de cor. Ela não faz nostalgia. Faz portal musical-temporal. A manchete de 7 de setembro será sobre Elton John, e com razão. Mas o argumento do dia foi construído no Sunset, por uma islandesa que veio ao Rio devolver com muita graça algo que sempre foi daqui.

Lucas Scaliza

Jornalista, músico sem banda e estrategista de marca. Não abre mão de acompanhar os sons do agora. Joga tarô e já foi host de podcast.

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