Elton John faz show histórico no Rock in Rio: “Sim, nós vimos isso”

Foto: Adriana Vieira / Rock On Board

Desde o início do dia, a Cidade do Rock refletia que aquela não seria uma noite qualquer. Havia algo diferente no ar. Pessoas de todas as idades, muitas caracterizadas como Elton John ou simplesmente vestidas para uma celebração histórica, circulavam pelo festival com a sensação de que estavam prestes a testemunhar algo que talvez não se repita.

Afinal, essa é provavelmente uma das últimas oportunidades de assistir ao vivo a uma lenda da música. E Elton John não é apenas uma das maiores estrelas do rock. É um artista de biografia singular. Autodidata, precursor, dono de um arsenal de canções atemporais e, acima de tudo, um sobrevivente. Um daqueles artistas que atravessaram gerações e chegaram ao outro lado carregando uma obra que já não pertence apenas a ele, mas à memória afetiva de milhões de pessoas.

Quando as primeiras notas de “Funeral for a Friend / Love Lies Bleeding” ecoaram na Cidade do Rock, ficou claro que a noite começava em grande estilo. Não poderia haver abertura melhor. Estamos falando de uma das músicas mais rock and roll de sua discografia, com seus dez minutos de epopeia quase progressiva. Sim, embora os mais xiitas possam contestar, este é um show de rock.

Foto: Adriana Vieira / Rock On Board

Em seguida, a sensacional “Bennie and the Jets”, do fundamental Goodbye Yellow Brick Road, surgiu imersa em solos de piano que pareciam lembrar ao público, logo nos primeiros minutos, por que aquele homem diante de nós se tornou uma lenda.

Mesmo com o histórico de saúde debilitada, Elton John se mostrou disposto, simpático e com a voz preservada dentro do que seus 79 anos permitem. E foi justamente sua voz que começou a derrubar alguns dos temores que pairavam sobre a apresentação. A variação de timbres em “And I Guess That’s Why They Call It the Blues” impressionou.

Mas há momentos em que uma resenha deixa de ser apenas sobre música. Foi impossível não se emocionar com os primeiros acordes de “The One”. E, quando surgiram as primeiras notas de piano de “Tiny Dancer”, veio aquela sensação de reconhecer algo que sempre esteve presente em nossas vidas. A clássica canção de Madman Across the Water, de 1971, atravessou décadas para chegar à Cidade do Rock intacta. Aliás, é impossível escutá-la e não lembrar da inesquecível cena do ônibus em Quase Famosos.

Foto: Adriana Vieira / Rock On Board

Raridade em seus shows, “Sacrifice” embalou casais de todas as idades na Cidade do Rock. Foi um daqueles momentos em que o festival, por alguns minutos, pareceu diminuir o volume do mundo para deixar apenas a música falar. Já “Rocket Man” provocou uma cantoria geral e contou com o inevitável termômetro dos novos tempos: milhares de celulares erguidos, registrando cada segundo. A música ganhou uma versão estendida, evidenciando também a ótima banda de apoio, que segura a onda e o tom de maneira sublime.

Em “Levon”, veio mais um atestado de que a voz estava em dia, com alternância de tons e utilização de drives. A canção ainda descambou para uma jam rock de primeiríssima qualidade, com solos percussivos à la Carlos Santana. E a capacidade vocal de Sir Elton John ainda viria a surpreender mais uma vez em “Candle in the Wind”, executada com uma força impressionante.

Foto: Adriana Vieira / Rock On Board

Mas não faltaram as baladas. “Sorry Seems to Be the Hardest Word” e “Someone Saved My Life Tonight”, esta última acompanhada no telão por imagens dos personagens do álbum Captain Fantastic and the Brown Dirt Cowboy, trouxeram momentos de maior introspecção. Em uma noite tão carregada de simbolismo, era impossível não olhar para o palco e pensar em tudo o que aquele homem já viveu para chegar até ali.

E o que foi a execução de “Have Mercy on the Criminal”? Guitarra pesada, levada meio bluesy e uma interpretação de Elton John que mostrou, mais uma vez, o tamanho do artista que estava diante do público. “Goodbye Yellow Brick Road” surgiu épica e já preparou a Cidade do Rock para a pista de dança em “Sad Songs (Say So Much)”.

Já perto do final, dois momentos icônicos. Primeiro, “Don’t Let the Sun Go Down on Me”, que fez George Michael voltar por alguns minutos ao Rock in Rio, e “Crocodile Rock”, dedicada aos fãs brasileiros no telão. “Disse sim ao Rock in Rio, pois precisava agradecer”, afirmou Elton.

No primeiro encerramento, o rock classudo de “Saturday Night’s Alright for Fighting” abriu caminho, claro, para “I’m Still Standing”, que há pouco tempo voltou a fazer sucesso entre as crianças por figurar no filme Sing. A música foi acompanhada por uma verdadeira chuva de papéis picados, transformando a Cidade do Rock em alto apoteótico, como deve ser.

Foto: Adriana Vieira / Rock On Board

No bis, a pista de dança ficou liberada com “Cold Heart”, acompanhada por imagens de Dua Lipa no telão, em uma versão contemporânea do clássico que apresentou Elton a uma nova geração. “Essa música é muito popular no Brasil”, disse. E então veio “Skyline Pigeon”, preparando o terreno para aquilo que seria um dos momentos mais emocionantes da noite: “Your Song”. Bastaram as primeiras notas para que milhares de vozes se juntassem à de Elton John. Quantas trilhas sonoras de vidas ele já assinou?

É um privilégio indescritível para qualquer mortal poder ver as mãos mágicas de Elton John, aos 79 anos de idade, esmerilhando seu piano e sua voz alcançando notas com uma destreza quase sobre-humana. Mas é ainda mais especial testemunhar isso sabendo que estamos diante de um artista que não precisa mais provar absolutamente nada. Ele já fez tudo.

Criou clássicos. Quebrou barreiras. Sobreviveu a excessos, mudanças de época e transformações da indústria. Influenciou gerações.

Talvez daqui a alguns anos, quando alguém perguntar como foi ver Elton John pela última vez ao vivo, quem que esteve na Cidade do Rock, vivendo um dos maiores shows que passou pelo Rock in Rio poderá contar essa história.

Sim, nós vimos isso.
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Bruno Eduardo

Jornalista e repórter fotográfico, é editor do site Rock On Board, repórter colaborador no site Midiorama e apresentador do programa "ARNews" e "O Papo é Pop" nas rádios Oceânica FM (105.9) e Planet Rock. Também foi Editor-chefe do Portal Rock Press e colunista do blog "Discoteca", da editora Abril. Desde 2005 participa das coberturas de grandes festivais como Rock in Rio, Lollapalooza Brasil, Claro Q é Rock, Monsters Of Rock, Summer Break Festival, Tim Festival, Knotfest, Summer Breeze, Mita Festival entre outros. Na lista de entrevistados, nomes como Black Sabbath, Aerosmith, Queen, Faith No More, The Offspring, Linkin Park, Steve Vai, Legião Urbana e Titãs.

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