| Reprodução Multishow |
Demi já se sente em casa. A fase anterior foi roqueira, de guitarra pesada e catarse, e foi com ela que a cantora passou pelo Brasil no The Town de 2023. O disco mais recente, lançado no fim do ano passado, desmonta aquele projeto e assume de novo o pop dançante. Depois de uma década em que praticamente tudo o que ela lançou foi recebido como biografia, a proposta agora é que a música volte a ser só música.
O palco foi construído sobre essa premissa, e de forma radical. Eram Demi, os bailarinos, as luzes e um cenário industrial escuro. Fora isso, só os enormes telões que completam o Palco Mundo. Demi não usou nenhuma peça de vídeo, nenhum daqueles truques de câmera em tempo real que outros headliners desta edição usaram. A ausência chama atenção justamente porque esses recursos cairiam bem no repertório dela. Mas sem eles, o público fica preso ao talento da artista e ela sustentou tudo praticamente sozinha.
Sustentou porque a voz continua sendo o ativo mais sólido do pop americano da sua geração. Mais de uma hora e sem um deslize de afinação: notas altas, notas longas, melismas, vibratos, o arsenal completo entregue por uma cantora que nunca economizou e que claramente não iria fazer isso agora. Há coreografia com os bailarinos, mas ela não usa a dança como desculpa para tirar o microfone da boca. Quem foi ao Rock in Rio para conferir se a Demi Lovato dos discos existe fora do estúdio saiu sem nada para reclamar.
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"Heart Attack" foi um dos pontos altos justamente pela potência máxima que Demi atinge, aproveitando sua disposição para cantar ao vivo e o som forte de balada. E aí veio "Skyscraper", que é outra conversa. Uma das faixas mais queridas do catálogo entre os fãs, e o que aconteceu na Cidade do Rock foi aquele fenômeno raro em que o público canta tão alto quanto quem está no palco, verso por verso, sem atropelar. Ela guardou "Cool For The Summer" para o final e teve a brasileira Pabllo Vittar no palco fazendo dueto com ela. A interação das duas e a combinação de vozes funcionou, sem histrionismos e sem exageros de participação.
Houve também a parte impagável. O público começou um coro chamando a cantora de "gostosa", e ela disse: "Então, na verdade eu me casei desde a última vez que estive aqui." O que ninguém esperava é que, na música seguinte, ela soltasse um "gôshtôsa" no meio do verso, produzindo um daqueles momentos de humor involuntário e surpresa.
Ela contou ainda que aquele era seu vigésimo oitavo show em solo brasileiro e perguntou se já podia se mudar para cá. De qualquer forma, o carisma não foi negado em momento nenhum.
Sem pirotecnias e sem extravagâncias, o show de Demi Lovato foi direto ao ponto e eficiente. É preciso reconhecer o que a escolha tem de corajosa num festival onde a régua da produção subiu tanto. A cantora apostou que bastava ela cantando e deu certo. Talento, quando existe de verdade e ao vivo, não precisa de pirotecnias para se provar.
