Como a história de qualquer banda, a jornada do Sepultura teve altos e baixos nos últimos 40 anos. No entanto, é curioso que uma das maiores bandas brasileiras de todos os tempos esteja encerrando as suas atividades justamente quando parece muito viva. O que o show da banda no Rock in Rio Lisboa mostrou neste domingo, no Parque Tejo, é que o Sepultura deixará saudades. Não apenas pela história que construiu no heavy metal como pelos sinais que a banda indicou sobre o seu som no quase contemplativo EP The Cloud of Unknowing, lançado em abril deste ano.
Aliás, o clima crepuscular do EP combina com esta derradeira fase da banda, que, conforme informou no comunicado de 2023, quando anunciou a turnê de despedida Celebrating Life Through Death, estava fazendo uma espécie de eutanásia.
Atualmente formado por Derrick Green (vocal), Andreas Kisser (guitarra), Paulo Jr. (baixo) e Greyson Nekrutman, baterista que entrou após a surpreendente saída de Eloy Casagrande para o Slipknot dias antes do início da turnê de despedida, o Sepultura fez do seu último show em Portugal uma viagem pela história da banda.
O set list passeou pelo trash metal que o consagrou, pela influência da percussão brasileira que deu novas camadas ao som da banda a partir de álbuns como Chaos A.D (1993) e Roots (1996) e chegou até às canções existenciais de “The Cloud of Unknowing” (“The Place” e a ótima “Beyond the Dream”).
- É um privilégio e uma honra fazer o nosso último show em Portugal. Obrigado por estarem nessa noite especial – agradeceu Andreas Kisser.
Além dos clássicos já conhecidos do grande público, como “Refuse/Resist” e “Territory”, o Sepultura resgatou para esta turnê algumas canções que não vinham fazendo parte do repertório em anos anteriores. É o caso de “Escape to the Void”, do álbum Schizophrenia (1987), anunciada por Kisser como um exemplo do metal old school de Belo Horizonte.
Outra escolha interessante foi a presença da instrumental “Kaiowas”, do álbum Chaos A.D., que representa bem a influência da percussão brasileira no som da banda.
A se lamentar apenas a ausência de alguma canção da fase mais recente da banda, dos bons álbuns Machine Messiah (2017) e Quadra (2020). Entretanto, não havia tempo para incluir mais canções de outros momentos da banda. O Sepultura tinha apenas uma hora para tocar no palco Music Valley e era a última atração antes do Linkin Park, subir ao Palco Mundo, o que fez a banda tocar parte do show durante o espetáculo de fogos de artifício que acontece antes da última atração. A proximidade entre um show e outro ao longo do festival fez com que parte do público perdesse as últimas canções do Sepultura ("Ratamahatta" e "Roots Bloddy Roots"). As últimas canções de uma longa jornada que agora ganha um ponto final em Portugal.
Agora o Sepultura segue nos próximos meses em turnê por mais alguns países da Europa antes do último show, em novembro, no Pacaembu, em São Paulo. Serão as últimas oportunidades de ver a banda ao vivo.O jornalista Marcelo Alves, correspondente do Rock On Board em Portugal, acompanhou o show presencialmente no Parque Tejo, em Lisboa.

