Inocentes: O tempo confirmou “Antes do Fim”

Foto: Caru Leão

Quando Inocentes lançou “Antes do Fim”, em 2024, havia uma sensação inevitável de estranhamento no ar. Uma banda historicamente associada ao peso, à urgência e à tensão do punk paulista surgia em formato acústico, revisitando a própria trajetória com novos arranjos, novos silêncios e outra forma de intensidade.

Na época, parecia importante defender que aquele projeto não era um desvio de rota, tampouco um gesto nostálgico ou protocolar. Pelo contrário: havia algo profundamente coerente naquele disco. Talvez porque poucas coisas sejam mais punk do que desafiar a expectativa criada em torno de si mesmo.

Na resenha publicada naquele momento (LEIA AQUI), a percepção era justamente essa: “Antes do Fim” não soava como curiosidade passageira, mas como um trabalho legítimo, maduro e artisticamente relevante dentro da trajetória da banda.

Dois anos depois, a chegada de “Antes do Fim Deluxe” reforça exatamente essa impressão.

A nova edição não reescreve o álbum original. Também não funciona como mero apêndice comercial pensado para alimentar plataformas digitais. O que ela faz é revelar a dimensão completa de um projeto que, desde o início, parecia maior do que o formato físico permitia comportar.

O próprio Clemente Nascimento explica isso ao afirmar que a limitação do vinil obrigou a banda a segurar parte do repertório acústico registrado durante as sessões originais. Isso muda completamente a percepção sobre as oito faixas agora lançadas: elas não aparecem como sobras de estúdio, mas como fragmentos ausentes de uma obra concebida de maneira mais ampla desde sua origem.

E talvez seja justamente o tempo o elemento que mais fortalece “Antes do Fim”.

O que em 2024 poderia soar como ousadia isolada agora ganha aspecto de permanência. O acústico deixou de ser curiosidade paralela e passou a ocupar um espaço legítimo dentro da própria identidade da banda. Ao longo dos últimos meses, o Inocentes levou esse repertório a diferentes palcos, mostrando que a proposta nunca existiu apenas como experimento de estúdio, mas como uma nova possibilidade de interpretação para músicas que seguem vivas, relevantes e inquietas.

A apresentação marcada para o Blue Note São Paulo surge agora menos como estreia e mais como celebração de um projeto que encontrou continuidade artística muito além do impacto inicial causado por seu anúncio.

Existe também um componente simbólico muito forte na escolha de “Quanto Vale a Liberdade”, clássico do Cólera, como faixa de divulgação desta nova edição.


A canção atravessa décadas sem perder contundência. Surgida originalmente na coletânea “SUB”, organizada por Redson em 1983, revisitada pelo próprio Inocentes em “O Barulho dos Inocentes”, ela reaparece agora em versão acústica carregando não apenas memória, mas continuidade histórica. É como se diferentes gerações do punk paulista voltassem a dialogar entre si através da mesma pergunta que segue absolutamente atual: quanto vale a liberdade?

E talvez exista algo bonito nisso tudo.

Porque “Antes do Fim” parecia falar, em 2024, sobre maturidade artística. Em 2026, passa também a falar sobre permanência.

Não a permanência confortável de bandas que sobrevivem apenas da própria história, mas a permanência inquieta de artistas que seguem reinterpretando a si mesmos sem abandonar a urgência que os trouxe até aqui.

Ouça “Antes do Fim Deluxe” no seu tocador favorito: CLIQUE AQUI.

Acesse a playlist completa no Youtube: CLIQUE AQUI.

Foto: Caru Leão

Vá ao show:

12 de maio de 2026 às 22h30

Blue Note São Paulo:
Avenida Paulista 2073 - 2º Andar - Consolação - São Paulo/SP



Ricardo Cachorrão

Ricardo “Cachorrão” é o velho chato gente boa que não pede licença pra gostar de música. Viciado em rock and roll, formou opinião longe de rádio, longe de MTV e perto demais de pilhas de discos e revistas. Tem alergia a banda cover, respeito profundo por discos obscuros do Frank Zappa e ainda sai sorrindo de um show do Iron Maiden — mas é no calor, no barulho e no caos dos buracos punk da periferia que se sente vivo de verdade. Já escreveu para Rock Brigade, Kiss FM, Portal Rock Press e a Revista Eletrônica do Conservatório Souza Lima. Está no Rock On Board desde o começo — e não pretende sair tão cedo.

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