Asfixia Social – “Mess Bigger”: Resistência em estado bruto

Foto: Divulgação

Eu pretendia escrever sobre a apresentação devastadora de The Varukers em São Paulo, com o Cine Joia repleto de punks de várias gerações vibrando com a apresentação raivosa deste verdadeiro ícone do punk/hardcore mundial, desde 1979 na estrada, da Inglaterra para o mundo.

Sobre a força das Ratas Rabiosas, a violência sonora do Eskröta e a presença absurda de palco do Asfixia Social.

Mas a verdade é que saí da noite pensando em outra coisa: o novo álbum “Mess Bigger”, que recebi em primeira mão do Kaneda, voz, trumpete e trombone do ASFIXIA SOCIAL.

Eu já vinha acompanhando os primeiros singles do álbum e já tinha a certeza de que estava para chegar algo forte, contundente, um verdadeiro soco no estômago, e é exatamente isso.

O disco abre com “Revolutionary Rapport”, terceiro single apresentado pela banda, um grito de protesto e chamado de mobilização, contra tudo o que está errado, o colapso social, ambiental e político que assola todo o planeta.

Silent Destruction” vem na sequência e trás uma levada de reggae ao mesmo tempo em que em que a guitarra de Thiko Garcia não esconde suas origens no heavy metal, pesada, suja e bem tocada.

A próxima é “Baião de Dois” que trás a banda de volta ao português, com vocais divididos entre Kaneda e Thiko, em outro grito de protesto, fala de seca, fome, talvez, minha faixa preferida.

Capa do Álbum

Chegamos na faixa título, “Mess Bigger”, outra porrada, e aqui vale falar da capa do álbum e algo que ela transmite muito bem: o disco trabalha tensão social como estado permanente. Não como slogan vazio. Há uma sensação de explosão iminente na arte — microfone apontado como arma, fumaça, caos urbano — e isso com certeza dialoga com as letras e a entrega vocal. Visualmente já prepara o ouvinte para um disco sem anestesia.

“Mess Bigger” não tenta soar confortável, moderno ou domesticado.

É um disco feito para incomodar.

E talvez seja exatamente disso que a música pesada brasileira mais precise agora.

Além disso, o Kaneda ajuda muito nisso como figura central. Ele não é apenas “o vocalista da banda”, mas alguém que ocupa o palco como comunicador, agitador, ponto de conexão. É o cara que não deixa o palco tomar distância do público, faz questão de descer e se misturar ao povo, é mais um de nós.

E tem outro detalhe forte: o título “Mess Bigger” soa quase como uma ameaça ou aviso. Algo tipo: “o caos ainda vai aumentar.”

Walls Won’t Make You Safe” foi o primeiro single lançado e trás o conhecido hardcore / ska nervoso que já conhecemos. “Bridges to Nowhere” também empolga, Jahya Rastaman está cada vez mais à vontade na banda e seu sax parece que sempre esteve ali.

Capoeira-Karatê” é outra já conhecida e empolga, não tem como ouvir e ficar parado.

E o álbum termina com “Trouble Times”, mais rap, punk, metal, hardcore, ska, tudo junto, numa salada musical muito bem temperada. O Asfixia Social se mostra pronto para dominar o mundo! Com discurso coerente, direto, já tendo participado de grandes festivais na Europa, excursionado com nomes do Brasil e exterior, como Cólera, os já citados The Varukers ou os italianos Los Fastidios, a banda está madura e é cada vez mais necessária.

“Mess Bigger” é um protesto musical que reafirma a força do underground, é resistência em estado bruto.

Foto: Divulgação


Ricardo Cachorrão

Ricardo “Cachorrão” é o velho chato gente boa que não pede licença pra gostar de música. Viciado em rock and roll, formou opinião longe de rádio, longe de MTV e perto demais de pilhas de discos e revistas. Tem alergia a banda cover, respeito profundo por discos obscuros do Frank Zappa e ainda sai sorrindo de um show do Iron Maiden — mas é no calor, no barulho e no caos dos buracos punk da periferia que se sente vivo de verdade. Já escreveu para Rock Brigade, Kiss FM, Portal Rock Press e a Revista Eletrônica do Conservatório Souza Lima. Está no Rock On Board desde o começo — e não pretende sair tão cedo.

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