| Foto: Eli K. Hayasaka / Rock On Board |
O
baile começou cedo.
Fila
longa na entrada do Cine Joia, público chegando apressado, cerveja na mão,
conversa atravessando a calçada e aquela sensação rara de que não assistiríamos
apenas a shows, mas participaríamos de uma noite especial.
A
fila já entregava muito do clima: uma verdadeira reunião de sobreviventes dos
anos 90. Camisas listradas, muito preto, rostos conhecidos da cena paulistana e
gente que claramente atravessou décadas carregando discos importantes na
memória. Parecia um encontro informal de pessoas que cresceram ouvindo Galaxie
500, Morphine, Sonic Youth ou o The Velvet Underground, grande influência a
todos estes, e outras bandas que ajudaram a moldar a música alternativa daquele
período.
E
o mais bonito era perceber que certas frequências continuam intactas.
Pontualmente às 19h30, Dean
Wareham sobe ao palco acompanhado de uma banda extremamente competente e
encontra um público imediatamente receptivo. Nada exagerado, nada
espalhafatoso. Apenas elegância, atmosfera e canções que seguem envelhecendo de
maneira impressionante.
| Foto: Eli K. Hayasaka / Rock On Board |
Durante
uma hora e meia, Wareham revisitou o repertório do Galaxie 500 transformando o
Cine Joia numa espécie de cápsula do tempo emocional. O silêncio respeitoso
entre as músicas dizia muito sobre a conexão construída ali dentro.
Enquanto
isso, a pista também funcionava como ponto de reencontro da cena alternativa
brasileira. Papo animado com Jair Marcos, guitarrista do Fellini e dos Tres
Hombres. Conversa descontraída com André Barcinski, jornalista, produtor e um
dos responsáveis pela noite. Rodrigo Carneiro, dos Mickey Junkies, também
apareceu entre um show e outro — e revê-lo é sempre um prazer.
Após
o encerramento de Dean Wareham, mais encontros inesperados: Ronaldo Passos, dos
Inocentes, e Edgard Scandurra, do Ira!, circulando tranquilamente pela casa
como qualquer outro fã presente ali.
A
impressão era clara: metade da história alternativa paulistana resolveu
aparecer no Cine Joia naquela noite.
Às
21h30 em ponto, o Vapors of Morphine sobe ao palco esbanjando simpatia. Bastou
um simples “boa noite, tudo bem?” para a banda ganhar o público imediatamente.
Sem
pose. Sem artificialidade. Apenas músicos claramente felizes por estar em São
Paulo.
E
então a música fez o resto.
O
sax barítono de Dana Colley pulsava no peito enquanto o baixo conduzia tudo
naquele groove arrastado e esfumaçado tão característico do universo Morphine.
O público embarcou completamente no transe proposto pela banda.
Jeremy
Lyons e Dana Colley são carismáticos, talentosos e extremamente humildes. Em
vários momentos parecia evidente o quanto estavam genuinamente felizes com a
recepção brasileira.
Antes
de tocar “Buena”, talvez o maior clássico da noite, Dana agradeceu banda,
equipe da casa, técnicos de som e público. Então deixou a promessa:
“I
see you next year!”
O
Cine Joia inteiro respondeu na hora.
Foram
duas horas de Vapors of Morphine em estado de graça encerrando uma noite longa,
intensa e emocionante.
Mais
do que shows, o que aconteceu ali foi uma celebração de pertencimento. Uma
reunião de pessoas que continuam encontrando sentido na música, na memória e
nos encontros proporcionados por noites assim.
Daquelas noites que fazem
São Paulo parecer um lugar melhor por algumas horas.
