365 e o Peso do Próprio Legado

Foto: Divulgação

Tenho uma longa e fraternal relação com o 365 desde o princípio, com o lançamento do clássico álbum de estreia autointitulado, em 1987. Acompanhei as inúmeras mudanças de formação ao longo da trajetória da banda e sempre ficou clara sua enorme dependência do vocalista e compositor Carlos ‘Finho’ Telhada.

Durante seus 43 anos de existência, o 365 lançou poucos discos de inéditas, quase sempre tendo Finho como protagonista. Além da estreia de 1987, vieram os também clássicos Cenas de Um Novo País, de 1990, e Do Outro Lado do Rio, já em 2003. Em 2013, com Neto Trindade nos vocais, durante uma das inúmeras ausências de Finho, lançaram O Destino, trabalho que encontrou recepção calorosa entre os fãs mais fiéis, mas passou praticamente despercebido pelo grande público.

Quando Finho deixou a banda definitivamente em 2016, encerrando um ciclo de idas e vindas, o 365 precisou cortar os laços com sua própria história e seguir adiante. E, para quem conhece bem a trajetória do grupo, existe um elemento que continua imediatamente reconhecível: a guitarra de Ari Baltazar.

Seu estilo possui DNA próprio. Uma identidade sonora que se reconhece já no primeiro acorde. Uma guitarra tão marcante que também ajudou a transformar, para melhor, o som da clássica Fogo Cruzado, grupo que Ari integrou nos anos 80 e voltou a defender recentemente.

Foi nesse contexto que surgiu Miro de Melo como novo frontman. Durante um dos hiatos do 365, o então baterista descobriu uma nova faceta artística à frente do projeto Miro de Melo e os Brega Punks, incentivado por Kid Vinil. A banda voltou aos ensaios, retomou os palcos e encontrou sustentação em um público extremamente fiel, que continua cantando cada verso do repertório clássico do início ao fim dos shows.

Em 2023, lançaram um disco ao vivo nas plataformas digitais. No ano seguinte veio Garagem 80, álbum de covers com releituras de bandas da década de 80 que dividiram palco com o 365 ao longo da carreira. Mas ainda faltava um trabalho realmente novo, capaz de consolidar essa nova fase da banda.

A entrada no estúdio Wah Wah Studio, sob produção do saudoso Michel Kuaker, parecia apontar nessa direção. A ideia inicial era gravar nove músicas inéditas. Infelizmente, a morte prematura de Kuaker, no início de abril, interrompeu o processo. Apenas cinco faixas foram finalizadas, e a banda optou por não concluir o restante com outro produtor, preservando o material para um futuro lançamento.

Assim nasceu Ciclo Eterno.

Luz do Eterno Amor” abre o disco reafirmando imediatamente a assinatura sonora do 365 através da guitarra de Ari Baltazar. A voz de Miro de Melo ainda pode causar estranhamento aos ouvintes mais antigos, mas a identidade instrumental da banda permanece intacta.

A atual cozinha também funciona de maneira sólida, com Milton Júnior no baixo e Wellington de Melo na bateria.

Quando Tudo Passar” aposta na fórmula mais tradicional do grupo, com riffs fortes, solos cortantes e refrão direto. “1, 2, 3 Talvez Não” surge com uma levada ska descontraída e dançante. Já “Serei Eu de Novo” desacelera um pouco o andamento e novamente destaca o trabalho de Ari Baltazar. O bloco de inéditas se encerra com “Você Terá Sempre um Lugar”, deixando clara a tentativa da banda em preservar sua identidade mesmo dentro de uma formação bastante diferente daquela que consolidou seu nome.

Na sequência aparece uma nova gravação para “São Paulo”, maior clássico da carreira do grupo. Talvez funcione como uma espécie de cartão de visitas desta nova fase, embora pessoalmente eu ache difícil mexer novamente em uma música tão definitiva dentro da história da banda.

O álbum se encerra com dez faixas gravadas ao vivo no Centro Cultural São Paulo, durante apresentação realizada em 25 de janeiro deste ano nas comemorações do aniversário da cidade.

O 365 segue existindo, mantém sua pegada e continua sustentado por um público fiel. Talvez seja difícil ampliar muito além desse núcleo cativo, mas isso talvez já nem importe mais. A banda encontrou sua forma de seguir em frente — e seu público parece disposto a acompanhá-la até o fim desse ciclo eterno.



Ricardo Cachorrão

Ricardo “Cachorrão” é o velho chato gente boa que não pede licença pra gostar de música. Viciado em rock and roll, formou opinião longe de rádio, longe de MTV e perto demais de pilhas de discos e revistas. Tem alergia a banda cover, respeito profundo por discos obscuros do Frank Zappa e ainda sai sorrindo de um show do Iron Maiden — mas é no calor, no barulho e no caos dos buracos punk da periferia que se sente vivo de verdade. Já escreveu para Rock Brigade, Kiss FM, Portal Rock Press e a Revista Eletrônica do Conservatório Souza Lima. Está no Rock On Board desde o começo — e não pretende sair tão cedo.

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